ISSN: 2447-2662
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Aos banhos de vida que escolho me entregar.

21.01.2020

Nunca consegui mergulhar de olhos abertos. Sentia um nervoso esquisito e, por isso, meus braços sempre alcançaram o infinito sem nunca saber aonde iam, até que o clarão da superfície pudesse mostrar para onde tinham me levado. Quando, depois de muito, abria meus olhos, a visão turva não me deixava perceber o quão longe tinha chegado ou quão distante meu porto seguro estava de mim - o que me assustava, mas, no fundo, alimentava uma coragem pra continuar indo sei lá pra onde em busca de sabe lá o quê.

 

Nas águas em que me aventurei sob a escuridão dos olhos que não ousavam se abrir, me entreguei para tudo que fosse possível sentir de olhos fechados. No mar, deixei que cada onda que me tocasse levasse com ela um pouco do peso das angústias que sempre alimentei; nas cachoeiras, sentia que toda a energia das pedras purificava cada uma das minhas células enquanto transmutava qualquer cansaço em Vida; e, nos rios, me permiti sentir a calma do que é Estar presente, sem qualquer pressa para Ser o que quer que fosse.

 

De olhos fechados, aprendi a sentir.

 

Encontrei à vida na coragem de desbravar águas desconhecidas e a mim mesma na imensidão de um Rio infinito. Em algum momento, aprendi o que o som das águas batendo nas pedras queria me ensinar sobre escutar com atenção à intuição que pulsa dentro de mim. Enfrentei o medo das correntezas que queriam me puxar para onde meus pés não alcançavam, para onde não me sentia livre e segura (nesses momentos, a Deusa do mar me lembrou da importância de sempre respeitar o que a voz que vem de dentro me diz). Ainda, conheci quem, nas águas, sente medo de se aventurar, alguns que preferem boiar enquanto a maré os leva pra algum lugar e àqueles que se entregam de olhos e peitos abertos pra imensidão do desconhecido – que é o mar, ou a própria vida. Inspirada por esses últimos - mas ainda com os olhos fechados - mergulhei nas profundezas de um mar de sentimentos rasos até me afogar e, tempos depois, ainda não é fácil voltar à superfície.

 

Depois de tanto, nas águas como na vida, queria aprender a nadar de olhos abertos. Poder observar a vida que pulsa na imensidão azul do fundo do mar. Desfrutar da transparência das águas das cachoeiras para aprender a ser eu mesma cada vez mais transparente comigo e com o mundo que me cerca. Aguentar o ardor nos olhos, que, por mais que incomode, me deixaria ver a verdade das coisas, por mais doídas que elas possam se revelar. Pra não alcançar o infinito, mas pelo menos a escolha dos olhos que avistaram uma direção e nadaram até ela com coragem, sabe?

 

Reconheço a grandiosidade dos olhos fechados que me ensinaram a sentir, mas, mergulhando na vida desse ano que começa, quero nadar nessas mesmas águas de olhos abertos. Quero sentir tudo de novo, mas, dessa vez, consciente de onde estou.

 

Foto de Deborah Melegare: @memories_that_remain_

 

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