Entrevista com Toz

[Rio de Janeiro nos anos 90 e o surgimento do graffiti] A nossa revista terá como próximo tema a sociedade à margem. Queríamos saber como a sociedade te vê, como você se sente visto pelas pessoas sem diferenciar você da pichação. Lógico. Porque na verdade fazemos parte do mesmo universo com folhas diferentes. A pichação e o graffiti só aqui no Brasil que é distinta, que é diferenciada. No resto do mundo inteiro faz parte do mesmo tipo de coisa que se chama graffiti, ou a cultura de rua. Todo mundo é do mesmo universo. Tem gente que só bota tag, conhecida como “pichação” e tem gente que faz throw-up que é aquelas letras balões, rápidas, simples e tem gente que se dá o trabalho e faz produções, painéis e tudo; e tem gente que faz tudo, que é o meu caso. Você é de Salvador, né? Como foi sua chegada ao Rio? Como estava o mundo do graffiti quando chegou aqui? Como você se inseriu nele? Eu cheguei aqui muito cedo, né. Eu cheguei aqui com 14/15 anos, por aí, e não existia graffiti na época que eu cheguei aqui. O que existia muito forte era a pichação e foi o que realmente me chamou a atenção de cara. A pichação era muito forte na época, no começo dos anos 90. Eu cheguei aqui em 89, por aí. Então, foi um período bem tumultuado do Rio de Janeiro, que eu posso dizer que era o Rio 40º mesmo. Tinha briga de torcida, funk, porrada na rua, briga de rua, gangues de rua... Era tudo junto e a pichação vinha como uma forma de demarcar o território e também de mostrar quem eram os caras da rua na época. E você se inseriu nisso? Eu me inseri mais ou menos. Eu sempre pratiquei lutas e quando eu cheguei aqui, eu fui direto pra capoeira. E na capoeira eu conheci muita gente envolvida na pichação. Então foi ali o começo da minha história com o hip hop, não com o graffiti propriamente dito. A capoeira tem essa ligação social bastante forte em lugares mais desfavorecidos socialmente. Então eu fui nesses lugares e tive contato com essa cultura, a cultura do hip hop. Foi meio que um caminho contrário da maioria dos artistas. Eu não fui pra pichação. Eu andei muito com pichadores e conheci, mas eu não via sentido. Eu sempre adorei ver os caras lá em cima, pendurados ou como os caras faziam pra subir, sempre me interessou. Mas, eu nunca fiz porque eu não via nenhum sentido em você subir lá e botar um nomezinho pequeno só pra uma parte das pessoas verem e entenderem, né? Eu sempre desenhei, então eu imaginava que se eu subisse lá, eu ia fazer um desenho, uma parada... que eu quero ver debaixo. Então, eu acho que teve essa coisa mais ligada à pichação, mas de admiração, não de frequentar o universo da pichação, e sim de admirar, de ver, de querer entender o porquê dessas coisas. O graffiti e a pichação você falou que não existiam quando você chegou aqui, porque eles vieram dos Estados Unidos. Não foi? É, na verdade, foi o seguinte: o graffiti surgiu no Brasil no final da década de 80, em São Paulo. O graffiti eu digo, o que a gente tá vivendo hoje: esses painéis, essas coisas... ligadas ao hip hop. Porque esse tipo de graffiti veio sim dos Estados Unidos ligado ao hip hop, com a cultura inteira junto. Meados de 94, a coisa tava começando a acontecer aqui no Rio com uma festa chamada Zueira Hip Hop, que era na Lapa. Era demais o pico, era um lugarzão enorme, que era cheio de mesas de sinuca, completamente grafitado, tomado de pichação... lá foi onde tudo começou no Rio. Nesse pico era Marcello D2, D-Negão, Black Alien, Marechal, De Leve, Shaolin... toda essa galera tava começando também nessa época. Eu lembro muito bem que no começo pra mim assim era uma coisa muito marcante, porque todo mundo levava suas coisas pra mostrar, sabe? Eu descobri que tinham outros grafiteiros e pessoas afins lá. E aí, a gente começou a todo sábado a se encontrar lá e todo mundo levava seus cadernos, um trocava o caderno com o outro e mostrava e falava o que ia fazer o que não ia. E aí foi assim que a gente foi vendo como a cena rolava. Nesse mesmo período, o Marcello D2 estava inventando aquela história do Hip Hop Rio, que era uma ideia que ele tinha de juntar