Olá, muito prazer, até breve!

Uma coisa que eu admiro muito sobre a escrita é a sua singularidade. Pessoalidade. Pra mim é quase como se fosse uma conversa íntima com alguém que está abrindo as portas dos rios dos seus pensamentos. Coisa doida. Acho muito interessante que diversas pessoas possam contar um fato idêntico através de muitas lentes, muitas culturas, formas e gostos distintos. Um fato presenciado por pessoas diferentes pode virar um texto, uma música ou uma trova. Alegria ou trauma, felicidade ou tristeza. Que bom! O irônico é que tradicionalmente se fomenta muito na sociedade o que se pode chamar de um efeito-rebanho: As pessoas tendem a se padronizar, se misturar, encaixar naquilo que lhes é designado e assim acabam passando despercebidas, aéreas, deixando de valorizar esse sopro que é a vida. Fazer parte do rebanho é tentador, quase que uma solução fácil para os tortuosos e enigmáticos desafios que nossa vida nos fornece. Mas será que ela não te reserva algo melhor? Ninguém se destacou fazendo o mesmo que os outros, né? Cara. É óbvio que eu estou incluído em certos rebanhos também. Todos estamos, de alguma forma, em algum grau, algum nível. Mas o interessante, meu caro, é que existem coisas que revelam a nossa essência, expõe nosso interior e escancaram o reverso do efeito rebanho... A singularidade de cada um. Ser singular. Uma dessas coisas, na minha concepção, é a escrita. Principalmente a escrita manual. Papel, caneta. Eu, papel, caneta. Meus pensamentos, eu, papel, caneta. A escrita é muito peculiar e o maior retrato disso é a forma como cada um de nós passa a tinta da caneta para o papel. As letras transpassam sentimentos, momentos e fases. Quem lê esse texto agora, formatado, padronizado, não vê as marcas de rasura da minha escrita descuidada. Não vê minha letra estranha, eu quebrando a cabeça para procurar dentro de mim as palavras que possam fazer sentido e explicar o que se passa aqui. Tampouco as anotações apressadas, em lugares errados, de frases e pensamentos que eu não posso esquecer de colocar no texto por que meu cérebro funciona numa frequência bem acima da minha mão. Quem lê o produto final pensa no produto final. É instintivo, e eu diria até que faz parte da nossa natureza. Não pensamos no que o autor sentiu ao escrever tais palavras, não pensamos quanto tempo ele demorou para lembrar o sinônimo de algum ou outro termo, e nem sonhamos em presenciar um erro ortográfico escrito em alguma sessão criativa mal iluminada ou descomedida. Ok, faz parte. Ninguém gostaria de ver minha letra mesmo, até por que as vezes ela é muito confusa. Mas aí é que tá. O motivo de eu escrever esse texto (que talvez para você, que leu até aqui, possa não fazer sentido algum) pode ser pensado e repensado à luz de diversos agentes, diversas opiniões, diversas emoções e singularidades. As analogias se formam sozinhas... E eu posso até contar o motivo real de eu ter pensado e repensado nesse texto, mas eu imagino que provavelmente a essa altura do campeonato você já possa ter criado a sua própria opinião a respeito disso. E é exatamente por isso que eu não vou contar. O que importa, no fim das contas, é o sentido que você atribuiu. Onde ele te tocou ou não, que tipo de reação ele pode ter gerado em você... deixa a sua singularidade fluir. É isso que nos move. Eu gosto de escrever por que me ajuda a entender melhor minhas questões, a cavar em mim para achar coisas que há muito enterrei. Acho um pouco engraçado e talvez exagerado o fato de que eu sou muito aficionado pelo pensamento das atitudes e atos em si. Crônicas e desmembramentos de momentos simples do cotidiano transitam nas minhas palavras e na minha cabeça incansáveis e prolongadas horas. Você se importaria se eu compartilhasse algumas com você? Espero que não, e, se for o caso, te faço um pedido... Não se iluda com o produto final. Texto na página, formatação e fonte. Não se engane e perca seu tempo em detrimento apenas do produto final. Tudo que existe e tudo que fazemos faz parte de um processo. Mas nós, humanos, os que habitamos aqui, comicamente nunca chegaremos ao nosso produto final. Até quando nós morrermos seremos mudados dia a dia, tempo a tempo, até que ao pó retornemos. Melancólico esse tal de tempo... nunca vai parar de nos mudar. Todo dia você vai mudar alguma coisa, algum detalhe vai ser diferente, repensar alguma atitude que tomou há algum tempo. Não perca seu tempo pensando no produto final, aproveita o processo. E a sensação única de que só você é você. Ser único e singular. Quanto a mim, calouro dessa revista, rapaz ansioso e inquieto para falar mais com você, digo certamente: Olá, muito prazer, até breve! Leonardo Menescal é aluno do 4º período de Administração na Universidade Federal do Rio de Janeiro A ilustração deste texto foi feita pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista #ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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