ISSN: 2447-2662
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Rompendo as barreiras do próprio som - porque é essencial compartilhar a música brasileira

23.10.2019

Eu passo muito tempo ouvindo música. O universo de escolha ganhou imensidão depois dos streamings e da revolução que a internet representou no cenário musical.

 

Mas, pra mim, descobrir artistas novos nunca foi uma atividade momentânea, a música nunca foi barulho de fundo enquanto eu prestava atenção em outras coisas. É um ofício importante, que exige muitas etapas. Depois de descobrir uma música, era preciso ouvir as outras. E escutar as performances ao vivo. E encontrar possíveis covers de outras músicas. E assim em diante.

 

 

A última etapa sempre foi a minha favorita: a música não podia ficar guardada comigo, aprisionada a um único par de fones de ouvido, restrita a um único trajeto até a faculdade. Eu precisava compartilhar, mostrar pra quem quer que fosse, a catarse nova do mês. E que prazer era encontrar gente que fazia o mesmo.

 

E foi assim que eu descobri uma das minhas mais recentes (e avassaladoras) paixões. Deitada na cama de um apartamento com o ar condicionado a mil por hora pra combater o calor da Moreira César nas tardes de janeiro. "Você já ouviu Jaloo?". E eu nunca tinha ouvido falar no paraense que, honrando suas raízes indígenas, reinventava a música brasileira.

 

Daí foi amor à primeira vista: Jaloo é diferente porque ninguém tinha ousado misturar a música eletrônica, o tecnobrega, e instrumentos típicos do norte do Brasil. Naturalmente, essa fusão inesperada pode causar um estranhamento inicial, ainda mais se somada às letras que, irreverentes, aproximam o ouvinte brasileiro de uma realidade que pode ser muito distante. Não é a história da moça de São Paulo andando pela Praça da Sé. Também não são versos do carioca apaixonado pela orla da cidade. Como ele diz, muito melhor do que eu: "isso é coisa doida que só tem no Pará".

 

O discurso e a postura de Jaloo são claros: a gente tá perdendo muito tempo não valorizando o nacional. E mais, a gente se engana se acha que a cultura brasileira é restrita ao aglomerado do Sudeste, ousando, no máximo, ir até a Bahia. Ele é uma das maiores potências capazes de reverter esse quadro. 

 

Desde seu primeiro disco, o #1, de 2015, ele sempre fez questão de integrar todo o processo produtivo. Assim, assina as letras, a performance, as mixagens e até algumas campanhas de marketing. Em Dom, uma de suas músicas mais recentes, ele garante: "eu sou real e minhas paradas sou eu quem faz". Nada passa despercebido pelo cantor que, depois de 4 anos, lançou em 2019 o seu segundo álbum, o ft (pt. 1). 

 

Essa segunda obra também carrega uma grande responsabilidade - quase gratidão - pela cena emergente do indie nacional. Apesar de fazer colaborações com artistas já estabelecidos entre esse público, como Duda Beat, Karol Conká, e Lia Clark, Jaloo também traz, em sua segunda produção, nomes mais escondidos (ou menos hypados) que eu certamente não conheceria se não fosse por isso.

 

Os dois trabalhos têm funções opostas, mas complementares: o #1 apresenta Jaloo, sua essência e sua inovadora proposta para o som brasileiro - é sobre compor sua identidade; o ft. é inteiramente colaborativo, e nos introduz a novos artistas, como se fosse o jeito que Jaloo tem de retribuir o que aconteceu com ele desde 2017 e tocou no Lollapalooza - foi aí que ascendeu e ganhou popularidade.

 

Passar mais tempo descrevendo a sua obra é quase um insulto, e vai contra o seu propósito principal. Retorno, então, à minha etapa favorita, e compartilho o meu artista mais ouvido de 2018 com vocês. Como o intuito dele mesmo é aproximar os brasileiros de suas próprias raízes, eu recomendo (fortemente) que vocês, leitores, embarquem nessa experiência - e a vivam tanto quanto eu passei a viver, rotineiramente.

 

https://open.spotify.com/artist/1rdXEdH8SRIqbuTbzQzd93?si=mxqzxH88T26G-FBYyb_nGw

 

Beatriz Vergette é aluna do 6º período da FGV

Fotos: Beatriz Vergette e Sofia Panisset

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