ISSN: 2447-2662
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O que é um pai, o que é uma mãe e porque eles não são o papai e a mamãe: as novas organizações familiares na psicanálise

05.03.2018

Recentemente descobri que Freud foi o autor mais citado em todas as ciências humanas, vencendo Marx confortavelmente. Bom, se esse Marx medalhista de prata culminou, ao mesmo tempo, em Mao Tsé-Tung¹ e em Walter Benjamin², é fácil entender como a psicanálise se articulou a infinitas práticas sociais, das mais autoritárias e patriarcais às mais revolucionárias e subversivas.

Hoje, modestamente, tentarei esclarecer alguns mal-entendidos do senso-comum quanto ao posicionamento da psicanálise frente às novas organizações familiares, especialmente às famílias homoafetivas e monoparentais. Assumo aqui a perspectiva da psicanálise lacaniana, provavelmente a mais adotada hoje nas universidades, especialmente no Brasil, na Argentina e na França, países onde o pensamento freudiano se infiltrou de maneira mais definitiva.

 

Aqui, especialmente, conhecemos uma geração de pensadores e pensadoras, desde os modernistas até historiadores como Sérgio Buarque de Holanda, economistas como Caio Prado Júnior e sociólogos como Gilberto Freyre, que reinventaram a identidade brasileira num grande projeto articulado. Pois bem, todas essas pessoas, sem exceção, leram Freud e beberam da psicanálise para estudar o Brasil. Mas isso é outro tema, para outro dia.

Todo mundo já ouviu falar no complexo de Édipo, já pensou no próprio e fantasiou sobre o do irmão. Ele é uma construção freudiana inspirada na tragédia de Sófocles do Édipo-Rei, um desventurado que, sem saber, assassina o próprio pai num duelo e casa-se com a mulher dele, sua própria mãe.

 

À primeira vista, trata-se disso - do desejo inconsciente de gozar da mãe e livrar-se do pai, de maneira simplificada.

 

Acontece que ele não se resume a essa historinha, ou aos nossos daddy/mommy issues, ou a quem a gente defende no divórcio. O complexo de Édipo estrutura o sujeito - motivo pelo qual eu falo dessa maluquice - orientando seu desejo, ligando este inseparavelmente à lei e permitindo o acesso à cultura, uma vez que nos posiciona em relação à linguagem. Ele é o suporte da psicopatologia psicanalítica, na medida em que define a relação do sujeito com a castração - resumidamente, com a falta.

 

O drama edípico fala da entrada de um terceiro no jogo, um terceiro que interdita a relação exclusiva da mãe com a criança. Interdita porque apresenta-se como alguma outra coisa que é do interesse dessa mãe, que a ocupa, que a satisfaz. Ele aparece como aquilo que, além da criança, completa a mãe - ele aparece como falo.  

 

Falo é um conceito muito complexo, mas o essencial é o seguinte: ele é aquilo que opera presença e ausência. A criança, antes da chegada desse terceiro, é fálica em relação à mãe - ela completa a mãe, que se ocupa exclusivamente dela. Essa identificação ao falo é crucial para a saúde da criança, mas só até certo ponto - se esse registro dual não for atrapalhado, ela será sempre um complemento de alguém, um pedaço, um objeto.

 

(Observação importante: falo e pênis podem coincidir, mas definitivamente não são a mesma coisa. O pênis pode ser atribuído de valor fálico segundo a história de determinado sujeito ou cultura, mas isso é contingente).  

 

Chegamos à função desse terceiro, à função paterna. Matematicamente, as funções expressam relações entre elementos, mas são independentes destes, são imunes à sua variação dentro do conjunto. As democracias, por exemplo, funcionam como funções, uma vez que propõem mecanismos impessoais, que articulam as funções de eleger, representar, legislar, etc. Os sistemas políticos só funcionam, nesse sentido,  enquanto conservam-se em alguma medida frente a cada cidadão específico que ocupe seus papéis.

