Sentimento de urgência

De joelhos num campo aberto Ouço o tiro da largada Mas não sei de onde veio o estouro Nem em que direção fica a faixa de chegada Outro tiro escolho a rota do vento Mas era o sopro da minha irmãzinha nas velas coloridas do seu bolo de aniversário Mais um ano se passou e ainda não tive tempo pra contar pra ela as histórias daquelas mulheres que já corriam antes de nós. Outro tiro Faço uni-duni-tê E vou voando para o horizonte Como um afogado que Confundido pelas marés Nada em direção ao fundo do mar A largada continua a soar De novo e de novo Tem o som do meu alarme todas as manhãs Mas eu nunca acordo Tem o som dos casamentos e nascimentos e mortes Mas eu não nasço nem morro e ao que parece também não vou casar Tem o som do meu professor que diz meu nome na chamada mas eu nunca estou Tem o som do relógio que bate 3 da manhã e eu nunca estou dormindo quando deveria Tem o som perfeito das festas as quais persigo para as quais me arrumo mas estou sempre atrasada Tem o som insuportável do silêncio que arde quando alguém não diz o que queria gritar. Tem o som estridente da minha própria voz que eu escuto dizendo algo que não é nem verdade. Tem o som amargo e violento de quando você não responde o que eu queria ouvir Tem o som alto e denunciante das bombas que eu leio sobre no jornal caindo nos lugares onde eu nunca chego pra ajudar Tudo parece um sinal para correr e tudo parece motivo e tudo parece estrada mas nada vem como orientação De tanto rodopiar enlouquecida caí de tonta e permaneço parada no mesmo lugar. Sofia Mandelert é aluna do 9º período da FGV Direito Rio. A foto é da Isadora Dutra, ilustradora da nossa 13ª edição.

ISSN: 2447-2662
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram