ISSN: 2447-2662
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Janelas do meu passado

28.11.2018

Toda família estrutura-se em tênues laços, sendo inevitável a discórdia com aqueles que dividimos o mesmo teto. Minha casa sempre foi composta pelos mesmos personagens: eu, minha avó, mãe e tio. Somos quatro mais os cachorros, somando seis, mas já foram cinco e também sete - nunca menos de cinco, nem mais de sete.

 

Minha mãe, sempre insatisfeita com a disposição da casa, propunha-se a mudanças diárias. Por vezes, em mínimos detalhes meu quarto não era o mesmo, e eu sempre o corrigia. Mamãe, contudo, era incansável: pintava as paredes e armários; alterava a estante a todo momento, colocando diferentes livros em ordens diversas; surgiam novas formas de dispor os talheres; o lixo nunca era o mesmo; e os quadros migravam da parede ao chão, às vezes sendo até doados, enquanto novos apareciam e ela os pendurava com veemência por uma semana.

 

A casa sempre possuiu um sem número de pinturas feias; algumas, contudo, mais agradáveis, que pertenciam ao meu tio (essencial essa desnecessária quantidade de quadros para minha mãe mudá-los constantemente). Quando digo que o quadro era de meu tio, enfatizo: ele os havia pintado. Sempre indiferente, com seus amigos da escola executava suas peripécias. Dentre estas, era pintor. Por vezes, nasciam quadros fantásticos ou até abstratos; algumas peças, porém, se caracterizavam pela sobriedade material.

 

Ocasionalmente, esgotada de reorganizar o mesmo espaço, mamãe propunha mudar de apartamento. No tempo de vinte anos, fizemos dez mudanças. Vovó nunca foi uma admiradora dessa eterna metamorfose, enquanto meu tio permanecia em silêncio. Sempre nômades, as únicas reminiscências de antigas moradas foram as janelas, já que todo o resto era modificado.

 

 

Quando criança, tinha um medo incontornável das janelas de casa. Morávamos no décimo terceiro andar, ver a cidade era mortal. Ainda assim, observava do alto como as pessoas eram pequenas e a insignificância de suas vidas; enquanto o espetáculo residia em frutos e folhas naturalmente espalhados no chão pelas árvores que cobriam a rua. Olhando para frente havia um enorme prédio, maior que o meu, com um morro atrás dele que demarcava os limites geográficos.

 

No apartamento seguinte, dez andares mais baixo, vislumbrava uma vila pacata. À frente das frinchas que meus olhos apareciam, uma mansão branca, abandonada e incauta, vertia o clima ameno num temor constante; e quando me mudei para o oitavo andar do mesmo prédio, anos depois, a mansão se transformou em uma academia. Com esta, o branco fez-se em vidro e houve um aumento considerável na movimentação da vila, que já não era mais pacata.

 

Depois se sucederam vistas miseráveis como a de agora, em que escrevo diante de uma parede. A janela serve para observar o mundo, não o concreto. Me recuso a abrí-la só para a entrada de mosquitos e outros insetos. Portanto, realizo minhas leituras e meu dia num lugar hermético, iluminado somente por um abajur.

 

Quando era pequeno e a janela de casa era útil, houve uma exposição das pinturas de meu tio e seus demais amigos, da qual não lembro de nada. Em verdade, minha única reminiscência é de um quadro, o mais elogiado: no meio de um vasto jardim, presa numa bela parede de tijolos e com o interior preenchido por um azul oceânico, havia uma janela. Despretensiosamente e de bom grado, meu tio presenteou a irmã de minha avó com essa pintura. Talvez nesse dia tenha me interessado por janelas.

Felipe Bonato é estudante do 6º período de História na UFRJ.

As ilustrações são da Marília Arruda, ilustradora da nossa 12ª edição

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