a galera que tava fazendo hip hop na época. Então juntou tudo num lugar só, que era esse pico chamado Zueira. [o papel social do graffiti] E isso há um tempo começou lá na Lapa com essa galera. E você acha que o graffiti, hoje, tem algum impacto social nas periferias? Tem muito. Nós brasileiros, artistas brasileiros, a gente ensina aos gringos isso: a ação social do graffiti. E em nenhum lugar do mundo existe isso. No mundo, os lugares que existem são porque os brasileiros estão envolvidos. O povo brasileiro, de um modo geral se cansa porque realmente os governantes não vão fazer porra nenhuma. Então, bem ou mal, o grafiteiro é uma figura na sociedade proativa. Ele não espera autorização, ele não espera que os outros ajudem, ele vai lá, com os próprios recursos, pinta o muro dele. Ele vai lá na comunidade, que ele conhece, que ele mora perto, organiza um mutirão e pinta toda a comunidade. Então, eu acho que isso é um detalhe muito particular da cena brasileira. Que para muitos é o grande câncer do graffiti brasileiro, porque termina que você ensina uma profissão, você ensina uma pessoa a respeitar o outro, você ensina a pessoa a adquirir conhecimento de arte, de cultura. Isso tudo faz com que a briga contra o sistema habitual do graffiti vá amolecendo porque você insere a pessoa dentro do sistema, você não exclui. E, lá fora, o graffiti é de exclusão total. Você faz parte de uma sociedade contra a outra, você é contra o sistema, você invade o metrô, você risca, você não quer saber. E aqui no Brasil, tudo é muito mais complexo. Primeiro, existe uma violência enorme na rua. Então você não pode considerar que a polícia vai só te prender. Então, dependendo do nível que você está fazendo o cara pode realmente te dar sumiço. E, também tem essa questão social no morro, nas comunidades... que a gente tá cercado e tem muita gente, muita criança, sem ter o que fazer, sem ter uma opção. Então, o esporte, a cultura, a arte, a música são elementos salvadores de vida. E o graffiti não é diferente, é que a gente tem esse apelo social e eu acho alucinante porque eu também faço, eu gosto, eu já fiz vários projetos sociais e tem um que eu gosto muito que eu faço junto com minha esposa que é em escolas particulares ou escolas públicas e a gente dá aula para as crianças, a gente ensina[1]. A ideia não é transformar aquela criança num grafiteiro, mas mostrar pra ela que existem outras opções na vida. Não é só o bandido, não é só o cara de gravata. É o cara que pode ser músico, que pode ser o artista… Enfim, a gente mostra opções e tenta amenizar o cotidiano que é muito duro. Eu acho muito legal que a gente cada vez mais exporte esse tipo de postura social. Os grafiteiros daqui são muito mais ligados na sua comunidade. Se você for nas favelas que tem grafiteiro você vai reconhecer na hora que ali tem um grafiteiro. Você vai no Pavão-Pavãozinho é quase um museu, que é o Acme. No morro dos prazeres tem o caminho do graffiti que é o Zuck quem organizou, que é um morador de lá. Então todas as comunidades que têm a presença de um artista têm a transformação ali. Então eu acho muito legal, sempre que posso eu tô dentro dessas porras. E mesmo sem ter tido uma mudança na legislação, você acha que o graffiti então não legalizou? Como que está esse embate com a polícia? Eu acho que o graffiti, originalmente, não tem como ser legalizado. É uma coisa muito difícil porque legalizado seria eu pintando o seu muro. Você me dá autorização? Eu posso ir lá pintar? Isso é legalizar. Mas, fora isso, é muito difícil que a prefeitura, qualquer órgão determinar “aqui pode”, “aqui não pode”. O que acontece no Rio, pelo menos, é que existe uma conscientização social generalizada: ninguém vai chegar te batendo, te agredindo, vendo o que você tá fazendo. Então, isso é uma coisa que a gente conquistou na marra. Pintando, bota na cara, domingo, sábado, de noite, de madrugada, todas as horas do dia, saindo, se confrontando com a polícia, mas não de forma brigando, mas sim de forma “tô fazendo aqui o meu trabalho, olha esse muro!". Então você questionando da forma e como no Rio