Primeiro reflexo de Clarice

Menino… Menino… cresce… Menino… Menino… sua vez! - Ok! - Responde como um cardíaco que sofrera uma parada reage ao desfibrilador. - Cansado? - Pois é… (só se for de mim mesmo) - Quer um café? - Não precisa, obrigado, já voltei pro mundo! - Mundo esse amarelo, quase pardo da cor de envelopes, do escritório do homem. - Então entre lá que já tá na sua vez. - insiste a mulher. Antes de sair da sala de espera, olhou em volta os outros meninos engravatados e ajeitou seu terno. A salinha fria somada à voz constante da mulher deixaram-no sonolento. Percebe-se a tranquilidade invejável (ou excessiva) de quem está prestes a se deparar com o futuro, ou ao menos uma chance para esse jovem indeciso que busca um futuro. Em passos largos e confiantes ele sai do berçário monótono para entrar na sala do "enfermeiro-chefe" (ou do dono do hospital). O clima logo muda e a aparência também. O amarelo-envelope dá lugar a um azul-escuro, pujante e vivo, como se as paredes já confrontassem o transeunte, mero mortal, a atravessar a porta para o Olimpo. “Entre sem bater”, estava escrito em letras garrafais e destacadas na entrada da sala de entrevista. O Menino desligado tomou fôlego e obedeceu. Passando a entrada, uma luz forte já desafiava quem ousasse atravessá-la. Era o sol, sem calor, que refletia nas janelas do prédio vizinho. O homem cumprimentou o jovem com um aperto de mão e este começou a se acostumar com a claridade. Depois, ambos sentaram e o jogo começou. - O que te diferencia dos outros? - Acredito que pensar. - Como? - Bem, é que os outros não pensam… - E o que te faz pensar e os outros não? - Acho que minha curiosidade, vontade de não ser mais um e tentar mudar alguma coisa. Penso que para mudar tenho que ser diferente, não? - Hmm… Então, quer ser advogado? - Acredito que sim… - Acredita!? - É algo que me atrai e penso que seria… - Diga-me uma qualidade sua. - Persistente. - Um defeito. - Perdido. - Introvertido ou extrovertido? - Eloquente. - Certo. Aqui diz que você se formou com méritos e sua faculdade é uma das melhores do país… - É verdade. - Muitas atividades interessantes que você fez também, vejo muitas recomendações aqui ao lado… - Sou dedicado. Quero sempre dar o melhor possível, apesar de isso não estar sempre ao meu alcance… - Entendo. Muito bom, ao meu ver... Menino... Menino… Procurando quem o chamava, ele rodeou os olhos sobre a sala, muito desconfiado dessa voz que cortara a fala de seu caminho para um emprego. Seria engano? Mero eco do choro de um dos meninos da salinha-envelope? Menino... Menino... A voz aumentara. Quando a porta é subitamente aberta pela mulher esbaforida. - Temos que parar. - disse ela. - Que houve? - indaga o jovem preocupado. - Ele é… - Eu imaginei, mas não quis acreditar. - disse o entrevistador. - Sou…? Nesse momento, o chefe levantou enquanto desenganchava o telefone e dizia: - Podem tira-lo, por favor. Rapidamente. - O que está acontecendo? O que eu fiz? - Não fez nada, meu jovem, você é e isso já basta. Por que estariam me expulsando? Seria alguma discriminação? Havia dito algo que ofendera? Não é possível... - pensou o jovem já tenso. A porta libertara dois homens largos com apenas uma convicção: retirar o Menino da sala. Agarram-no pelo braço enquanto ele esperneava confuso, coitado. - O QUE EU SOU!? Homem e mulher se entreolharam e decidiram avisar o Menino de sua condição, ambos com olhares de pena: - Poeta. Menino... Menino... - Sim? - Quando crescer, o que você quer ser? É sua vez de nos contar! O Menino suava frio e seu coração não cabia no peito. A professora e seus colegas aguardavam a resposta para que se desse seguimento à atividade. - Ah! Perdão. Bem... eu... não sei. - respondia um pensamento atordoado e em voz alta. - Não é possível! Todos já sabem e você continua em dúvida? - É que… -balbuciava o Menino desperto de um pesadelo profundo - quero ser advogado, mas... - Mas? Não está bom o bastante? Vai ser rico! - Pois é, só que gosto de escrever coisas diferentes, então não sei bem se... - Diferentes? O Menino já suava frio. Seria a continuação de seu pesadelo? Por que haveria ele o ingrato ímpeto de dizer "poeta"? Seria confusão de sua cabeça atordoada por mil e um gostos? Ou seria simplesmente um desafio que seu inconsciente lançara? - Ah, nada demais, é porque cansa escrever repetido, e meu tio disse que advogado só sabe escrev... - Deus o interrompera (ou seria um anjo?) em forma de sino: era hora do recreio. Todos levantaram-se afoitos para disputar um lugar na enorme fila do lanche ou para serem os "de dentro" no futebol ou qualquer outra coisa dessas que crianças fazem, sabe? - Muito bem. Até semana que vem! - Disse a professora enquanto todos já estavam correndo, e ela própria arrumando suas coisas. Em uma questão de dois minutos a sala estava vazia de pessoas, mas cheia de oportunidades. "O que sou?", pensou o Menino em meio a tudo que conhecia. Menino... Menino... Menino... Menino... Era o senhor da limpeza que o chamava agora, tinha que arrumar a sala para a volta do recreio. - Menino, já acabou? - Sim! - pela primeira vez confiante e decidido. - Desculpe o atraso... - Tudo bem! - respondera o moço. - Ah, e uma coisa! - Sim? - Não é mais "Menino", é "Poeta"! - disse indo embora para onde seus versos o levassem. Rodrigo Tamussino Roll é aluno do 5º período da FGV Direito Rio As ilustrações deste texto foram feitas pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista

ISSN: 2447-2662
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