ISSN: 2447-2662
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram

Fogo e Cólera

05.09.2018

As vidas mais perturbadas ensaiavam seus caminhos no sorrir das estrelas do último domingo. Mesmo os de casa própria ou os de morada nas ruas, nosso inconsciente toque de recolher sussurrava um “já é tarde”. Passos largos encardiam os pés dos que andavam. Mãos ofegantes suavam o volante dos que dirigiam. As cortinas se fechavam para o primeiro domingo de setembro no Rio de Janeiro e, se segunda-feira não tivesse demorado tanto a se levantar, talvez o grande-esquema-das-coisas esquecesse do fogo carrasco que fez acinzentar o Museu Nacional.

 

Ungidos no espírito do tempo, museus guardam itens de valor inestimável. Afrescos, ornamentos, pinturas, relicários fósseis e outras inumeráveis expressões da Arte e da História marcham compassadamente a fim de alinhar as vértebras da trajetória humana fora dos domínios mercadológicos. Tão sacros para a História como são as igrejas, templos, mesquitas e terreiros para as Religiões, museus são revestidos de patrimônio cultural. Servem, pois, como bússola arquitetônica, cuja pretensão é nos mostrar de onde viemos; nos ensinar quem somos e endereçar os passos que nos levarão até onde precisamos chegar.

Nessas linhas, o desgosto da perda amarga a boca, faz espumar os lábios e escorbuta os dentes. Nesta grande navegação – Brasil – sentimos os maus tratos de um mar em ressaca, e o horizonte nos tem sido ingrato em fornecer pista de terra à vista. Grande verdade é que não somos autores de nossa própria história. Como impessoais, como terceira pessoa, observamos nossa metamorfose em pasto - onde só há gado e soja. A indigência cultural, patologia primária do brasileiro, vem necessariamente com as mordaças da pessoa política. Em meus gostos, entendo a lógica com fluidez: mata-se primeiro a memória juntamente da cultura; posteriormente, assassina-se a consciência crítica e nosso espírito político para, finalmente, injetarem nesta casca oca o veneno que quiserem. No limite, o Brasil é brasa, e os que tentam apagá-lo acabam igualmente incinerados.

 

Por essas águas, o mergulho é ainda mais profundo. As línguas mais peçonhentas sugeririam que não deveríamos ir além de nossas chinelas nesta discussão. Silenciam nossos gritos e riem do nosso silêncio ensurdecedor, verdadeiros pilantras, esses que autografam nossa história. A narrativa brasileira tem sido autobiográfica e tem sobrado pouco espaço para os melhores instintos. As formigas que sobem nosso estômago, quando vimos queimar o Museu Nacional, são a cólera que verte biles em palavras de sangue. Pois que vomitemos cólera! Que deixemos claro que não nos interessa vencer no pasto das ideias! Não será pela profissão, nem muito menos pela cabeça, que provaremos a necessidade da reflexão. Será, sim, pela garganta, pelo calibre da goela em hora de engolir! Só daí vem a força amarga do pensamento independente. Dói, e muito, ver as raízes do Brasil sendo levadas pelos mitos do momento, pela efemeridade dos tempos, pela síndrome de vira lata que infeccionou a nós todos.

 

Nossa psicose não é política. Nossa psicose é dos valores. É desse interesse fútil em partidarizar e encoleirar o assunto público que a seiva de nossa desgraça escorre. Nossa cultura continuará sendo puxada por esse e por aquele dono enquanto existir a dualidade burra entre os comuns dos mortais e os babacas intelectuais. A cólera, sublinho, deve ser a controvérsia dos poderosos, que tanto temem que passemos o canivete nas rédeas da cultura e lembremos que o cão ainda acorrentado traz uma besta no avesso. Uma cólera tão destrutiva quanto o fogo que consumiu 200 anos de História deve ser o remédio que cicatrizará essa ferida hemorrágica, tão difícil de estancar.

 

Agora, o maior museu da América Latina tornou-se carcaça e o que sobraram foram ecos de história que ainda reverberam por aí, neste momento menos ordenados do que antes. Não se sabe para onde foram, nem se sabe onde vão chegar. O corpo brasileiro parece menos vivo e carnal, mais rarefeito, holográfico, com menos substância que o justifica e sustenta. Hoje, ainda existem instituições de memória no Brasil que agonizam com o descaso dos moralistas – o Museu Paulista passa por uma reforma interminável; o Museu da Língua portuguesa incendiou e, depois de 3 anos, ainda está sendo refeito. Nós queimamos demais para ser por acaso. A vocação iconoclasta é tão parte da genética brasileira quanto os retratos históricos que não resistiram às línguas de chama.

 

Às poucas palavras que me restam, dedico um pedido aos moralistas. Que vão. Vão pôr a boca na imprensa. Vão pregar suas lições; vão dizer o que é o justo e o que é o injusto; vão pingar as gotas de seu populismo nas palavras vagas e românticas que escarram; vão desperdiçar o papel de seu jornal! Mas não metam as fuças sobre os muros que socorrem a cultura. As políticas culturais, no Brasil, muito me lembram os homens que se vestem de mulher no Carnaval. Passam 11 meses do ano exalando a construção social da masculinidade, sempre preocupados com a pureza de sua virilidade. No entanto, creditam ao Carnaval a possibilidade de inverter esses valores com uma justificativa razoável para não comprometerem sua sexualidade. Mexericas em sutiãs simulam os seios escassos, almofadas enriquecem as nádegas e a maquiagem colore as bochechas barbadas. Tudo isso me leva a crer que dogmatismo, caricatura e deboche são coisas que muitas vezes andam juntas e que a política cultural, fantasiada de verdadeiro interesse, me parece, em geral, como falsos travestis do Carnaval. No fim do dia, é tudo o que temos em terra arrasada – Fogo e Cólera.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload