Gorgeous

Eu nunca fui fã do Kayne West. Tudo que eu ouvia e via sobre ele me remetia a machismo com quês de misoginia, prepotência e futilidade. Kayne West, para mim, representava o que existia de pior no hip-hop, um movimento que para mim sempre foi tão caro. Ele era parte da sombra que sempre me impediu de abraçar a causa de olhos fechados. Esse texto não é um pedido de desculpas ao Kayne West, apesar de o ser em parte. Ele continua sendo tudo isso que eu achava que ele era. Mas ele é muito mais e é preciso reconhecer isso. Foi conversando com um amigo sobre Dear White People – que, por sinal, se você ainda não viu deveria largar esse texto agora mesmo e ir assistir nesse instante – e o quanto a série me impactou que o assunto Kayne West veio à tona. Esse meu amigo é um fervoroso defensor do rapper e me mostrou uma passagem da música que dá nome a esse texto. Gorgeous tem o seguinte verso que me convenceu a dar uma chance para o que ele tinha a dizer: “As long as I’m in Polo smiling they think they got me/ But they would try to crack me if they ever see a black me”. Para mim essa frase representa toda uma vida. Toda criança lida com certas dúvidas enquanto cresce: Como se portar diante do mundo; como o mundo se portará diante dela; e, principalmente, aonde nessa confusão de gente ela se encaixa. São dúvidas comuns, mas as respostas nem sempre são tão simples. Os livros de história me ensinaram que quando, ao longo do tempo, negros e brancos se relacionavam e tinham filhos, estes eram considerados pardos. Existem algumas variações terminológicas, mas a ideia é sempre a mesma: alguém que é fruto de uma mistura. Nem branco nem preto. Um meio termo, levemente perdido em um limbo de incerteza. Sempre considerei meu pai negro e minha mãe branca. Essa constatação não é tão difícil, basta olhar para os dois e imediatamente se tem a resposta. Eles estão totalmente dentro do estereótipo fenotípico. Parecia uma decorrência lógica que eu seria pardo. Algo como uma interseção. Durante muito tempo eu carreguei isso como verdade. Crescendo nunca me considerei negro. Nunca me considerei branco. Eu era pardo. Eu era diferente. É difícil para uma criança brasileira entender exatamente como funciona a separação racial nesse país. Eu cresci ouvindo que eu não era negro, que eu não era “tão escurinho”, e para mim isso sempre fez sentido. A minha pele não remete ao imaginário do negro. Meu tom é algo mais próximo do marrom ou da pele queimada de sol, do que da cor de piche que existe no inconsciente coletivo ao se pensar em um negro. Eu não era negro, eu era pardo. Demorei muito tempo para entender o porquê de ter de ir bem vestido para o shopping, a razão de jamais poder sair de casa sem um documento que prove quem eu sou ou o motivo de não dever encarar os policiais. A verdade é que eu sempre fui negro, mas ninguém nunca me contou. Ao contrário, eu fui ensinado desde cedo que eu poderia e deveria ser branco. Que se eu me comportasse direito, eu poderia conviver no mesmo espaço, ter os mesmos acessos. Eu não sofreria preconceito. Negros sofrem preconceito e eu nem era tão negro assim. Ouvir minha história resumida em uma frase por alguém que, para mim, nunca tinha entendido o que é defender o movimento negro, foi uma virada de página brutal. Agora eu precisava dar uma chance para o Kayne West. Dar uma chance para o que ele queria dizer. Eu ouvi Gorgeous e ela é simplesmente incrível. De fato, o CD inteiro é incrível. E, apesar de tratar da fama, que deve ser o grande exemplo de um tema pouco relacionável, o disco traz uma mensagem muito forte e acessível. O álbum abre com essa premissa. “You might think you peeped the scene. You haven’t. The real one is far too mean.” Kayne West usa a fama para falar de algo muito mais simples, para falar da pessoa comum, negra, e de como é arriscado ousar ser mais do que as pessoas esperam de você. E é para falar desse ponto que eu senti a obrigação de escrever esse texto, porque apesar de Kayne West em momento nenhum ter se tornado um ídolo para mim, ele me mostrou com poucas músicas o porquê da sua prepotência ser tão ofensiva. Ele é negro. Ele não tem o direito herdado de poder querer ser mais, de se achar bonito, de se considerar bom o suficiente ou até mesmo melhor do que os outros. A cor dele não permite tamanha ousadia. Suas músicas são contundentes porque mexem com algo que é enraizado na nossa forma de pensar. Ele não canta por igualdade, ele canta por superioridade. E que direito teria uma pessoa que carrega o nome de seu senhor de cantar por superioridade, certo? Errado. A mensagem de Kayne West é importante não na luta pela igualdade, mas para empoderar seus lutadores. Foi o ouvindo que eu percebi que lutar pela causa negra não é uma luta meramente de igualdade. É uma luta para construir uma autoestima há muito destruída e massacrada. E aqui eu preciso pedir as tais desculpas ao Kanye West. Eu achava que ele não entendia o que era lutar pela causa negra. Que ele estava mais preocupado em mostrar como ele era incrível e melhor do que todo mundo. Me faltou o olhar crítico para ver que quando ele canta, é em parte para massagear o seu próprio sim, mas também é para tentar construir um ego para um povo que nunca teve direito de ter um. Como eu disse, eu nunca fui fã de Kayne West. Eu não conheço sua história, de onde ele veio ou mesmo se essa era a mensagem que ele queria passar. O que importa para mim é que com um único álbum ele conseguiu me convencer de que ele pode ser talvez o rapper mais corajoso dos tempos atuais. Um rapper que está cantando não para expor os problemas raciais que existem, mas cantando para mostrar que, apesar deles, um negro pode ser muito mais do que é esperado dele. E isso é, no mínimo, digno de nota. Obrigado, Kanye, por essa Beautiful Dark Twisted Fantasy. Breno Gaspar é aluno da FGV Direito Rio. #ed09

ISSN: 2447-2662
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