ISSN: 2447-2662
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram

O espaço das livrarias independentes: como é fugir do cenário convencional

A Blooks, livraria que surgiu aqui do nosso lado, no Cinema Itaú da praia de Botafogo, tem uma proposta incomum, mas que se assemelha muito ao projeto da Ágora: dar voz àqueles que nem sempre são ouvidos como deveriam. Para sabermos mais sobre a história da Blooks, conversamos com a Elisa Ventura, jornalista e fundadora da livraria, que nos contou um pouco sobre como é atuar no mundo dos livros de forma independente.

 

P: Você poderia falar um pouco mais sobre sua trajetória, formação acadêmica e outros trabalhos além da Blooks?

Elisa: Venho de duas formações. Uma é de produção de evento, fiz muito coisa de produção de evento. A gente realiza tanta coisa aqui que eu nunca me entendi como livreira, e muito mais como uma produtora de eventos. Tive uma livraria antes da Blooks que ficava no espaço São Luiz, era uma livraria pequenininha e tal, que foi o começo mesmo de tudo e tive durante 18 anos a Aeroplano Editora, que foi uma editora que eu fui consorcia e tive o privilégio de ter como consorcia a Luísa Buarque de Hollanda. Aí eu tive durante 15 e 18 anos, e mesmo junto com a Aeroplano, a gente já desenvolvia essa coisa de literatura com evento, com a ideia de mesclar tudo, e acho que quando eu criei a Blooks, justamente por eu não ser livreira, que eu já criei um pouco a livraria com esse DNA de ser um espaço cultural. Então a minha formação toda é muito mais nesse sentido, de quem tá sempre pensando e produzindo coisa, faço questão de dizer que não sou livreira. Acho que é por isso que de alguma forma a Blooks ficou um pouco diferente da livraria convencional, por conta disso, dessa experiência.

P: Você pode contar mais sobre a Blooks, como surgiu, expandiu e como foi a criação de novas lojas...

Elisa: Essa livraria aqui surgiu junto com o cinema, na verdade ela era uma livraria do cinema. Eles me chamaram para abrir a livraria e administrar. Mas chegou um momento que eles acharam que não era mais do interesse deles ter uma livraria dentro da gestão deles, pois esta era toda em torno de cinema. E como eu tinha montado e idealizado, me perguntaram se eu não gostaria de comprar a livraria. E aí surgiu a Blooks, que na verdade não tinha esse nome, era algo como “Livraria do Arteplex”, não tinha muita identidade nem nada. E aí fiquei nessa coisa de qual seria o nome, o conceito, e aí surgiu a ideia de Blooks, que, na época, era a combinação de blogs + books, no início da internet dos blogs, nos quais eles viravam livros. Além disso, na época fiz uma grande exposição pela Aeroplano chamada Blooks, aí resolvi colocar um nome diferente e surgiu o nome Blooks, isso tem uns 10 anos. E aí a gente começou a dar uma identidade, uma cara. Como eu vim de editora pequena, comecei a apoiar essa coisa das editoras independentes, que era mais ou menos uma coisa que eu vivia do outro lado, sentindo dificuldade de botar livro nas livrarias, e aí comecei a dar uma cara menos mainstream, digamos assim, querendo dar um espaço pra quem não tinha muita voz nessas livrarias grandes, e para assuntos também que não tinham muito espaço. Então isso, lá atrás, há 10 anos atrás, fomos a primeira livraria que criou uma seção de LGBT né, isso não existia. A gente criou uma seção de ficção científica, que não existia, criamos uma de quadrinhos também, pois eles não existiam dentro de livrarias, apenas dentro dos espaços próprios. Então comecei a procurar onde que estava o diferencial, que a gente podia fazer de diferente, a ideia não era fazer uma livraria igual a todas, como eu te falei, não sou livreira. Aí eu re-formatei tudo, de fato ela virou Blooks, e aí foram surgindo oportunidades, e eu sou uma pessoa que me jogo muito, até meio irresponsável assim, e empolgada. Então surgiu a ideia de São Paulo por que tinha a ver com Itaú também. Lá é dentro de um shopping mas dentro do Espaço Itaú. E ficou essa ideia de estar perto de um equipamento cultural, a ideia nunca era, nunca foi ficar no meio da rua, do nada, num shopping sem ter nenhuma identidade. Naturalmente começou a surgir esse casamento de cinema com livraria que dá super certo, então surgiu São Paulo, depois o Reserva Cultural, que é um outro cinema de outro grupo que tava em Niterói, e era um espaço que eu queria muito estar, pois sabia que tinha demanda para livraria e aí eu, na cara de pau, para ir, e as coisas foram meio surgindo. Nunca passou pela minha cabeça ter mais de uma loja, pensei que fosse ficar a vida inteira aqui, mas foram as oportunidades mesmo.