de Janeiro existe, realmente, essa coisa muito mais flexível da lei, né? E você vê que a polícia, às vezes, ela é compreensiva. Ela vê ali a situação e fala: realmente, tem gente roubando, matando, traficando e o cara tá jogando a tinta na parede... Porque eu tenho que prender ele? Eles mesmos se perguntam! E eles não querem perder tempo com a gente. Então a gente aqui, no grupo, eu digo, a gente até costuma dizer que o policial é o curador – ele quem decide. A gente já tomou uma dura uma vez, uma blitz aí, o cara parou e perguntou que porra é essa que vocês estão fazendo? Isso aí é o que? é cultura ou apologia? A primeira coisa que ele perguntou e eu achei ótimo esse ponto porque ele definiu. Não é apologia, então é cultura: se não é apologia, não é crime, é cultura. Isso aqui é cultura, então a gente tem o direito de mostrar cultura, a nossa cultura para as pessoas. Em 20 anos de graffiti eu fui preso uma vez, então isso é muito pouco e todos os meus amigos gringos que chegam aqui, ficam chocados com a receptividade das pessoas. Hoje em dia, eu tô pintando na rua as pessoas me reconhecem, querem tirar foto comigo, então isso é uma coisa, um status que a gente do graffiti aqui ganhou que foi conquistado com nossa própria boa vontade, de pintar, de ser importante socialmente, porque o graffiti hoje é uma ferramenta importante na sociedade carioca de reconstrução, de tudo, dos lugares. A gente conquistou esse estatuto de “tá liberado”, mas não está liberado teoricamente. [Transição da rua pra galeria] Você começou com o grafite na rua e depois começou a expor em galeria. Como foi essa expansão? O grafite é um universo que é paralelo à arte contemporânea. Vocês, por exemplo, podem querer a obra de um cara de street art porque você vê a obra do cara na rua. Se eu te mostrar um print do Luiz Zerbini, você vai falar “pô, não gostei, quem é esse cara”? Sendo que ele é representante da geração 80, tem uns 30 anos aí no mercado fazendo um trabalho super valioso e o cara que faz “não fui eu”[1], você vai ficar muito mais amarradona. O grafite tem esse apelo da rua. Então, naturalmente as pessoas foram querendo adquirir esses pedaços de muro pra dentro de casa. Quando eu comecei, eu pintava pra mim mesmo, eu fazia os meus personagens, eu comecei a desenvolver as histórias deles nas telas, naturalmente. Então eu fui desenvolvendo isso tudo no estudo das telas, não no muro. No muro eu replicava. O meu caminho era o contrário, né? Em vez de eu pegar do muro e botar na tela, eu pintava as telas, fazia os meus estudos e depois eu pegava fragmentos daquilo e botava na rua. E foi assim que eu comecei a desenvolver. Nessa onda, a gente tinha uma loja aqui na Galeria River, de roupa e tal com o meu grupo da Flashback e eu decorei toda a loja. Na época eu pintava umas caixinhas de papelão muito toscas, aí um cara daqui do Cassino Atlântico tinha uma galeria, andando ali, viu meu trabalho, pegou meu telefone, me ligou e disse “quero seu trabalho”. Eu não entendia porque pra mim eu não queria aquilo, mas eu fiquei amarradão e falei “lógico”. E ele quis pagar 150 reais em cada caixa, imagina, caixa de papelão. Até ele comprar tipo 15 caixas. Eu fiz uma instalação, ele botou um acrílico, a parada ficou foda. Ele começou a vender, aí ele chegou pra mim e falou “cara, eu tenho três telas grandes pra você pintar, você tá afim?” eu falei “claro! Pode me mandar”. E quando ele trouxe as telas, eu de cara não quis fazer exatamente o que eu tava fazendo, não era um grafite. Eu desenvolvi uma nova técnica, eu misturei as técnicas que eu usava com canetas, pincéis, acrílico, spray... e criei um contexto dentro daquilo que remetia muito à minha vida, uma espécie de autobiografia. E aquilo foi o pulo do gato pra mim porque a arte precisa de um conceito. O conceito do grafite é o estilo. Se você tem estilo você manda, se você tem o seu próprio estilo, você é a própria mensagem. Você não precisa fazer nada, você só vai repetir aquilo pro resto da vida e você vai ser considerado um Deus, é isso. No grafite é assim, você não precisa mostrar coisas novas, não precisa criar, interagir com as pessoas para que as pessoas entendam aquilo. Enfim, você tem um pensamento mais de replicar, de virar dono da cidade, “onde você olhar vai ter um grafite meu”. Isso é grafite pra mim, é a minha humilde opinião, nem tão humilde assim porque eu não sou humilde, mas acho que é a minha opinião sobre o grafite e a arte.