ISSN: 2447-2662
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O poder do mercado no movimento dos direitos civis e a Economia da discriminação

Selma, Alabama nos Estados Unidos, para um despercebido, é apenas mais uma cidade onde o vento passeia junto com as atividades irrelevantes de seus moradores. Com 18.370 habitantes (2017), a cidade possui uma arquitetura típica do antigo sul do país, com edifícios baixos e casas centenárias, mas seu passado está longe de ser pacato.

 

Escolhida como centro das atividades da luta contra desigualdade racial presente em alguns estados sulistas americanos pela SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee, em tradução, Comitê de Coordenação Estudantil Não Violenta) e pela SCLC (Southern Christian Leadership Conference, ou Conferência da Liderança Cristã do Sul) - tendo essas organizações como figura central e visada tanto pela força policial quanto pela mídia internacional o próprio Luther King - e também como um dos pontos de segregação racial nas esferas de direitos civis.

 

O simbolismo que toda parte urbana de Selma carrega é poderosamente centralizado na ponte Edmund Pettus. Suas vigas presenciaram em 1965 as 3 marchas que marcaram a história mundial com a liderança direta de Martin Luther King Jr. na linha de frente nas duas últimas marchas. Com experiência no pastoreio protestante no exercício do comando de sua congregação, King fora um líder perspicaz num ambiente repressivo mediante sua política de protestos pacíficos. As imagens gravadas pela imprensa global da violência policial em confronto com um aglomerado de manifestantes negros pacíficos fizeram a diferença e possibilitaram a canalização da atenção dos americanos, a qual o movimento, que buscava o exercício dos direitos civis, precisava em volta de um problema interno que o país deflagrava, além de corromper a validade da Constituição americana.

 

 

King especificava qual desigualdade estava em jogo a ser mudada: a econômica. Em frase proferida no longa “Selma: uma luta pela igualdade” (2014) de Ava DuVerney, a personagem King dizia “De que adianta um negro poder comer numa lanchonete, se não ganha o suficiente para pagar o sanduíche... se não lê o cardápio porque não há escolas para negros em sua cidade”. O êxito dos boicotes à rede de ônibus da cidade vizinha Montgomery, que segregava os clientes de cor, mostra o poder no qual o mercado age: o dinheiro não entra no caixa, então abole-se a segregação. Esse silogismo é explicado nos próximos parágrafos.

 

Economia da discriminação

 

Essa instituição (o mercado) é tão poderosa, pois viabiliza os fluxos de capital e permite o lucro sobre os que estão sob seu domínio, no caso todos que convivem em sociedade no mundo liberal. Ao mesmo tempo que a princípio o mercado acolhe a desigualdade econômica racial, ele a suprime. A economia por trás dos boicotes é um exemplo: enquanto políticas discriminatórias de uma empresa são exercidas sobre a parcela dos consumidores impedindo a equalização das pessoas e valorizando a superioridade de um grupo exposto a quantidades maiores de oportunidades, a distribuição de renda será concentrada, entretanto, o inconformismo da parcela prejudicada insurge os atos contra o sistema em questão até que requisitos sejam atendidos, e a legitimidade da prática não é perdida, isso pois quem consome tem de exigir o que demanda.

 

Gary Becker, professor da universidade de Chicago, discorre um pouco sobre o tema no cenário mercantil em seu ensaio: “The Economics of Discrimination” (A Economia da discriminação). Segundo Becker, o mercado tem reações instantâneas a distúrbios nas suas próprias engrenagens. A chamada “discriminação ruim” seria aquela que quebra o funcionalismo burocrático weberiano em prol de convicções preconceituosas.

 

Contextualizando para o cenário americano dos anos 60, o empregador que rejeitar um trabalhador negro pela cor da pele estaria ignorando o potencial que ele ofereceria, excluindo o mérito. Ao contratar um branco no lugar, o empregador poderia estar apenas aumentando ainda mais seu custo oportunidade (o custo de não realizar a melhor alternativa para o mesmo espaço de tempo, no caso hipotético, de não contratar o homem negro). A mão de obra é reduzida e não aproveitada em excelência, logo o mercado é reprimido e colocado à adaptação em um ambiente fora do considerável ótimo. A um custo maior, seu rendimento cairá e o problema de maximização do lucro por ele esperado não será possível.

 

Isso se dá pois, em um cenário como esse, o limite da oferta de emprego exclui a possibilidade de um salário menor aceito por quem é impedido de trabalhar, os negros. Ademais, o racismo dos clientes atingiu aos próprios. A reluta de não ser atendido por alguma pessoa negra infligiu ao empregador o defronte com curvas de custo mais alavancadas (custos mais altos) que se refletiam nos preços dos produtos.

 

Mesmo que o livre mercado tenha seu papel por si só, a interferência do legislativo na formulação de leis anti-discriminação nos ambientes públicos apresenta sua importância na insistência de um mecanismo segregacionista não abalado pelas perdas monetárias de sua política, a fim de trazer uma equiparação de renda devido ao nivelamento de chances e qualidade das funções exercidas por pessoas de diferentes cores, mas essas leis não vêm dos governos locais desses estados, uma vez que os governos locais têm cargos preenchidos por aqueles que amparam a discriminação, legalmente ou verbalmente. A abrangência dos protestos liderados por King foi federal e assim as leis vetadas no alto do executivo levaram a população negra às urnas no Alabama apta a decidirem quem os representa.

 

Portanto, tanto o livre mercado quanto, obviamente, as tais leis se opõem a discriminação racial. O racismo não está amparado em qualquer esfera que rege a sociedade, ele distorce o funcionamento da economia e das relações de poder em geral e com isso gera a perda de bem-estar social para quem sofre diretamente assim como para quem as perdas econômicas são repassadas.

 

 

Bibliografia e referências:

 

Becker, G. The Economics of Discrimination. (Chicago: University of Chicago Press, 1957).

 

https://www.imdb.com/title/tt1020072/ Selma: uma luta pela igualdade (2014)

Bernardo Albernaz é aluno de Economia da FGV.

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