O racismo que você não vê

Racismo, uma palavra de 7 letras que contém um significado bastante complexo. Esse tema — que escolhi por motivos não só sociais, como também pessoais — carrega um peso histórico muito grande e relevante para a sociedade como um todo. Porém, não me aterei aqui a explicar o que ele é, como surgiu etc. O que venho propor por meio deste artigo é uma reflexão, ou até mesmo uma análise de como o preconceito está presente em pequenas situações do dia a dia. Como um organismo que se adapta e evolui com o decorrer do tempo, o racismo é um tipo de preconceito que vem se adaptando e se adequando às circunstâncias que a sociedade lhe impõe. Esse crime não mais é cometido de forma aberta e clara, mas tomou formas obscuras e agora se mostra de uma maneira que até mesmo quem o comete não consegue mais perceber, ou se o percebe, ignora, pois sabe que a punição para esse é algo muito difícil de ocorrer. “- Você é uma sarara que deu certo” essa frase dirigida a mim, posso dizer que foi a fagulha que me fez reparar em como o racismo vem sendo mascarado. A pessoa que proferiu essa frase, dada a situação na qual nos encontrávamos, tinha o intuito de me elogiar e com certeza não se deu conta de que estava sendo preconceituosa. E sim, estava. Ao dizer que eu sou “uma sarara que deu certo” ela não só usou um termo pejorativo, como também atribuiu a pessoas “classificadas” dentro desse termo como pessoas erradas e que eu, mesmo me encontrando dentro desse grupo, consegui “dar certo”. O exemplo que utilizei acima é apenas uma das maneiras pelas quais o preconceito “se esconde”. Outros exemplos clássicos que ocorrem no dia a dia são, por exemplo, alguém mudar de calçada quando vê um jovem negro vindo em sua direção, alguém achar que mulher negra tem o dever de saber sambar, alguém escrever em seu twitter enquanto uma senadora negra fala na TV “Senadora? Achei que fosse a tia do café”, dentre outros. É por esses modos, não tão explícito quanto as chibatadas, que o racismo vem açoitando os negros em nossa sociedade. Porém, por mais que algumas pessoas entendam tais atrocidades que vão contra a nossa dignidade, muitos ainda veem a manifestação dos negros contra o preconceito como um tipo de vitimismo. Muitas pessoas fazem questão de dizer “Pra mim isso tudo é vitimização, quem quer vai lá e faz”. Essas, com certeza, não se dão conta de como essa questão, o racismo, é uma questão muito mais profunda e delicada. Ainda que a utilização de dados seja um mecanismo por muitas das vezes frágil, me utilizarei desse, pois acredito que essa é a melhor forma de explicar e exemplificar o porquê da mobilização dos negros contra o racismo não ser um tipo de vitimismo. De acordo com dados do IBGE, os brasileiros que se auto declaram negros representa cerca de 54% da população. Da parcela pobre no país, cerca de 76% é composta por negros. 60,8% da população carcerária no Brasil em 2012 era composta por negros. E, apenas 17% dos negros se classificam como ricos. Logo, por meio da apresentação desses dados podem surgir diversas reflexões. Tendo em vista que os negros compõem a maioria da população brasileira, a maioria dos pobres, a maioria dos presos e a minoria dos ricos, o que fica claro, com total certeza, é que o grau de oportunidades oferecidas aos negros não se compara às dadas aos demais. Dessa forma, chego em outro ponto relevante e também muito delicado: cotas raciais. As cotas raciais vêm como uma forma de solucionar essa disparidade de oportunidades. Porém, tal assunto divide opiniões, muitos se posicionam contra, muitos se posicionam a favor, outros são a favor desse mecanismo desde que além disso seja comprovada a renda da pessoa favorecida. Porém, um ponto que as pessoas que se posicionam contra as cotas raciais não compreendem é que estas vêm não só para proporcionar um ponto de partida menos desigual aos negros, mas também vêm como uma forma de auxiliar a representatividade dessas pessoas. Representatividade. Esse termo, que acredito ser algo demasiadamente importante, é a base para a não compreensão das cotas raciais por muitas pessoas. Se sentir parte de um conjunto; sentir que há pessoas semelhantes a você fazendo o mesmo que você, é algo que não só te impulsiona, como também te estimula a prosseguir em seu caminho. É extremamente complicado, por exemplo, estar em uma sala de aula na qual você é o único estudante negro. Diferentemente do que muitos pensam, ser o único negro em uma sala não é motivo de orgulho, muito pelo contrário, é um motivo de tristeza. Isso ocorre, pois ao ser o único negro em algum local torna-se perceptível que pessoas semelhantes a você não tiveram a oportunidade de alcançar o que você conseguiu por diversos motivos e, com certeza, um deles é a cor de pele. Antes de encerrar o presente artigo, gostaria de salientar que tendo em vista a complexidade do ponto das cotas raciais talvez não tenha sido possível tratar dela de forma digna em apenas dois parágrafos. Dessa forma, gostaria de me desculpar. Afinal, não só com relação as cotas em específico, pode ser que eu não tenha abordado alguma questão de maneira clara ou com muita profundidade. Porém, dado o limite imposto não poderia aprofundar cada questão da melhor maneira possível sem ultrapassá-lo. Por fim, retomando o que disse logo no início do texto, o ponto que quis deixar claro com este artigo é que o racismo ainda existe. E caso você seja uma dessas pessoas que não o vê, repare. Como disse, o preconceito racial apenas se modificou e possui algumas formas não muito explícitas, claras. Logo, se atente; não deixe ele continuar, não deixe que pessoas que o cometem saiam impunes; não deixe que a naturalização que esse sofreu se perpetue. O racismo é errado, é imoral, é crime. Então caso você possa, reflita… Essa é uma luta que dura décadas. Não ache que é um vitimismo, afinal o racismo dói demais na pele de quem o sofre. Débora Jardim é aluna do 7º período da FGV Direito Rio As ilustrações deste texto foram feitas pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista

ISSN: 2447-2662
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