ISSN: 2447-2662
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Mapeamento carioca: desvendando utopias Entrevista com Rosângela Rennó

"Já fotografou algum lugar utópico do Rio de Janeiro?" Com essa pergunta, Rosângela Rennó convoca a participação dos cariocas para construir uma exposição fotográfica que pretende mapear o Rio para além do eixo centro-zona sul.  A Rio Utópico, exposta no Instituto Moreira Salles da Gávea, apresenta registros de localidades com nomes utópicos feitos pelos moradores, configurando o caráter colaborativo do trabalho. Do Jardim Maravilha à Vila da Paz, o projeto, de curadoria de Thyago Nogueira, propõe um olhar diferenciado sobre as paisagens cariocas e a mobilização da comunidade para representar seus próprios lugares.

 

A gente queria saber primeiro sobre a própria Rio Utópico, qual foi sua inspiração principal para o desenvolvimento da exposição?

Foi o seguinte, o Thyago Nogueira, o curador da exposição, me convidou para desenvolver um projeto sobre o Rio de Janeiro e eu tinha já um desejo de mapear a cidade, principalmente a Zona Norte e a Zona Oeste, usando a Avenida Brasil como uma espécie de linha, de fio condutor que de alguma forma conecta e faz passar por várias localidades, por várias comunidades.

Quando foi feita a proposta, eu acabei formalizando em cima de outro anel viário, que foi, na verdade, sugerido pela rota do BRT. O que aconteceu foi que, no decorrer do desenvolvimento do projeto, a gente acabou fazendo um workshop junto com o próprio Moreira Salles, que gosta de fazer ações educativas associadas a exposições, e a Ana Luiza Nobre, que é professora da PUC, trouxe uma série de informações sobre as desocupações que foram recorrentes nos anos pré-olímpicos.

A ideia toda surgiu a partir do anel viário e do próprio mapa, do desejo de criar o mapa da cidade e descobrir de que maneira eu poderia fazer uma espécie de mapa fotográfico do Rio de Janeiro, que tivesse como ponto de partida a localização do próprio Moreira Salles, ou seja, colocamos como ponto referencial a porta de entrada do Museu, para ocupar e olhar para o Rio de Janeiro, trazendo mapa para dentro da cidade. Por isso que existe o mapa de fato no piso, e esse piso, ao colocar o Moreira Salles como porta de entrada, coloca a Zona Sul nas nossas costas, nas costas de quem entra no espaço, e coloca o foco na Zona Norte e a Zona Oeste.

O projeto, então, nasceu do mapa da cidade do Rio de Janeiro e do desejo de fazer um mapeamento humano e fotográfico das cidades que foram escolhidas olhando para dentro do mapa, vendo os nomes das comunidades, dos conjuntos habitacionais e dos loteamentos, e aí acabou vindo a ideia de uma espécie de um Rio ideal, que, de alguma forma, através dos nomes das localidades, fosse possível pensar no que há de idealismo, ou de ideal na própria escolha dos nomes. Escolhemos, então, cinquenta localidades e construímos uma espécie de diagrama de parede para podermos receber as fotos delas. Começou com o workshop no ano passado, do qual participaram 5 jovens fotógrafos, todos eles moradores da periferia, e fotografaram cerca de 15 localidades e, na verdade, agora a gente está com a proposta de abrir para a participação dos cariocas para que possamos preencher as lacunas desse empreendimento fotográfico. São lacunas porque são como uma espécie de lançamento e a gente pretende encher as paredes com as fotos das 50 localidades escolhidas até março.

 

 

 

Ficamos muito impactada com o projeto, mas uma curiosidade que tivemos tem a ver com o nome da exposição, Rio Utópico. Nos questionamos: como seria esse Rio ideal para você?

