Monet & Architecture

Claude Monet (1840-1926) é conhecido por suas pinturas ao ar livre que vieram a definir o movimento impressionista, de que ele é membro. Ainda que suas representações de jardins, rios, campos e costas da França sejam as mais famosas, Monet também, por 5 décadas da sua longa carreira de 60 anos, dos anos 1860 até o início dos anos 1910, usou a arquitetura como forma de expressão de sua arte. O resultado disso encontrei na exposição Monet & Architecture, curada pelo Credit Suisse, no último mês em Londres. A exposição começa mostrando a Normandia, onde Monet cresceu (aberta com a obra The Lieutenance at Honfleur, 1864), e segue refletindo o conceito de “paisagem pitoresca”, estética originada na Inglaterra no século XVIII que via beleza particularmente em prédios antigos posicionados em ambientes rústicos. A percepção do pintor sobre as paisagens pitorescas nunca foram convencionais, mas ainda assim são interessantes de se notar uma vez que Claude Monet é majoritariamente associado com arte moderna. Por fim, esse grupo termina então com algumas pinturas de viagens à Holanda em 1871 e 1873, quando Monet se encantou com as casas coloridas, os moinhos de vento e a arquitetura particular. Em setembro de 1878, Monet e sua família se mudaram para a cidade de Vétheuil, a noroeste de Paris. A exposição mostra então uma das minhas sequências preferidas: a de representações da cidade, principalmente da sua igreja Notre Dame, em diferentes momentos e estações e vista de diferentes direções. Nos anos 1880 o pintor começou a viajar mais e suas estadias longas são refletidas também em grupos de imagens. Em 1882, ele passou dois longos períodos na costa Normande em praias e falésias isoladas dos grandes resorts e áreas turísticas. Ainda assim, prédios foram importantes em suas composições nesse momento, em Varengeville, com a igreja de Saint-Valéry, ou em Dieppe, com as casas de veraneio. Essas estruturas ajudaram Monet a criar contrastes e a trazer um senso de escala para evidenciar o dramatismo das paisagens de grandes falésias encontrando o mar aberto. Só em 1883 ele se muda para Giverny, onde ficam os famosos Jardins de Monet, e começa a representar a cidade de Vernon, com sua ponte medieval e seus moinhos de água (Houses on the Old Bridge at Vernon, 1883). A exposição segue então com referências mais óbvias à arquitetura - como, por exemplo, o sul da Itália, que Monet pode conhecer com o avanço da linha férrea francesa, e as famosas paisagens de Antibes e de sua fortaleza em cores muito saturadas sob as águas iluminadas do mar. Ele também começa a pintar prédios em lugares muito remotos ou sob forte neve para mostrar o sufoco da humanidade contra a natureza, em contraste com as pinturas de grandes cidades em um ambiente moderno, que ganham vida em um curto período de sua carreira mas que ainda assim se encontram na exposição. Ainda assim, mesmo em representações de Londres (por volta de 1900), podemos notar que Monet foca muito mais nas sutilezas de luz na atmosfera do ambiente do que nas estruturas da cidade. Outro prédio muito representado por Monet que vemos na exposição é a Gare Saint Lazare, estação de trens em Paris por onde ele passava muito após se mudar para Argenteuil em 1871. A própria Argenteuil, em reconstrução após a Guerra Franco-prussiana, ganha bastante destaque na sequência da exposição com as representações da ponte da cidade sendo erguida. Se encaminhando para o fim, encontramos então algumas das representações de prédios mais famosas de toda a carreira de Monet: as da catedral de Rouen, além de outras de Londres e das pouco conhecidas - mas muito impressionantes - de Veneza, que chegam a ganhar uma última sala só para elas. Em Rouen, a catedral era usada para representar as mudanças de luz; em Londres, novamente, a luz (e o efeito dela na névoa) o interessavam; em Veneza, a luz do sol delimita o diálogo entre estruturas de prédios e água; em todos eles, os prédios refletiam sua identidade de cores, pinceladas e texturas. O mais interessante da exposição, acredito eu, é perceber como ela foi curada dividindo as obras em temáticas mas não se prendendo à cronologia. Isso nos permite ver como a obra de Monet muda em períodos diferentes, mesmo representando o mesmo tema, a mesma cidade ou até o mesmo exato prédio. Ainda assim, nos 50 anos representados notamos uma concordância: os prédios sempre evocam memória e substituem qualquer presença humana. Mais do que uma exposição, Monet & Architecture foi um convite para entendermos o Monet que vai além de pinceladas fortes e impressões. The Credit Suisse Exhibition: Monet & Architecture esteve em cartaz de 9 de abril a 29 de julho na National Gallery, em Londres, mas um pequeno preview pode ser acessado em https://www.youtube.com/watch?time_continue=17&v=vg8wxRtxqkQ. Mercadorias da exposição também estão ainda disponíveis no site do museu. Isabella Aparício é aluna de Economia na FGV EPGE e faz parte da equipe de Edição da Revista Ágora #ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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