[1] [os personagens de Toz] Você quer falar um pouquinho mais sobre os personagens das suas telas? Qual é a personalidade deles, qual a história deles, o que eles representam? Nina O primeiro personagem que eu criei foi a Nina, a boneca cabeçudinha. E foi assim: a minha sobrinha tinha uns três anos de idade e ela sempre foi uma menina com muita personalidade e eu sempre fui um cara muito menino, zuador, perturbado, então a gente tinha muitos confrontos, desde pequenininha ela me questionava, ela fica puta e tal e sempre foi mais na dela. Daí foi quando eu me juntei pela primeira vez com uma mulher. Eu me casei pela primeira vez com 22 anos, assim, me juntei pra morar com uma namorada. E foi o começo da minha relação com o universo feminino mais profundamente, porque até então eu fui criado por uma família de mulheres e tudo o mais, mas eu sempre vivi muito com meu pai, com meus primos, então era muito coisa de homem. E de vez em quando minha mãe me levava pra casa da minha avó, eu tenho cinco tias e todas elas faziam unha, depilação e tudo no mesmo dia e eu ficava lá com elas. Então eu tive muito acesso ao universo feminino e o surgimento da Nina foi natural, sabe? Eu fiz ela, aí falei “pô, irado. Essa boneca aí é parecida com a minha sobrinha, com a minha mulher atual, com algumas mulheres que tive romances, ela é um pouco de tudo”. Ela tem esse ar meio sonhadora e meio lúdico, como ela tá de olho fechado é como se tivesse viajando. Bebê Idoso Logo depois desenvolvi o Bebê Idoso, que já era uma coisa relacionada aos meus amigos. Porque a gente tem essa coisa, eu sou eternamente um garoto. Então tinha essa relação. Quando eu era novinho eu era muito consciente já, maduro pra minha idade, eu abri meu escritório de design com 22 anos e me aposentei em design com 27, 28. Então, eu fui muito precoce em tudo, então eu me considerava um bebê idoso, me considero até hoje um cara que tem um lado muito adulto, muito sério, mas tem um lado muito infantilóide, que eu adoro também e não deixo morrer. Então o bebê idoso veio depois, inspirado nisso. Nos meus amigos, em mim, no meu pai, na galera, nos homens da minha vida. Shimu Depois veio o Shimu. É uma parada que eu sempre adorei: mascotes, bonecos, essas coisas de brinquedo mesmo, e cachorro. Eu sempre tive essa vibe com cachorro, sempre adorei animais, então eu queria fazer um personagem que identificasse isso. No começo eu tentei fazer um cachorro de verdade, mas ficaram muito feios os cachorros. Mas é isso, eu tive um período que eu desenhava muita coisa feia, nojenta, sabe? Tipo, asqueroso. Eu gostava de chocar dessa forma. Quando eu mudei pra esse lado mais arredondado, foi uma questão dupla. De reconhecimento na rua, porque se você enche de traço dentro do boneco, você não identifica, então eu queria que fosse limpo, então eu tentei limpar os traços, e o Shimu veio nessa onda de criar um mascote que tivesse a ver com o meus cachorros e que fosse uma coisa muito rápida de fazer, porque como eu nunca fiz letra muito bem, eu queria que fosse rápido pra eu poder fazer vandalismo. Eu faço em cinco minutos, rapidão né. Julius Da segunda vez que eu casei, que foi de verdade mesmo, véu, grinalda e o caralho, a menina tinha um namorado antes e eu ficava naquela “ah foda-se larga esse cara” e tal. Consegui fazer ela ficar comigo, só que o cara deu um urso gigante pra ela, todo colorido, boladão, o cara era gringo, alucinante o urso. Aí eu fiquei puto, sequestrei o urso, me enrolei, botei fita tape, tirei foto, horrorizei o urso, mandei pra ela e falei “ó perdeu, já era”. Aí depois dessa história eu criei um ursinho e dei o nome do namorado dela, Julius, ele era alemão. Ela falou “você é louco!”, mas eu falei “pô o cara tá aqui me perturbando, eu vou ter