Criador e Criatura

#16 de Jacson Pollock, acervo no MAM-Rio Diante do anúncio de venda do único exemplar da obra de Jackson Pollock no Brasil, hoje exposto no Museu de Arte Moderna (MAM-Rio), vemos efervescer um debate não mais cultural do que político: o que esperar de instituições que, em tempos de crise, sacrificam a Arte? A decisão foi defendida pelo Ministério da Cultura e surgiu como medida autossustentável, tendo em vista o déficit de 1,5 milhões de reais enfrentado pelo museu. Se abraçada, seria a primeira vez que o Brasil estaria se desfazendo de uma obra do seu acervo para se capitalizar. Nitidamente, nesse estado das coisas, a venda da obra não diz respeito a uma questão de opinião, mas de necessidade. Sejamos objetivos e, no limite, honestos: não é mistério algum que a Arte não é devidamente valorizada, tanto no Brasil quanto pelo Brasil, se não em debates que atestam austeridade e polarização crítica. Um conservadorismo careta e míope versus um progressismo que se vende exageradamente virtuoso. Diante disso, parece interessante desvendar essa persona, esse artista tão singular que se despede das paredes museológicas para criar vida em outro espaço. Deixemos, pois, a militância de lado para tentar compreender uma das mentes mais torturadas e geniais da arte, entendendo como Jackson Pollock conciliou a abstração expressionista com a abundância significativa. Violento, irrequieto e provocativo. Bons artistas, no geral, são assim: a imagem e semelhança de suas obras. Se a “Marcha para o Oeste”, ao invés de candente movimento colonizador, propusesse na terra norte-americana a busca por horizontes ainda mais inovadores, polêmicos e expressivos nos campos da Arte, poderíamos afirmar categoricamente que Pollock emergiria como seu principal bandeirante. Nascido em 1912 na cidade de Cody, nos Estados Unidos, o artista foi precursor da sinergia entre o expressionismo na obra e o surrealismo na criação. Isso porque a vasta dimensão cromática e técnica de suas abstrações casava com a proposição da vanguarda europeia surrealista – a obra é produto final do vínculo entre criador e criatura, partindo de um fluxo único de inspiração. Dizia ele: “Quando estou no meu quadro, não tenho consciência do que estou fazendo. Só depois de uma espécie de período de ‘conhecimento’ é que vejo o que estive concebendo. ” No que se refere a Pollock, percebemos uma ambiguidade quase mitológica. O artista conseguia calcar o frenesi criativo em um estudo metódico de sua arte. Influenciado por contemporâneos já consagrados como Pablo Picasso e Miró, expoentes do surrealismo, Pollock encerrou seus tempos de ordinário apreciador para insurgir dali um ícone de grave timbre graças à vitalidade de sua técnica. Foi, tão logo, adepto e pioneiro da pintura de ação (action painting), estilo de pintura marcado pelo movimento, energia e velocidade que em grande parte gritavam a violência de suas obras. Explorou, ainda, o gotejamento e incorporou o automatismo surrealista que fazia do autor parte integrante e indissociável de suas obras. Além disso, seu exercício artístico era sobretudo físico e interativo. O pintor estendia suas telas no chão e na parede, de maneira que corria pelos lados quadrangulares, se debruçava e conduzia a pintura como bem entendia. Enquanto pintava, era a própria expressão da Arte. E por que tanto falamos em expressividade? Porque esse é traço fundador da pintura abstrata. Veja o que dizia Pollock quando questionado pelo conteúdo de suas obras: “Quero expressar meus sentimentos mais do que ilustrá-los… Eu posso controlar o fluir da tinta: não há acaso, assim como não há começo nem fim.” Desta parte, é instintivo que procuremos atribuir sentido ao que contemplamos. É uma função orgânica do cérebro e que se manifesta ainda que inconscientemente. Ao nos depararmos com o inédito, recorremos às experiências que ajudam a estabelecer laços de sentido por assimilação e, por fim, chegamos a um produto dedutivo satisfatório. No entanto, é justamente nesse ponto que repousa a questão do expressionismo abstrato: devemos dar nome ao inominável? Nem tudo precisa fazer sentido, e nem mesmo faz. Isto é, quando tratamos de pintura abstrata, é praticamente inevitável o flerte com questionamentos a esse estilo tão controverso. O que difere Pollock da menina russa de 5 anos que ficara famosa por pintar telas em seu quarto? Em grande parte, a diferença basilar é que quando estudamos uma obra expressionista abstrata, mergulhamos numa densa e profunda expressão de amargura, metodismo e inconsciência. Deixamos de lado, assim, o culto às formas e à representação encorajadas pela arte Renascentista clássica, bem como abrimos mão dos contrastes de iluminação e da diagonalidade estética Barroca. Isso, para compreender que a representação não é forma única de expressividade, mas, pelo contrário, pode ser completamente dispensável. Nesse ponto, é importante que contextualizemos não só a arte, mas também nosso subversivo artista. Uma de suas maiores e mais importantes obras, “Number 1A, oil on canvas”, hoje no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), foi pintado no pós-guerra, ano de 1948. Há cerca de três anos dessa data, a primeira bomba nuclear já projetada, Little Boy, havia sido lançada sobre o território de Hiroshima, e três dias depois, outra, Fat Man, sobre o território de Nagasaki. A atmosfera ainda era cinzenta e fez-se ambiente para que intelectuais dos quatro cantos do globo tomassem para si o dever de pensar a condição humana e espiritual da geração de 30 frente àquele cenário. Prova disso foi que a crueza daqueles tempos permeou inclusive a literatura brasileira, sendo refletida nos sonetos de Vinícius de Moraes (A Rosa de Hiroshima – 1954), na poesia de Adélia Prado (Bagagem – 1974) e nos versos de Carlos Drummond de Andrade (Sentimento do Mundo – 1940). Não havia palavras que descrevessem razoavelmente um verdadeiro sentimento do mundo naquele momento. Pollock o percebeu, e viu que não tão somente palavras eram desprezíveis, mas também representações. Perante o drama existencial enfrentado, nem mesmo a ciência artística de Da Vinci, a religiosidade e pureza da Pietá de Michelangelo, a sensualidade da Vênus de Botticelli, ou, ainda, a credulidade barroca de Caravaggio bastavam. Há uma verdade nas obras expressionistas que diz ser possível alegar subjetividade na criação, mas jamais arbitrariedade. Apesar de carecer de formas, o sentimento humano jamais será arbitrário. Saulo Rocha é aluno do 1º Período da FGV Direito Rio e membro da equipe de Edição da Revista Ágora #ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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