ISSN: 2447-2662
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As HQs e as minas

22.03.2018

Ao lermos um livro ou vermos um filme, criamos empatia ou antipatia por algum personagem, seja esse vilão ou herói. Ao lermos histórias em quadrinhos, não seria diferente. Para além da empatia, ou talvez como consequência dela, nossa mente busca características de nós mesmos e nossas realidades nas histórias. Atualmente, ‘consumimos’ o que chamamos de cultura pop.

 

Recentemente, a empresa Mattel anunciou três novos formatos de corpos para a boneca “Barbie”, além de novas tonalidades de pele. Uma resposta a demanda de vários grupos por representatividade. Mas, ainda existem outros paradigmas a serem quebrados. Séries, filmes, livros, jogos, música, tudo isso faz parte do nosso cotidiano e molda nossas ideias de mundo.

 

E, como mulher, sempre penso na representatividade feminina nessa cultura e: isso preocupa.

 

‘Mulheres são o sexo frágil’ é mais um estereótipo que é perpetuado nas HQs. Apesar das heroínas se superarem e vencerem os obstáculos ao longo do caminho, elas ainda são sexualmente apelativas e têm o padrão europeu de beleza.

 

Até 1930, a maioria das mulheres era retratada como donzelas em perigo, nem heroínas eram. As HQs retratavam a figura feminina num alto grau de dependência e fragilidade.

 

Já na década de 1940, surgem mulheres mascaradas para combater o crime. A intenção, além de capturar leitoras, era mostrar que mulheres são capazes e tem super poderes. Sejam heroínas por escolha como Phantom Lady e Miss Masque, ou por acaso como Miss Fury, elas foram desbravadoras na selva já dominada por homens. Mas, algumas heroínas ainda eram figurantes. Bullet Girl e Rocketgirl aderiram aos disfarces para acompanharem Bullet Man e Rocketman na luta contra o crime. Não por desejarem justiça, mas por amor a seus parceiros. Aqui é importante retratar o diminuto papel dessas heroínas. Seus nomes serão sempre lembretes de sua fragilidade. Miss, Lady e Girl.Nenhuma delas era suficiente para ser chamada de mulher.

 

Entretanto, a figura feminista dos anos de 1940 surgiu e continua na ativa. Talvez você não conheça Diana Prince, mas já ouviu falar da Mulher Maravilha. O lar de Diana, Ilha Paraíso, não podia ser tocado por homens e lá, coisas incríveis foram criadas. Desde aviões invisíveis a armas de combate, tudo era feito por mulheres. A mensagem é clara: elas podem coisas extraordinárias e não precisam deles para isso. Apesar dessa mensagem, a heroína ainda era desenhada para agradar aos olhos do público masculino vestindo um uniforme que ressaltava suas curvas, exibia suas coxas e chamava atenção para o busto. Indo além, apesar de ser uma amazona, símbolo de atletismo e força, Diana é padrão estético, com corpo longilíneo e delicado.

 

Ganhamos uma mulher forte, não uma garota escondida à sombra do homem. Ela ostentava também os braceletes de submissão, famosos por desviar tiros e prender os inimigos.

Ares, Deus da guerra, manda Hércules seduzir Hipólita (mãe de Diana) a fim de obter o cinto mágico que fora presente de Afrodite. A mulher cai em seus encantos, perde seu cinto e com ele, a liberdade. A mulher fora acorrentada e escravizada por se deixar enganar por um homem. No fim, Afrodite a ajuda e lhe dá os braceletes para que ela nunca esqueça ‘‘a loucura de se submeter à dominação masculina.’’

 

Diana tinha várias características feministas em sua história, mas carregou o estigma de ser uma mulher que buscava desesperadamente o amor. Ao contrário dos homens, como Batman, que colocam a missão acima de encontrar uma parceira, a amazona deixou de ser apenas ícone heroico e feminista. Questionava-se sua verdadeira missão era defender a paz ou encontrar sua alma gêmea.

 

Os tempos mudaram e a nova geração precisava de uma nova heroína.

 

Desde sua origem, em 1968, Carol Danvers foi concebida para espelhar nas HQs os esforços femininos de inserção na sociedade. A jovem sonhava em pilotar e conseguiu um posto na Força Aérea Americana, indo contra a vontade do pai. Tempos depois, ganhou seus poderes ao ser salva de uma explosão de um maquinário extraterrestre pelo primeiro Capitão Marvel. A radiação da explosão transformou-a no nível celular. Carol ganhou super força, habilidade de voar e um ‘‘sétimo sentido” e, assim, iniciou a sua carreira de heroína como Miss Marvel.

 

A personagem sustentava um uniforme sensual que contava com um laço na cintura. O corpo era masculinizado e a máscara conferia um visual que beirava o fetiche. Mais uma vez, uma heroína que atende ao desejo masculino em sua imagem. Mas, anos se passaram e a Miss deu uma guinada tornando-se a Capitã Marvel.

 

Em 2012, a emancipação da personagem ficou por conta dos novos nome, uniforme e corte de cabelo. Quando Carol ganhou visual mais heroico com o uniforme que cobre todo seu corpo, onde o laço deixou de ressaltar e passou a cobrir certas partes, a nova postura de independência se tornou evidente.

 

Em uma sequência da história que se passava na Segunda Guerra Mundial, Capitã Marvel lidera um pelotão de mulheres e as ensina a lutar contra o sistema, como ao dizer que “o inimigo é a guerra” e não os homens. Sob nova direção, a heroína, antes só uma miss, tece uma nova história que, ao empoderar mulheres, tomou o nome de seu salvador e passou a buscar justiça e a igualdade entre mulheres e homens.

 

Contudo, apesar de ser considerada um ícone feminista na internet, Capitã Marvel ainda carrega o padrão europeu de beleza, bem como a Mulher Maravilha. Felizmente, outras heroínas chegando para desfazê-los, como Kamala Khan, uma adolescente de descendência paquistanesa que ganhou o título de Miss Marvel.

 

A verdade é que a sociedade transforma a cultura e essa influencia a primeira. E, quando os tempos mudam, chega a hora da cultura se transformar para representar a todos — inclusive as mulheres, nas suas mais variadas formas, e como verdadeiramente são: heroínas.

Rayana Miccolis é aluna do  mestrado em Mídia e Cotidiano da UFF

 

As ilustrações deste texto foram feitas pela Isabella Aparício (@isabellaaparicio), ilustradora da Edição 10 da Revista

 

 

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