Domingos Alaranjados

Para comemorar o aniversário da nossa amada Cidade Maravilhosa, hoje revivemos nossa parceria com a Gazeta Vargas, trazendo uma declaração de amor genuína de Tayne Miranda para os domingos cariocas. Domingos Alaranjados. O sol nasce em Niterói, mas não se atrasa pra me acordar em Botafogo. Assim que abro os olhos pra vida, o que pulsa na cidade não me deixa ignorar que o Rio de Janeiro prescreve vidas em tudo desiguais, pra todas as vidas que dele se engendram. Na Praia de Botafogo o mundo todo se acalma. Se, durante a semana, as calçadas esburacadas são inundadas pela pressa de quem precisa trabalhar, no domingo o mundo se acalma pra quem esperou tanto por um descanso. Botafogo não mente, te mostra que o descanso do carioca, assim como o do paulista e do nordestino, custa caro e, no backstage, tem sempre uma aglomeração pagando um preço alto pra uns e outros desfrutarem dos privilégios de viver na zona sul. Morar sozinha, na cidade mais do que maravilhosa, me ensinou a me apaixonar pelos detalhes, das músicas, dos cafés da manhã, das comidas que eu faço pra mim ou pras minhas amigas, dos dias e das noites na faculdade. Em tudo, os detalhes do Rio me cativam, e em todos os caminhos que eu faço, para todos os lugares que vou, os detalhes me captam e transformam de alguma forma. Domingo é dia de me deixar transformar pela cidade que a FGV não me deixa viver nos outros 6 dias da semana. Domingo é meu sagrado dia de olhar pra dentro de mim mesma em busca de me identificar com o mundo a minha volta, com as vivências que em nada se assemelham com a minha. É nessa jornada, de domingo em domingo, que desenvolvo meu olhar mais sensível. Tudo sempre sempre igual. Saio de casa, antes do almoço e, no meu caminho até Ipanema, me deixo cativar por todos as pequenas grandezas que as ruas do Rio me proporcionam. Cachorros passeando, bike na orla, churrasco na calçada, o Redentor sorrindo pra mim e um metrô cheio de coolers: a praia é a religião do carioca e eu sou uma grandissíssima devota. Faça sol ou faça mais sol ainda, nos reunimos numa sintonia em que a frequência ideal só é possível quando nos entregamos de corpo e alma pros banhos de sol e de mar e de vida, que só as praias do Rio de Janeiro conseguem dar. Tem gente que não entende, mas a praia é nosso melhor presente de domingo. Uma canga do lado da outra, funk, pagode, sertanejo, rap, matte, milho, esfiha, hamburguer vegano, açaí, água de côco, cerveja, chá, bronzeador e protetor solar, lado a lado transformam domingos em experiências que nunca se repetem. Cada pôr do sol conta uma nova história, e todas elas nos transformam - não importa de onde você vem ou pra onde você vai voltar quando o dia acabar, a orquestra só funciona se todos estão juntos no propósito de desfrutar. Mais tarde, no laranjar do dia, eu pedalo pela orla da praia, pelas avenidas abertas, pelos turistas encantados, pela pobreza e pela abundância. Ipanema, Arpoador, Copacabana, Leme, Botafogo. Depois de 9km, o céu é mesmo cor de fogo. Purinha energia de renovação, que só a magia do Rio consegue emanar pra transmutar semanas difíceis. Depois de quase 6 meses longe, de longos domingos repetindo viagens virtuais completamente desconectadas, o Rio continua se revelando um paraíso de transformação na minha vida. Meu paraíso verdadeiro, porque lá não existe perfeição. Para olhos que escolhem se abrir, não existe colírio que alivie a verdade do Rio de Janeiro. De segunda a segunda - ou de domingo a domingo - a cidade maravilhosa me mostra o que já me neguei a enxergar, me desafia para o que não sei que posso suportar, me ensina sobre o que nunca imaginei que o mundo podia ser. A noite chega na Praia de Botafogo, as luzes se acendem, as vidas silenciam pra contemplar o fim de mais um dia, e eu aprendo que as tardes de domingo serão sempre o meu maior privilégio de viver essa cidade.

Domingos Alaranjados