Sobre isolamento

Os seres humanos, sujeitos sociais, constroem famílias, comunidades e laços afetivos de modo a evitar aquilo que mais temem: a solidão. Nesse sentido, a ideia do isolamento, historicamente, tem sido utilizada como castigo: o exílio e a prisão, por exemplo. Contudo, diante do cenário corrente, isolar-se é sinônimo de salvação. Não obstante, ainda que a integridade física daqueles que cumprem a quarentena tenha sido mantida, os efeitos psicológicos do isolamento são sentidos. Nesse texto, trago à luz a minha visão sobre quase 5 meses de quarentena. Para entender o que penso agora é preciso voltar ao passado recente. No dia 4 de julho de 2019, eu enviei um texto, intitulado de “Manifesto pelo acaso”, para ser publicado na Revista Ágora. Nele, eu escrevia sobre as imprevisibilidades da vida e nossa incapacidade de controlar acontecimentos cotidianos. Naquele momento, o texto fazia sentido: tinha acabado de passar pelo primeiro período de faculdade e mudanças grandes aconteceram em minha vida, encarava com positividade a incerteza. Nessa ótica, apesar de não ter nenhuma noção do que iria acontecer com o mundo esse ano, estava otimista. Mesmo não sendo supersticioso, vi, próximo ao Réveillon, junto com as minhas amigas, as melhores cores de roupas para boas energias em 2020, pesquisamos as previsões de nossos signos e, até, procuramos a numerologia. Tudo isso para nada! Não que qualquer uma dessas análises tenha efetiva capacidade de prever o que acontecerá, mas em nenhuma hipótese eu, ou as previsões, pensamos que haveria uma pandemia no mundo. Já nesse ano, os primeiros dias foram conturbados, a morte de um oficial iraniano e a tensão de um míssil que atingiu uma base estadunidense no Iraque. Logo depois, houve os incêndios australianos. Em seguida, a crise água no Rio de Janeiro. Finalmente, alguns momentos depois, o coronavírus se espalhou pelo mundo. À época, entendia a crise mundial e esperava que seríamos atingidos, mas não imaginava a ingerência e a escala que o fenômeno tomaria no país. Nesse panorama, dia 13 de março foi o último meu último dia de aulas presenciais. Achava que em questão de meses voltaríamos para a faculdade... Agora, já no quarto período, continuamos online. Obviamente, é a medida correta: não gerar aglomeração e preservar a vida de funcionários, docentes e discentes. No entanto, como afirmado anteriormente, somos seres sociais. Certamente diversas pessoas têm questões muito mais difíceis e complexas para enfrentar no cotidiano – tenho noção do meu privilégio. Mas a maioria dos meus amigos e eu temos por volta de 20 anos, estamos no início das nossas vidas de jovem adulto, queremos viver, sair, encontrar uns aos outros e nada disso estava nos nossos planos, nos de ninguém. Notícias cada vez piores, o isolamento e a não-previsão de quando tudo passará, afetam o psicológico. Nesse momento, encontro-me mais acostumado com a ideia de ficar em casa e matar a saudade dos amigos por meios digitais, lidamos do jeito que conseguimos. Ainda que a situação seja chata para muitos, é dramática para milhares de famílias que têm de lidar com situações de vida ou morte. Portanto, é preciso botar em perspectiva os problemas e se cuidar para não contribuir para o agravamento do cenário presente. Ainda que eu esteja escrevendo isso em agosto, tenho convicção de que muitos episódios se desenrolarão a partir do momento atual, de que 2020 será um ano lembrado na História e de que será um período transformador do comportamento de uma geração.

ISSN: 2447-2662
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