Corpos “certos” para espaços “adequados”: a busca de um padrão por meio de intervenções cirúrgicas

Aparentemente, nós, enquanto sociedade, ainda não aceitamos que todos os corpos são diferentes, mesmo os mais similares. O mundo está cheio de fórmulas mágicas que prometem mudanças corporais com o objetivo de encaixar corpos em padrões quase inalcançáveis. São dietas absurdamente restritivas, medicamentos que sequer foram minimamente testados, atividades físicas que facilmente levam o corpo a exaustão, técnicas de "embelezamento instantâneo", shakes, pílulas, ervas, intervenções cirúrgicas, etc., etc. e etc. Todo dia surge uma nova descoberta que promete algo diferente. Os veículos de comunicação estão constantemente reforçando estereótipos de corpos magros, corpos perfeitos, corpos com regras pré-estabelecidas. Corpos "certos" para espaços "adequados". Uma modelo de passarela magra, com medidas pequenas, dificilmente será vista num comercial de cerveja, nos quais comumente é visto uma mulher com curvas mais acentuadas, quadris largos e seios fartos, e ambas não estarão numa propaganda direcionada à família. Nesses exemplos são utilizados dois estereótipos diferentes, padronizados para fins específicos, sem que um caiba no lugar do outro. O corpo de uma mulher gorda também não ocupa esses espaços, assim como não é apropriado para muitos outros. Além da pressão feita pela mídia e veículos de comunicação impondo padrões opressores àqueles que não se encaixam neles, existe ainda a indústria da moda criando roupas que não vestem todos os corpos. Se hoje entramos numa loja de roupas, seja ela qual for, teremos que procurar uma peça que caiba no nosso corpo e não uma peça no modelo disponível a nossa escolha. Pode parecer algo óbvio, porém a ideia de que estão sendo fabricadas peças de roupas para corpos específicos nos faz perceber que não são peças para quem quer vestir, partindo do princípio que o padrão estabelecido geralmente é do corpo de uma modelo manequim 36. Uma das "fórmulas mágicas", a qual me referi anteriormente e que vem ganhando cada vez mais espaço irresponsavelmente, é a Cirurgia Bariátrica. A Cirurgia Bariátrica ou Gastroplastia é popularmente conhecida como cirurgia de redução de estômago. É um procedimento que vem crescendo exponencialmente no país. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), em 2015 aproximadamente 93,5 mil pessoas realizaram o procedimento. Dez anos antes, em 2005, foram realizadas aproximadamente 22 mil cirurgias em todo o país. É um processo intenso de mudanças corporais e comportamentais que, se não forem percebidas e compreendidas com seriedade e responsabilidade, pode levar o paciente em tratamento ao óbito. Entre as técnicas existentes, três delas são as mais usadas no Brasil. A primeira é a Banda Gástrica, onde é colocado um anel em volta do estômago para limitar o volume de alimento recebido e, a partir disso, reduzir o consumo de calorias. A segunda técnica é a Sleeve ou Gastrectomia vertical, onde o tamanho do estômago é reduzido ficando com apenas 15% do tamanho de um estômago normal e a outra parte, 85% do estômago, é retirada. A terceira técnica, entre as mais usadas, é o ByPass, em que o estômago é cortado e grampeado, ficando a parte que receberá o alimento com apenas 50ml, além de ser feito um desvio do intestino direto para o novo estômago, a fim de evitar que o organismo absorva uma quantidade maior de gordura. Ainda, a outra parte do estômago permanece intacta, oferecendo a possibilidade de reversão da cirurgia. Atualmente a maioria das cirurgias são realizadas por videolaparoscopia [1], independente da técnica, que diminui o risco em 60%. Mesmo com a redução do risco que vem acontecendo paralelo a descoberta de novas técnicas e tecnologias, ainda é uma cirurgia que apresenta inúmeros outros riscos que vão para além da mesa cirúrgica e que estão em seu desenvolvimento. Existem pré-requisitos que devem ser respeitados, mas não são obrigatórios por não ser determinado por parte do órgão regulador, a Agência Nacional de Saúde (ANS). Para realizar o procedimento, o paciente precisa ter o Índice de Massa Corpórea [2] (IMC) acima de 40 ou acima de 35, com a presença de comorbidades [3]. É preciso estar minimamente apto fisicamente para passar por um procedimento cirúrgico, o que exige exames e acompanhamento, assim como o parecer/laudo de todos os profissionais da equipe multidisciplinar das especialidades de Endocrinologia, Gastroplastia, Cardiologia, Psicologia, Nutrição e da Cirurgia Geral. Geralmente, dependendo do formato da equipe médica, é exigido do paciente que participe de um programa, reuniões ou palestras com esses profissionais. O formato vai mudar de acordo com cada equipe. A cirurgia custa em média R$40 mil e está segurada pelos planos de saúde com cobertura hospitalar, como determinação da ANS, com exceção das despesas com anestesista. Periodicamente a SBCBM divulga dados e pesquisas sobre a cirurgia e o que envolve a área, mas o índice que não aparece, talvez por ser muito pequeno, é o de pessoas que não estão dentro do quadro de pré-requisitos e conseguem operar; ou o número de pessoas que buscam a intervenção e, ao perceberem que