Limiar

Frustrações à parte, eu me deitei na cama. Ventilador ligado, cobertor aconchegante e, sobretudo, cansaço acumulado das noites mal dormidas. Meu coração, naturalmente, desacelera, seguido de uma confortável dormência nos braços e nas pernas. O ar me acaricia. Durmo em seu abraço. O frio me tira do sono. Sinto os lençóis roçarem contra minha pele. Eu deslizava em cima da cama. Ainda deitado, olho para cima e vejo que a parede, normalmente tão próxima, se afastava de mim. Olho para meus pés e lá estava aquilo. Os cabelos bagunçados, os braços arqueados de tão longos e o corpo esguio, grande demais para pertencer a um humano, compunham a silhueta que se misturava ao escuro do quarto. Ela puxava meus pés. Acho que sorria. Procuro socorro ao meu redor e percebo que as portas da varanda e do corredor estão abertas. Tento berrar pelos meus pais, mas não há voz, nem ar nos pulmões. Sufocado, escuto a ventania estalar os galhos das árvores antes de inundar meu quarto. Volto minha atenção à criatura que me segura pelos tornozelos: seus olhos, vermelhos e famintos, me devoram. Por mais forte que eu me debatesse, não conseguia me livrar daquelas mãos. Desesperado, tento me agarrar aos lençóis, mas eles se soltam. Com a cama descoberta, me aproximo mais rapidamente da criatura. Diante do inevitável fim, tento, com as últimas forças que me restam, retornar à posição inicial. Bato com a cabeça na parede. Suando frio, procuro o interruptor ao lado da cama. Acendo a luz e, instintivamente, certifico que meus pés ainda estão presos ao restante do corpo. Fecho os olhos. Volto a dormir. Victor Caldas é aluno da FGV Direito Rio. As ilustrações deste texto foram feitas pela Isabella Aparício (@isabellaaparicio), ilustradora da Edição 10 da Revista #ed10

ISSN: 2447-2662
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