 

A função paterna é, assim, assumir a posição fálica, roubando-a da criança. Dito isso, esse pai pode ser o de sempre - que pira na Globonews e que ninguém aguenta mais - como pode ser um pai gay, pode ser outra mãe, pode ser a irmã mais velha, pode ser o pai genderfluid, ou qualquer outra pessoa que ocupe a mãe. Importa que algo adentre o universo simbólico da criança e contraia o sentido fálico com o qual ela estava identificada.

 

Mais radicalmente, esse terceiro pode ser uma simples palavra. Quando uma mãe ou pai solteiros, esgotados, protestam: “Cansei de você, seu energúmeno, preciso de um cigarro!”, este cigarro pode estar operando a função paterna, uma vez que ela é simbólica.

 

A função paterna, nesse sentido, é a produção de uma metáfora. Da mesma forma como, numa metáfora, substitui-se uma palavra por outra de sentido semelhante, aqui substitui-se a antiga relação dual por um novo elemento simbólico, num deslocamento do falo. Mesmo o pai de sempre é uma metáfora, uma vez que não atua consigo mesmo, mas através de seus nomes, seus símbolos, suas insígnias.

 

Pois bem, esclarecido o papel do pai, resta-nos o da mãe, mais primitivo. Ela opera erotizando a criança, num investimento indispensável, uma vez que os cuidados essenciais - limpeza, alimentação - e o carinho físico organizam e mapeiam o corpo infantil, que inicialmente é vivido de forma caótica, fragmentada. Essa mãe faliciza a criança, tomando-a como complemento de si, incluindo-a em seu narcisismo, em seu amor próprio.

 

De novo, importa a função, não quem a desempenha. A própria mãe, uma mãe adotiva, uma avó, um pai solteiro ou uma ecovila podem assumir esse papel, enquanto acolhem as demandas, erotizam e nomeiam a criança. Cabe a esse cuidador, também, o ato de comparecer e se ausentar, permitindo a própria aparição do componente paterno.

 

 

Assim, não há nada que, do ponto de vista da psicanálise, sustente qualquer normatividade quanto à configuração familiar. Nenhuma construção teórica ou percepção empírica permitem um saudosismo em relação às famílias tradicionais, aquelas com papai, mamãe, porta-retratos e árvores de natal. Esse arranjo é ok, mas não respondeu especialmente bem às nossas questões perenes, como o encontro com a insuficiência, com a alteridade, com a diferença sexual, com a morte, e nem facilitou o andamento das funções que eu descrevi.

 

 

É hora de refrescar essas referências, minha gente. Confiem em mim, nesse energúmeno, mas um energúmeno que já pensou muito sobre isso, quando ele diz que vamos ganhar muito mais do que perder. Em termos coletivos, ao entendermos o real papel da família, trabalharmos em conjunto para viabilizá-lo e investirmos em causas sociais urgentes, e em termos pessoais, de ganho de perspectiva em relação às questões reais da vida, a seus impasses e desafios.

 

A diversidade sexual é irrevogável, incurável, de forma que o seu acolhimento é o único caminho para uma postura mais ética, mais honesta e engajada em relação ao próprio desejo e ao dos outros, que devem ser nomeáveis e escutáveis.

 

(1) Revolucionário comunista chinês que instaurou a República da China, em 1949. Mao liderou a Grande Revolução Cultural Proletária, um movimento sociopolítico que destruiu grande parte do patrimônio artístico e cultural do país.

 

(2) Filósofo, crítico social e ensaísta alemão, associado à Escola de Frankfurt e ao materialismo histórico marxista. Traduziu para o alemão obras clássicas de Baudelaire, Proust e Kafka e foi perseguido pelos nazistas até seu suicídio em 1940.

 Arthur Candiota é aluno  de psicologia da UFRJ

 

As ilustrações deste texto foram feitas pela Isabella Aparício (@isabellaaparicio), ilustradora da Edição 10 da Revista

 

 

 

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