 

P: Você considera que a Blooks tem um público alvo ou não?

Elisa: Acho que sim, estamos aqui pra todo mundo, mas naturalmente começam a identificar a gente com alguns... Acho que a gente é uma livraria que trabalha muito bem em nicho, acho que a gente fala com determinados públicos bem, é bastante interessante pra gente. Algumas discussões que a gente faz aqui acontecem aqui porque tem a ver com o que a gente pensa. Então assim, é claro que eu tenho livro para todos os tipos de público, mas eu acho que a Blooks acabou, de alguma forma, falando com um público específico. Então eu acho que hoje as pessoas identificam como uma livraria diferente com acervo diferenciado, com curadoria, coisa que tá a cada dia mais difícil. Então a gente um pouco mostra isso, nenhum livro aqui tá à toa, não há motivo para eles estarem, né. E essa coisa de abrir pras editoras independentes que a gente faz há muitos anos, agora tá um pouco de moda, mas a gente já fazia isso há muito tempo.

 

P: Percebo que é sempre mais fácil encontrar determinados livros aqui do que em outras livrarias...

Elisa: O que eu digo, às vezes, é que o livro está em todos os lugares. Mas como eles estão preocupados em só dar voz pra quem tem editoras grandes e tudo, aqui é diferente: um livro de uma editora como a n-1, que é uma editora pequena, vai estar no mesmo lugar que uma Companhia das Letras. O livro da n-1 certamente vai estar em todas as livrarias, mas a diferença é que nas outras livrarias ele fica no cantinho, e aqui ele fica na vitrine. Acho que isso é um diferencial.

P: Como que acontece a organização e o planejamento de eventos? Quem organiza?

Elisa: Cara, é uma coisa meio caótica assim, porque basicamente eu, Nélida e umas outras pessoas, ficamos muito atentas a tudo que tá acontecendo. O Facebook pra mim é uma ferramenta que eu vejo um assunto eu já falo “Nélida, vamos atrás disso aqui, tão falando disso aqui, vamos correr atrás”, então assim, eu cansei, e essa coisa de evento aconteceu porque eu cansei, de ficar esperando as pessoas me procurarem para fazer evento, fazer lançamento de livro. Quando percebi que isso era uma coisa muito fechada entre 3, 4 editoras e livrarias, eu falei “então eu vou fazer os meus, não preciso de ninguém”, e aí foi que  a gente começou a criar os nossos eventos, e, à medida que a gente foi criando, foi surgindo também as demandas, mas foi muito nessa coisa de “se ninguém me procura eu vou procurar, vou fazer os meus, vou me virar sozinha”. Então foi assim e continua sendo assim, claro, hoje em dia tem muito mais procura, evidentemente, mas a gente tá sempre onde tem alguma coisa assim, mas e a gente vai atrás na mesma hora.

 

P: Existem dificuldades no seu trabalho na Blooks? Quais são as maiores?

Elisa: Cara, dificuldade é competir com esses predadores de preço, então assim, enquanto não tiver essa política de preço, fica muito difícil a gente competir, e as editoras também não ajudam não sabem trabalhar com as livrarias... porque o que tá crescendo hoje, e todo mundo sabe, pois é um movimento que tá crescendo no mundo inteiro, são as livrarias independentes. Em qualquer lugar do mundo as “redes” estão fechando e as independentes tão crescendo, eu acho que esse é o futuro, mas aqui no Brasil a gente tem esse problema que a gente não tem essa lei do preço único. Então você briga por preço né.

