Saudade

Esse texto vai para provavelmente todo mundo que não nasceu em uma capital. Eu nasci e cresci em uma cidade pequena, no Vale do Paraíba, interior do Rio, chamada Resende. Aqui vão alguns fatos relevantes sobre a minha terra natal: Resende tem aproximadamente 140 mil habitantes. Isso é menos do que a população da Tijuca, bairro onde eu moro aqui na cidade maravilhosa. Resende tem só cinco escolas particulares. Resende tem 4 pontes, sendo que duas são usadas apenas para pedestres. Resende é sede do segundo maior complexo militar do mundo, a Academia Militar das Agulhas Negras, que foi transferida para lá durante a Era Vargas. A maior distância que eu já percorri de carro em Resende foi de 15 minutos. Resende tem uma economia praticamente baseada na indústria automobilística e metalúrgica, porque os incentivos fiscais de lá são bem altos. Mas há alguns séculos foi uma cidade importantíssima para a economia do café. Tanto que nosso título era a “Princesinha do Vale”. Não que eu me orgulhe disso, já que os barões do Rio usavam mão de obra escrava. Mas dá uma sensação de satisfação saber que um dia a minha cidade, que quase ninguém mais conhece, foi importante. Aqui acaba a sessão de curiosidades sobre uma cidadezinha do Sul Fluminense. A questão é que eu venerava o Rio de Janeiro. Ano passado, no meu terceiro ano do Ensino Médio, tudo que eu mais queria era a liberdade da cidade grande. Era sair de casa. Era sair de um lugar onde eu conhecia rostos demais. Um dos meus alívios eram as visitas frequentes que eu fazia aos meus irmãos, que moram na capital há alguns anos. Ver essa cidade que não para um minuto era um calmante, que me desligava da vida que eu tinha a duas horas e meia de distância. Então veio o vestibular. Eu decidi vir para a FGV. E aí eu me mudei para o Rio. De vez. Faz praticamente um ano que eu vivo nesse dia a dia corrido, no qual eu não paro muito para pensar no que deixei para trás. Quando paro, percebo que vir para o Rio me fez entender o quanto a gente desvaloriza as coisas rotineiras. “Nossa, que clichê”. Eu consigo ouvir o julgamento vindo de você, que tirou um tempinho para ler esse texto agora. Já adianto que se quiser parar, faça agora. O que lerá a seguir não é nada além de uma série de memórias que acabam em uma reflexão daquelas que se vê assistindo ao vídeo de auto ajuda mais vagabundo que existe no youtube. Por isso vou contar até 3. 1. 2. 3. Agora você está por conta própria. Não me culpe se esse texto não te acrescentar em nada. Retomando. É clichê mesmo perceber que a gente não deu valor suficiente para o que deixou para trás. Mas clichês surgem a partir de verdades comuns. E o clichê da minha vida é a saudade que eu sinto todos os dias de Resende. O Rio de Janeiro me fez notar o quanto eu sinto falta do cheiro de grama molhada após um dia de chuva (na Tijuca não tem grama!); o quanto me faz falta a neblina matinal de todos os dias de julho, que transformava andar na rua uma tarefa difícil até para um gato. O Rio me mostrou o quanto eu gostava dos sinos da igreja perto de casa, que badalavam todo santo dia às seis da tarde. Ah! E os sininhos que as pessoas colocam na porta de casa, que balançavam com qualquer brisa e espalhavam uma melodia pela vizinhança? Desses eu sinto muita falta. A cidade grande me faz pensar em como era importante para mim conhecer o dono da padaria da frente de casa, que me deixava comprar fiado sempre. E como eu valorizava as small talks que tinha com meus vizinhos, que me conhecem desde os meus singelos seis meses de idade, e que sempre perguntavam as mesmas coisas sobre a minha vida, com o mesmo sorriso no rosto. Essas coisas pequenas, hoje, me deixam com um leve aperto no coração, mesmo que ontem eu as trocasse de bom grado pela vida no Rio de Janeiro. Além disso, vir para o Rio me fez deparar com um monte de expressões que eu não imaginava que eram locais. O carioca da gema não sabe o que é um pão de sal, muito menos um enroladinho (por favor, cariocas, isso de maneira alguma é uma ofensa pessoal a vocês; é apenas uma exaltação de diferenças linguísticas). O carioca não diz que alguém é “rachado”, no máximo que é “zoado”. Ouvir alguém falando que comeu mandioca frita é bem raro por aqui também. Mas se acalmem, pelo menos em Resende o certo é biscoito. E foi pensando nisso, após alguns meses de convivência, que eu percebi que a minha cidadezinha é uma colcha de retalhos, e que a gente junta expressões paulistas, mineiras, baianas, cariocas e quem sabe mais de onde. No fim de tudo isso, me mudar para o Rio me fez entender mais sobre de onde eu vim, e valorizar isso como nunca antes. Eu sinto que troquei Resende pelo Rio. E troquei sim todo aquele cenário que citei ali em cima pelas poças no asfalto, pelo barulho dos motores de carros e pelo sol escaldante. Troquei Resende por um lugar que um dia te faz sentir dono do mundo, e no dia seguinte te engole por completo, sem nem mastigar. Troquei Resende por essa cidade que, apesar dos pesares, tem seus muitos charmes. Mas, ao mesmo tempo, não troquei Resende. A falta que eu sinto constantemente da minha terra faz um pedaço enorme do meu coração pertencer não só ao lugar, mas às memórias que eu construí lá. É por isso que – quem convive comigo, sabe – eu encho a boca de orgulho para falar que sou de Resende, que tenho um sorriso no rosto toda vez que falo “esse final de semana eu vou voltar pra Resende”, e que fico repetindo isso durante a semana toda. É por isso que eu sempre vou ter orgulho de falar “três”, “lápis”, sem o chiado no “s” (o jeito certo de falar, aliás). É por isso que, Rio de Janeiro, você pode tirar todas as paisagens de cidade pequena de si mesmo, mas você nunca vai tirar o meu “s” sem chiado. Catarina Zanolla é aluna do 3º período da FGV Direito Rio As ilustrações deste texto foram feitas pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista

ISSN: 2447-2662
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