Crescer

Tem uns anos que não consigo me contentar muito bem com o que o dicionário define como crescer. Dizem que é sinônimo de aumentar, de progredir, mas sei não. Comecei a pensar em crescer como o ato de ressignificar. Não é nada de extraordinário, nem de transcedência espiritual, mas acho que acontece com todo mundo, e aí a gente pode dizer que é definição de algo, né? Eu digo ressignificar como passar a entender algumas coisas como outras, sem grandes floreios ou investigações acadêmicas, mas de imediato, aquilo que os nossos neurônios produzem dando de cara com algo. A ideia de felicidade, por exemplo. Quando era pequena felicidade era abrir um sorriso banguela para ver minha avó chegando para fazer visita, saber que o riso dela ia ser a trilha sonora da minha tarde, com pão de queijo, guaraná, colo dela, da minha tia, e meus irmãos todos juntos. Eu me equilibrava no sofá perto da janela da sala e mostrava toda a minha falta de dentes quando eles chegavam, e acredite, não existia Natal, Páscoa ou Disney que fizesse uma criança tão feliz. Com uns 3 ou 4 anos, eu achava que saudade era sentir falta da minha mãe quando estava na escolinha, ou de uma história de princesas, fadas, leões ou índios quando acabava o livro. Hoje, acho que saudade parece mais com quando o peito abre e eu lembro do abraço das pessoas que foram embora, e, por um segundo, parece que o mundo faz sentido de novo, porque aquela ternura invadiu meu peito em algum momento, mas em seguida preciso me dar conta que o tempo não entende como levar abraços deixa a gente só. Confesso que até uns anos mais velha, talvez 8 ou 9, monstro para mim era uma criatura horrível que morava debaixo da cama, e podia fazer quanta maldade quisesse se desligasse a luz. A sorte era que o interruptor funcionava muito bem, e sempre podia me socorrer com aquela luminosidade - ou o amanhecer mesmo. Agora é diferente: monstro para mim é o que muita gente considera Presidente, e pensar nisso é pior, não só porque agora é real e não vai embora se ligo a luz, mas porque é adorado por quem também devia sentir medo. Tem muito tempo que comecei a ouvir falar de tempo. Isso vai de “faltam 5 minutos para a escola e você não está pronta!” até ver uns cabelos brancos a mais nas pessoas, acabar inúmeras histórias, ou ter que dizer tchau mais vezes do que gostaria. O interessante é que dentro disso tudo, tem uma coisa que nunca foi ressignificada - quer dizer, talvez tenha mudado de perspectiva, mas se parar para prestar atenção, a coisa continua a mesma. É que felicidade para mim é chegar em casa depois de um dia de estudo, trabalho, decepções, música do metrô, culpa, ansiedade, calçada esburacada, rua alagada e ABNT para ver o sorriso banguela da minha avó, e ter plena certeza de que felicidade, para mim, continua a mesma coisa.

ISSN: 2447-2662
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