 

P: Como é lidar com as editoras? Tem alguma diferença entre lidar com as independentes e as mais tradicionais do mercado?

Elisa: Cara, é muito diferente, porque paras independentes, a Blooks é uma livraria muito importante, e para as grandes eu não sou porra nenhuma. Então eu cansei, e falei, chegou um momento que eu fiquei “para de falar de editora grande no Facebook, no Instagram, nas redes”, falando pra mim mesma. Porque se eu fizer um post amanhã de um livro da Record, de sei lá quem, uma autora famosa, a Record tá cagando pra mim, a autora famosa tá cagando pra mim, e aquilo não vai ter repercussão nenhuma. Se eu fizer um post de uma editora nova, pequena, com uma autora, não precisa ser nova, mas uma, né, que não tá aí, vai ter uma repercussão muito maior, vai ter uma importância na vida deles que reverbera vinte vezes mais do que  falar de uma editora como a Record. Então assim, eu acho que as editoras pequenas, médias, independentes, são essas que tão sabendo se mexer na crise, as grandes estão desesperadas, acho que elas fazem uma bobagem atrás da outra. É impressionante a quantidade de bateção de cabeça que tá tendo, porque eles não sabem o que fazer, eles tão levando cano de diversas livrarias grandes, querem trabalhar com a gente do jeito que trabalham com a essas livrarias, e a gente não é como elas. Então, assim, tá muito ruim essa relação, tá péssima. Então eu foco e olho cada vez mais pros independentes porque hoje independente é tudo, não mais aquela editora pequenininha. Eu fiz um lançamento enorme aqui do livro do Mangabeira Unger com o Caetano Veloso, e só aconteceu aqui porque a editora era independente, porque se esse mesmo evento saísse por uma editora grande, é óbvio que eles não iam fazer aqui, evidente. Então tem isso, os próprios autores também estão olhando pra essas editoras com simpatia, porque sabem que vão ter uma independência e vão ter uma atenção da editora muito maior do que se cair na mão de uma editora grande. Então acho que isso tudo tá mudando muito assim, pra melhor, eu acho.

 

P: Você poderia falar mais sobre o evento Fliaraxá?

Elisa: É um evento que a gente faz todo ano, uma feira em Araxá, em Minas, que é espetacular, bacana pra caramba com autores… o curador é o Afonso Borges e é um evento mega democrático, que é pra todo mundo e com autores incríveis, é uma Flip em Araxá, o mesmo formato, assim. Então é muito legal porque tem um público carente disso lá, é super bacana.

 

P: Quais são as suas expectativas pra Flip desse ano?

Elisa: Cara, a Flip deste ano vai bombar, mas ela não vai bombar a Flip, ela vai bombar todas as casas que estão sendo feitas paralelas, isso vai bombar. A Flip, se não olhar pra isso, eles tão ferrados, porque é óbvio que a programação da Flip, e ela tá mais fraca do que já esteve, porque eles também tão sem dinheiro e tudo, e hoje o que movimenta a Flip são as casas. E cada vez tem mais, cada vez mais legais, com programações mais incríveis, e esse ano tem casa fantásticas.

 

P: O que são exatamente essas casas?

Elisa: Algumas pessoas se juntam e fazem programações específicas dentro de algumas casas, então ficam paralelamente à Flip, com umas programações gigantes. Os organizadores estão entendendo que precisam agregar essa programação à Flip, porque é isso que movimenta, então acho que é imperdível de ver essa programação paralela, é muito legal.

 

P: E onde acha isso?

Elisa: Cara, isso não está na programação oficial da Flip, então tem que procurar. Uma que vou participar que é em um barco, que vai ter uma programação incrível, acho que muito melhor que a da Flip, vai ter a casa amarela que é uma galera de São Paulo... 

 

P: Mais alguma coisa a acrescentar?

Elisa: Que a gente sobreviva à crise (risos).

 

P: Obrigada, acho que livrarias são incríveis.

Elisa: Sim, porém as pessoas precisam comprar nelas, acho que essa é a maior dificuldade, de fazer as pessoas entenderem isso né.

Isabella Marins é aluna do 4º período da FGV Direito Rio.

Fotos por: Ana Clara Jansen e Beatriz Vergette

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload