De um filho para um pai

A faca fazia semicircunferências naquele amontoado de amido que mais tarde aprendi a chamar de pão. A destreza era invejável. Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização, a determinação e a habilidade de meu pai em passar geleia de morango sobre aquela superfície seca nos cafés da manhã. Eu o observava admirado, ainda observo. “- Quer um pedaço, filho?” Fiz que sim de imediato e ele, sempre seguro de si, esperou pela minha reação como quem espera o improvável resultado das lotéricas. Minha mãe bem tinha me avisado para lavar as mãos. Nunca liguei, e meu pai tampouco. Mordi o dedo, estrategicamente esperando que ele me fizesse mais uma fatia daquele exagero sinestésico de sabores que nunca antes havia experimentado. Com entusiasmo, foi me oferecendo as suas misturas paraenses. “- Que tal botar banana nesse seu arroz com feijão, filho?” Talvez, a simples torrada tenha vingado a vez em que dormi e não pude ver meu pai fracassar miseravelmente em ter a minha atenção enquanto falava das maravilhas do Futebol e de seu Botafogo, ou do ceguinho Magoo e outras nostalgias suas. Daqui a 30 anos, provavelmente lembrarei dos natais em que o coagi com a típica lábia infantil de uma criança a se travestir de Noel, ecoar um grave Ho Ho Ho e me indagar sobre como me comportei naquele ano. Lembrarei também da autoridade pé rapada da sua barba por fazer de todas as segundas-feiras pré-trabalho e das vezes em que, na ausência de minha mãe, me levava para comer sushi na esquina da casa antiga. De propósito, farei força para esquecer as inúmeras vezes em que lhe pedi um cachorro, e o senhor não me concedeu. “- Mal te cuidas, e queres cuidar de outra vida?” Não discuti nunca mais. E enquanto ele passava a faca no pão, estava eu em um ponto equidistante de nossa família. Eu era presente, me tornaria futuro e acabaria passado, assim como será com meu pai e como foi com o pai de meu pai. Certamente, daqui a 30 anos, assim como meu pai, quererei ver meu filho experimentando a vida pela primeira vez e herdando de mim meus hábitos, meus gestos e meus gostos. De meu pai, ainda pretendo herdar algumas manias invejáveis: tornar o pouco em muito, as hábeis contas de cabeça e o conhecimento advindo da osmose a partir de nossa casa recheada de livros. Tirando isso, sou ele em muito. Falo sozinho, desminto ronco, durmo no meio do filme, odeio falar ao telefone e estou certo mesmo que se prove o contrário. Me encarando em nosso espelho, percebi, enquanto via a sua imagem ao meu lado, que estamos sempre morrendo de medo. Temos medo de não nos reconhecermos um no outro, e é por isso que cada briga tem seu suspiro de alívio. Porque os opostos se atraem, e nunca fomos opostos. Ser pai ou mãe é nunca deixar de ser filho, mas perambular em dívida pelo sentimento de incompletude e insuficiência em cumprir e se desdobrar em inúmeros papéis, ao mesmo tempo não estando em nenhum. Ainda hoje, nos esforçamos para colocar uma conversa em dia, nem sempre tão em dia. Mas nem que seja para discutir quem é melhor: Caetano ou Chico, John ou Paul, Stones ou Guns. Com o tempo eu vou me tornar seu pai, meu pai. Você vai parar de me dar broncas e eu passarei a distribuí-las. "Tens de tomar o seu remédio." "Pare de ser teimoso!" “Não tens mais 18 anos." Com o tempo eu vou te sentindo, e eu vou te sendo. Me recompondo e me descobrindo, vou tentar lembrar o dia exato em que virei o meu pai. Saulo Rocha é aluno do 2º período da FGV Direito Rio As ilustrações são da Marília Arruda, ilustradora da nossa 12ª edição

ISSN: 2447-2662
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