Na verdade, eu não sei (risos). Então, a ideia do mapa fotográfico, é muito para descobrir isso, e o que de fato há de utópico nele. Na verdade, essa é uma pergunta que eu faço, quer dizer, a proposta é, lógico, uma provocação, na medida em que eu espero que os próprios moradores da cidade do Rio de Janeiro me respondam como é, o que há de utopia e o que há de realidade nos lugares onde eles vivem e que eles me digam, me mostrem que o que é, já que eu não sei, como o morador daquela localidade, como ele vive. Eu não conheço o lugar onde ele mora.

E tem uma outra questão também, eu não sei como ele vai responder a essa convocatória. Que tipo de imagem ele vai mandar? Como ele está interpretando isso? Será que de fato ele quer mostrar o que há de bom, o que há de ideal, ou ele vai trabalhar no sentido oposto? São incógnitas. Na verdade, a minha tentativa é de mapear. É quase como uma espécie de trabalho de urbanista, de cartógrafo, mas em vez de cartografia apenas, o que eu quero é uma cartografia fotográfica.

E o que, em geral, eu tenho percebido, é que o desejo das pessoas, na maioria das vezes, é mostrar que o lugar onde ele mora é bom. Ele não quer mostrar, mesmo sabendo que há problemas, que tem milícia, que tem tráfico, que tem intervenção militar, no fundo, as pessoas têm que viver com aquilo. E muitas vezes uma coisa que pra você e pra mim pode ser ruim, ou um grande incômodo - não to dizendo que o cara não tem o direito de achar que a intervenção militar é ruim, mas ele tem que conviver com aquilo. Porque é ele que tem que pegar ônibus todo dia, ir trabalhar, se deslocar, e sofrer vários tipos de violência.

 

Fazer o caminho inverso, né?

Exato! Inclusive, as pessoas mostram que há muito de provocação no próprio nome. E apesar de o trabalho ter começado no início do ano passado, no início de 2016, só se concretizou agora, num momento em que o Rio de Janeiro parece que consolida uma fase ruim, que começou logo depois das olimpíadas, com as dívidas, com essa sensação de falência do estado.

Apesar de a gente estar num momento que parece encaixar, o projeto foi pensado num momento antes, mas aconteceu quando foi possível, parece que ele encontrou, até, quase que o destino dele. Vamos tentar ver o que é, deixar as pessoas entenderem o que é essa utopia. Acho que quando a gente fechar as paredes e concluir essa cartografia fotográfica, a gente vai poder avaliar melhor, né. Agora, o trabalho fotográfico também, apesar de ter uma boa quantidade de pesquisa, de dados sobres as localidades, de ter o alcance, a capacidade de entendimento, é sempre restrito àquilo que a fotografia nos permite avaliar. Não estou fazendo nenhuma tese de sociologia nem de urbanismo a partir desse trabalho. É um trabalho visual, para que a gente possa discorrer sobre essa questão proposta. Entao tenho consciência do limite, do alcance que o trabalho tem.

 

A gente também se perguntou se você tem algum contato com as comunidades do Rio de Janeiro, se você tem algum conhecimento das localidades fotografadas, e também se você chegou a estudá-las durante a sua faculdade de arquitetura.

Olha, não, não estudei, porque na verdade estudei em Belo Horizonte, então eu brinco dizendo que isso é um trabalho de mineira (risos) que conhece pouco o Rio. Então, essa inclusive foi uma das intenções, eu quero conhecer, acho que agora a partir de janeiro eu também vou aos locais, vou fotografar, conhecer, falar com os moradores, fazer trabalho de campo.

 

Nós queríamos saber também do impacto dessa participação dos jovens que mandaram as fotos. Você já recebeu o contato de alguém?