contato com o inimigo”. Insônia Depois desse dois, depois de uns seis anos de casado com essa menina, eu me separei de novo e dessa vez eu fui pra pista de verdade. Aí fui com violência, daquele jeito, e nessa zoação toda eu falei “pô eu preciso criar um personagem da noite, porra a noite é irada. A noite tem luz, a noite tem cores diferentes, a noite tem mistério”. Tem seres da noite né, tem pessoas que vivem na noite, um DJ, um garçom. Aí falei “já sei, vou fazer um bebê idoso noturno, negão, preto, sei lá que porra é”. Aí criei o olho, que eu acho que pra mim foi a grande sacação do insônia. Eu criei o olho dele que é um losango em dois e pintei de flúor e ficou o contraste do preto com o flúor e falei “puta do caralho, achei a parada”. O insônia veio com essa força. De cara ele era um bebê noturno, que seduzia a Nina, que tinha uma coisa de seduzir os outros personagens. Eu comecei a transformar os outros personagens, a botar o olho nos outros personagens como se eles tivessem sendo abduzidos, que é a própria noite que te abduz, te chama. Aí fui pra Bahia e encontrei uma galera que me levou pra uma feira de produtos de candomblé e aí percebi que aquilo ficaria legal com o insônia, aí comecei a criar o universo dele. Eu falei “o insônia não é só um cara noturno, na verdade ele é uma entidade afro-brasileira que viajou pelos tempos, mora na floresta, cultiva isso, ele adora ser bem recebido, adora conversar com as pessoas e ao mesmo tempo que ele pode ser bom ele pode ser ruim. Ele tem um lado positivo e um negativo”. Aí li sobre candomblé e descobri que ele era meio Exu, fui num pai de santo e troquei uma ideia com o cara, fui numas palestras e enfim, desenvolvi o contexto dele todo, que até hoje tá rolando. Que virou o povo insônia. Eu descobri o rei e agora tô descobrindo o povo. To resgatando tudo, as crianças, as mulheres, todos com a cara do insônia. Vendedor de Alegria Aí me apaixonei de novo, mas não casei. Ela era muito legal e tal, fiquei amarradão, encantado, comecei a acordar cedo e tal. Aí num dia, num domingo de manhã cedo, eu vi aqueles caras vendendo bola, andando na rua. Eu falei “caralho esse cara é maluco cara, por que que faz isso?”. Eu nunca entendi, eu comecei a me perguntar “por quê? O cara vende bola cara, quem precisa de bola? Como que o cara leva essa porra, um trabalho fodido. Como o cara entra no ônibus? Enfim, eu comecei a viajar e questionar ele. Eu falei “pô, esse cara não gosta de ganhar dinheiro, ele gosta de divertir as crianças, de ter contato com as pessoas, de outras coisas que não ganhar dinheiro”. E aí eu comecei a me identificar com ele, eu pensei “arte é exatamente isso, o artista não pode fazer querendo ficar rico, ele faz pra botar pra fora, pra expor, pra mostrar o lado dele. O que ele acha do mundo, o que ele pensa, o que ele quer e não a propriamente dita guerra com o dinheiro”. E aí eu fiquei amarradão e veio o vendedor de alegria. O cara pode vender Coca-Cola, água, suco, tudo que nego consome na praia, bola é a última coisa que alguém vai consumir, então esse cara vende ilusão, ele vende alegria, ele vende o sonho, ele não vende a matéria. Você chegou a conversar com um dos vendedores de bola? Nunca conversei. É aquela coisa de musa também né. Se você ficar muito próximo da sua musa ela deixa de ser sua musa, ela vira sua mulher. Então você tem que ter aquela coisa meio misteriosa, uma coisa distante. Então eu queria essa coisa lúdica de imaginar que aquele cara é assim. De repente o cara é o maior babaca, zoa pra caralho, não sei. Mas na minha cabeça de romântico eu olhava pra ele e via ele todo coloridão, flutuando na areia e o cara suando pra caralho, totalmente o contrário, mas acho importante você fazer esses paralelos porque a realidade normalmente é dura. Pra mim é importante preservar também esse lado mais romântico e mais lúdico do olhar.[2] [1] Está fazendo referência a uma pichação comum nas ruas do Rio de Janeiro,onde lemos:“não fui eu”. Grafite e Arte; Transição do Toz Personagens/Obras do Toz

ISSN: 2447-2662
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