não possuem os requisitos, começam a engordar para entrar no quadro. Embora haja divulgação midiática dos casos de sucesso, não acontece o mesmo com os casos em que existiram complicações, sejam simples ou graves. Isso acaba reforçando a ideia de fórmula mágica, que vai encaixar um indivíduo num padrão “certo”. O processo que envolve todo o procedimento cirúrgico se divide em três etapas. A primeira é a avaliação da busca pela intervenção e só com o aval dos profissionais de cardiologia, endocrinologia, nutrição, psicologia, anestesia, cirurgia geral e o resultado de exames muito específicos é possível passar para a próxima etapa. Mesmo nessa fase inicial não há por parte desses profissionais uma análise biopsicossocial e a investigação de como o indivíduo se percebe ou percebe seu corpo. Todos os exames e avaliações não passam de investigação de patologias. A única informação que vai importar nesse processo inicial é se há ou não alguma patologia presente. O indivíduo não é tratado como parte de uma sociedade que influencia e é influenciado pelo meio; não são consideradas suas rotinas e hábitos. É imposta uma mudança. O indivíduo é tratado apenas como um conjunto de informações e códigos que darão acesso a próxima etapa. Como segunda etapa, destaco o pré-operatório, quando é compreendido pela equipe de profissionais que o tratamento efetivamente começou. No pré-operatório é necessário que haja o acompanhamento da nutrição, psicologia e endocrinologia. O objetivo é avaliar se o indivíduo consegue se preparar para as mudanças que virão. Geralmente dura três meses essa avaliação, mas pode ser realizada em menos tempo e esse tempo será flexível de acordo com cada equipe, podendo durar de quinze dias a um ano o acompanhamento. Se parece complicado avaliar a relação de uma pessoa com sua auto-imagem, alimentação e medicação em três meses, em quinze dias parece impossível. O profissional de nutrição precisa acompanhar a alimentação do indivíduo, sua relação com a alimentação, suas escolhas e orientar para o processo que se iniciará. Enquanto o profissional de psicologia precisa trabalhar questões emocionais que envolvem a auto-imagem, assim como a alimentação e a percepção do que de fato é passar por essa intervenção. Uma completa mudança na vida. É comum, por exemplo, após todo o tratamento, que o paladar, as percepções e as preferências mudem, já que a cirurgia é metabólica e influencia na questão hormonal também. A “última etapa” é o pós-operatório. Feita a cirurgia começam as dietas extremamente restritivas, em que o indivíduo passará dias se alimentando só de líquidos, depois um líquido mais grosso, passando para um mais pastoso, até que chega nas refeições sem a necessidade de bater o alimento no liquidificador. O pós-operatório pode durar de seis meses a dois anos, havendo ou não alguma complicação. Se houver alguma complicação grave o tratamento de pós-operatório pode durar uma vida inteira ou custar a vida do indivíduo/paciente. Mesmo após todo o processo, nos “casos de sucesso”, comumente há a insatisfação por parte do paciente que após essa intervenção começa a correr atrás de outras cirurgias, como correções e plásticas. As cirurgias reparadoras podem ser essenciais se houver a sobra de pele, por exemplo, mas mesmo quando não há, o paciente continua buscando outros tipos de intervenções. Isso ocorre pelo fato de estar buscando atingir um padrão (que não existe) próximo ao das capas de revistas carregadas de edição de imagens. Não somos mais como nossos ancestrais que precisam consumir muita proteína e gordura para sobreviver em períodos de frio e de caça escassa. Também não estamos mais na Idade Média, onde o corpo com muitas curvas era sinônimo de nobreza e beleza. Ressignificamos a compreensão das curvas no corpo. Temos uma vida com cada vez menos movimento, cada vez com mais comodidade, cada vez em espaços menores, gastamos cada vez menos energia. Não temos um organismo “primitivo” como o dos animais, que queima toda a gordura que consome. Somos a espécie que cria padrões que não existem e fórmulas mágicas para correr atrás do impossível, mas com esperança. Temos uma medicina que não foi elaborada por Pitágoras, mas nos compreende apenas como números, taxas e níveis. Somos um apunhado de possíveis patologias e fatores patologizantes. E com uma medicina que praticamente desconsidera a subjetividade individual e coletiva. [1] Procedimento de endoscopia no qual se visualiza a cavidade abdominal por meio de uma videocâmara, podendo também nela realizar intervenção cirúrgica por incisão no abdômen ou via oral. [2] Unidade de medida utilizada para medir a obesidade adotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). É o padrão internacional para avaliar o grau de obesidade. Existem extensas discussões sobre o uso do IMC para determinar a obesidade, pois entende-se como massa nessa medida tanto gordura quanto músculos e desconsidera o formato dos corpos. [3] O IMC acima de 35 caracteriza obesidade grau II, sendo a obesidade uma comorbidade e é preciso mais duas para a elegibilidade, como esteatose, diabetes, hipertensão, etc.

ISSN: 2447-2662
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