Então, a gente já faz o contato com várias pessoas que ficam sabendo do projeto e têm muita vontade de participar, e eu já percebi que as pessoas têm dificuldade de entender o que é esse conceito de utopia. Então a gente trabalha muito com as pessoas que enviam para falar que olha, infelizmente, por uma questão de contexto de projeto, a gente teve que fixar algumas localidades, quase como um tema a questão do nome, mas a gente reforça que, por exemplo, mesmo que aquela localidade que a pessoa manda a fotografia seja de outro lugar, de outro bairro, de outra favela, que não está na nossa lista, a gente insiste com a pessoa, falando: olha, tenta imaginar, vê se tem na sua localidade, na sua comunidade algum nome utópico, e a gente inclui mesmo assim. Pode ser uma rua maravilha, uma praça da paz, aí a gente inclui. Isso porque muitos lugares têm nomes que são dados pelo próprio morador, não como os conjuntos habitacionais que já vêm com nomes dados pela prefeitura, ou de quem desenhou, ou da secretaria de urbanismo, não sei quem exatamente atribui os nomes para os conjuntos, mas tem localidades que as pessoas, os moradores dão informalmente um apelido simpático, um apelido carinhoso, e a gente aceita isso também. Isso vai para a parede. A gente encontrou uma maneira de contemplar também lugares que não fazem parte da nossa lista inicial. Mas, a gente espera aumentar a frequência das colaborações a partir de um trabalho de campo mesmo, de um trabalho corpo a corpo. A gente vai ter um grupo agora de 5 jovens que vão panfletar e fotografar nos lugares, e eu também vou a partir de janeiro, e isso também é uma maneira de a gente divulgar, além do que a gente já tem, como por exemplo, a hashtag Rio Utópico, e o endereço de e-mail.

 

 

 

Foi como a gente conseguiu o contato, na verdade, foi pelo e-mail.

É, isso é ótimo. Porque como é uma palavra emblemática e simples, a gente tem conseguido reforços. Mas isso é um trabalho lento, né. 

 

Mas está dando um resultado bem bacana, nós vimos e gostamos muito. Queremos muito ver a parede fechada.

Sim! E tá muito lindo, tem fotógrafos excelentes mandando fotos.

 

Sim! São muito bem feitas, o olhar é muito diferente, tudo bem lindo.

Na verdade, isso é até uma coisa que muito interessante. Nós todos que estamos envolvidos com o projeto, eu, a Gabriela, que trabalha comigo, que é fotógrafa também, e o Thiago Nogueira, que é o curador, nós estamos aprendendo muito e temos visto muita coisa boa.  A gente percebe que há muitos fotógrafos com um ativismo cultural e um ativismo fotográfico muito forte em várias dessas comunidades, e profissionais muito bons que atuam em várias localidades, em várias frentes que não são Zona Sul, né.

 

Que fogem do padrão, né?

Exato. Porque, quer dizer, acaba sendo um pouco inevitável pra quem mora na Zona Sul, a gente acaba ficando ali. Você conhece alguns nomes, você circula nos mesmos lugares, vai a certas exposições, certas instituições. A gente está descobrindo que é uma rede muito mais ampla, muito maior, e que existe um ativismo, principalmente em fotografia, muito forte, na Vila Kennedy, na Maré, no Alemão. E o que a gente quer é ativar, trazer esses circuitos que a gente está percebendo que existem mais pra perto, pra dentro do projeto, porque a gente ta dentro do Instituto Moreira Salles, né? E tá abrigando esse resumo, sob a chancela de um Rio Utópico. O Rio Utópico é, na verdade, um pretexto pra mapear, mas de uma maneira provocativa, né? (risos)

 

A tecnologia tem um papel bem grande na exposição, né?

