Manifesto Pelo Fim do Distanciamento Social

Ao contrário do que possa sugerir a interpretação imediata do título, não se faz aqui apologia ao desrespeito às orientações das autoridades sanitárias. Nada obstante, defendo o fim tardio de um distanciamento simbólico, estrutural e estruturante de nossa sociedade, que traça fronteiras intransponíveis entre seus grupos sociais. A construção histórica de um “eu” distante do “outro”. A ironia é que, intimados a nos afastar 2 metros do próximo ser humano, a restrição nos parece quase torturante. Mas, anestesiados, despercebemos que estamos cada vez mais afastados uns dos outros. Os sintomas dessa ética da indiferença são escancarados pela pandemia. As filas quilométricas de desassistidos. A vulnerabilidade dos invisíveis. A tensão entre realidades sociais contrapostas estampa os noticiários em episódios deploráveis de intolerância. As mortes adquirem a frieza da estatística. Enquanto uns se desesperam para não morrer de tédio, outros se desesperam para não morrer. Privilégio é ter escolhas. Evidente – ou deveria ser – que a única estratégia vencedora para opor a pandemia é a coesão social. Não há espaço para individualismo. É preciso colaborar, coordenar e agir pela coletividade. Para sair dessa, é preciso confiar na empatia dos outros. Defino empatia como a ponte mínima de compreensão entre realidades distintas. Ponte que intermedeia o fluxo entre margens – e mesmo realidades – opostas. Sem empatia, estamos fadados a enxergar o mundo apenas do nosso lado da margem, um retrato incompleto que não faz jus à riqueza de existências que nos cercam. Se deixarmos de fora a empatia do “novo normal”, este será tão novo quanto nós somos. A anestesia da indiferença sempre terá como legado a fragmentação, a polarização, a exclusão. Para forjar um novo normal, é preciso olhar para os infinitos Brasis que nos permeiam, aproximá-los e não tolerar mais normalizar os velhos absurdos quotidianos. Jamais compreenderemos, em sua plenitude, o que é ser o outro, o que é viver a sua realidade. Afinal, todo ponto de vista é a vista de um ponto. Talvez a menor distância entre dois pontos seja ainda mais curta que a reta. Basta escutar. Basta sentir.

ISSN: 2447-2662
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