Porque amamos o futebol

“O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso...” Bill Shankly Já há séculos, um dos debates mais controversos da humanidade se situa no campo da vida privada: o que leva alguns seres humanos a serem tão aficionados por um time de futebol? O que justifica tanto interesse (e um correlato sofrimento masoquista!) por 20 atletas, totalmente desconhecidos da sua intimidade, que encontram prazer em fazer com que uma bola de couro ultrapasse uma baliza de ferro? Ah, e tem mais 02 atletas, cujo objetivo sádico é impedir que os outros 20 obtenham este prazer... Será que não existem realmente motivos que justifiquem este amor? Se faltam explicações racionais, estas sobram no campo da psicologia e da mitologia. Dentro de uma visão psicanalítica, o Futebol é o que chamamos de objeto de transferência, ou seja, um fenômeno psíquico em que todas as fantasias, recalques, ansiedades e pulsões que compõem o nosso mundo interno se manifestam em determinadas situações vividas no cotidiano. O indivíduo transfere para este objeto, ou situação, toda a sua história, seus objetos internos, seus medos e esperanças conferindo a estes uma nova e fantástica dimensão. Mas por que tantas pessoas escolhem o Futebol como objeto de transferência? Para entender isso, temos que desvendar outra dimensão do Futebol: a mitológica. Mitologia é, pegando emprestadas as palavras de Joseph Campbell “a canção do universo – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Mitos são aquilo que os seres humanos têm em comum, são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação, através dos tempos. São metáforas para a potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo”* O mito tenta expressar uma verdade que não pode ser captada de outra forma: a verdade transcendental. Ele é a busca, não por sentido, mas pela experiência do sentido da vida, trazendo para a ação as estruturas do nosso inconsciente. São sonhos públicos (assim como os sonhos são mitos privados). O mito tem várias funções: mística, cosmológica, sociológica, pedagógica e inspiracional. O Futebol como elemento mitológico e o “jogador de futebol” como mito, se ocupam de todas elas, mas para efeito desta dissertação, vamos nos ocupar de apenas 03: mística, sociológica e inspiracional. A função mística abre nosso monótono e angustiante universo para o mundo das maravilhas, mistérios e magias que traduzem nosso deslumbramento por estarmos vivos. Sua poltrona favorita, o canal de televisão da sorte e até o local da casa onde deve ficar seu cachorro para que seu time ganhe. O futebol é muito associado a crendices, talismãs e superstições. A função sociológica do mito é aquela que busca dar o suporte e a validação a uma determinada ordem social. Gera o famoso “senso de pertencimento”. Agrega seres humanos diante de uma ordem social e esta ordem social precisa de valores, ritos e rituais, símbolos e imagens para se diferenciar e manter-se coesa. É assim no batismo, na circuncisão, nas fraternidades escolares e, logicamente, nas torcidas de futebol. Se você pertence a um grupo social, veste a mesma camisa que os demais e entoa os mesmos cânticos, você nunca estará sozinho e a solidão sempre foi o maior pesadelo do homem, diante do seu maior medo: a morte. A função inspiracional busca nos trazer histórias carregadas de valores éticos e pedagógicos com as quais nos identificamos e ativamos para nos socorrer e nos motivar. Assim, imagens associadas ao futebol e aos atletas como “a batalha”, “a superação”, “raça”, “trabalho em equipe”, ou “talento” servem para nos inspirar em nossas tarefas e desafios diários. Desde que foi mitologicamente “expulso do paraíso”, o homem vive em desarmonia com a natureza e os mitos servem para trazer uma explicação, um conforto para esta fissura, criando uma ordem – mesmo que mágica - que reestabeleça o sentido do cosmos e daquilo que experimentamos. Final de campeonato. Jogo empatado. Falta para seu time, aos 45 minutos do 2º tempo. No quarto, sua esposa o aguarda para uma “DR” (discussão de relacionamento). No trabalho, seu patrão quer discutir “seu futuro dentro da empresa”. No mundo lá fora, as perspectivas não são lá muito boas. Mas, voltamos ao jogo. Você se enrola no seu cachecol da sorte, senta na sua poltrona mágica, promete nunca mais tomar refrigerante e faz a mesma oração que você fez quando o goleiro do seu time pegou um pênalti no campeonato passado. Não tem como não dar certo! O craque do time ajeita a bola com carinho e você pensa “faz isso por mim, por mim!”. Bola na rede, seu time campeão! Logicamente isso só ocorreu graças a você e aos seus ritos mágicos (função mística). Você sai para comemorar com seus amigos que o abraçam felizes (função sociológica). Quando você voltar para casa estará feliz e pronto para reestabelecer seu casamento e no dia seguinte irá encarar seu chefe se sentindo um vencedor (função inspiracional). A vida reencontrou seu equilíbrio... Seja para se alienar, sonhar, encontrar consolo, ou mesmo para desabafar e canalizar nossas frustrações, não existe campo mais fértil e apropriado do que o do futebol. Amamos o futebol porque amamos a vida. Amamos o futebol porque temos medo de morrer. Nele projetamos aquilo que necessitamos para nos adaptar ao mundo hostil que nos cerca. Torcer por um time não implica em julgamento moral, não carece de justificativa, não exige sequer prova de caráter. Nos desnudamos e nos atiramos em um mundo que sabemos que seremos abraçados por iguais. Não há rejeição, só aceitação. Viramos seres mágicos, com poderes sobrenaturais. Como não se apaixonar? Quanto a mim, sou um apaixonado por futebol e por psicologia. Meu time está sempre em campo e os seus 03 setores básicos (defesa, meio-Campo e ataque) treinam bastante, muito embora nem sempre estejam em harmonia dentro de campo. No meu time todo zagueiro se chama “superego”, os atacantes têm o nome de “ID” e os meio-campistas eu os denomino de “ego”, ou melhor, “É GOLLLL!!!”. *Retirado do livro “The Power of Myth”, de Joseph Campbell. Claudio Pracownik é advogado, sócio e Diretor Executivo do Banco Brasil Plural e vice-presidente de Finanças do Clube de Regatas do Flamengo

ISSN: 2447-2662
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