É, e uma coisa curiosa é o seguinte: no início eu imaginei que a gente fosse receber (eu vou dar um exemplo aqui) muitas selfies, e a gente não recebeu nenhuma até agora. A gente tá recebendo excelentes fotografias de fotógrafos desconhecidos, mas muito bons. É quase como se a fotografia amadora tivesse um nível que não desqualifica o trabalho, ele poderia ser  um profissional. É tão bom que poderia ser um trabalho de um fotógrafo profissional. Então você percebe que tem muitos fotógrafos e que são, inclusive, profissionais atuando em circuitos que você não conhece. Esse narrador, que a gente percebe que é um intérprete, está mostrando que o Rio já tem uma descentralização e a gente percebe, por exemplo, todos os trabalhos em que eu vou, das ONGs, a inserção do bloco do carnaval de rua, isso faz com que as pessoas deixem de circular só pela zona sul e passem a visitar [outros lugares]. Você tem circuito gastronômico, circuito cultural, você tem o samba. Eu acho que isso e, na minha opinião, o que ta impedindo a gente atualmente de circular livremente e de conhecer melhor o Rio e ter acesso às manifestações culturais que já saem do centro e Zona Sul (eu to colocando centro, lapa, zona sul, tudo junto), é a violência e a insegurança. Porque tem muita coisa acontecendo e infelizmente a gente tem medo, vamos falar a verdade né?

 

 

 

Você acha que esse receio das pessoas de enviarem as partes ruins do cotidiano delas, como você disse, tem um pouco a ver com a questão da publicidade que as mídias sociais trazem hoje em dia? Porque, por exemplo, você usa a hashtag pra enviar a foto, você acha que isso tem um pouco a ver, tem alguma coisa relacionada?

Olha, é difícil imaginar porque a pessoa manda isso, porque ela faz essas escolhas. Eu tento só avaliar, comparar, e tento não julgar o tipo de imagem que chega. Mas eu já percebi que tem pessoas que lidam com as adversidades de uma forma muito bem-humorada, inclusive. A gente recebeu fotografias aqui por Instagram incríveis, da Vila Aliança, por exemplo. Tem um fotógrafo, o Leo Lopes. Esse cara acabou de mandar umas fotos da Vila Aliança, que nem estavam na nossa lista, mas vão entrar, porque o nome é bom. Ele lida com a questão do calor, da precariedade, da falta de estrutura urbana, de uma forma tremendamente bem-humorada. Pra você ver como as respostas são, ele tem uma inteligência visual incrível na forma de fotografar. E é tudo muito divertido, são fotos muito cruéis, se você for avaliar, porque vão tratando de questões inerentes a uma pobreza visível que há no bairro. Também não é humor negro, mas você olha para fotos e as fotos são divertidas e são maravilhosas.

Elas alfinetam, elas marcam, tratando de uma questão que é a precariedade do serviço público urbano, do saneamento, traz uma série de questões aí. Já recebemos também lá de Santa Cruz, Vila Amizade, uma foto que tem um jacaré. Eu nunca tinha visto gato de água! Eu conheço gato de luz, mas gato de água foi a primeira vez que eu vi, achei maravilhoso (risos). Mas enfim, eu acho que é um pouco isso, porque há várias maneiras de você representar. Eu to me deliciando em ver isso tudo chegando. Tem umas fotos que tratam já da questão da violência, mas de fato são poucas. Mas eu não estou julgando não, estou avaliando e aprendendo. Na realidade, você tem que encarar que a pessoa tem todo o direito de mandar a fotografia que deseja, ele quer ser representado, ele tem consciência de que ele está participando de um evento com uma determinada imagem. E esse gesto de querer participar com uma determinada imagem, eu aceito isso e é legítimo, então assim, eu não critico, não julgo, e tento aceitar tudo aquilo que está dentro do processo.

 

 

 

Mas o resultado é encantador. A gente queria saber se o conteúdo das imagens te surpreendeu de alguma forma?

Ainda não. Eu quero receber muito mais do que eu recebi (risos). Estou surpresa com a qualidade, isso eu estou. De fato, supera aquilo que eu imaginei, aquilo que eu esperava, no mais é difícil falar, porque a abordagem é bem diferente.

Rosângela Rennó é fotógrafa e artista plástica, nascida em Belo Horizonte mas moradora do Rio de Janeiro. As obras retratadas são de autoria de diversos fotógrafos espalhados pelo Rio.

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