Carta para Dora

Dora, Escrevo porque o dia hoje me pediu encarecidamente. Minha cabeça soltou todos meus pensamentos de uma vez só e por aqui não tenho, ainda, alguém com quem falar besteiras sem preocupações bobas como estou sendo compreendida? pareço irracional dizendo isso? e coisa e tal Ando com preguiça de alcançar as pessoas. Ponho a culpa de tudo no frio, mas isso é por conta da mania tropical de reclamar. Não se preocupe, já estou tomando multivitaminas. Vai passar. De volta ao que vim lhe dizer Já te disse que gosto de olhar nos olhos das pessoas enquanto converso? Acho graça em quem se sente nu quando têm os olhos invadidos. Penso que o mundo poderia ser dividido em quem desvia o olhar e quem o sustenta, mas Dora, hoje o mundo me puxou o tapete. É difícil à beça olhar dentro de olhos que não te enxergam de volta. O dia começou como todos os outros dias importantes começam: igual a qualquer outro. Não me deu pistas pela manhã. À tarde até mesmo tirei um cochilo. Quando vi era noite e eu já estava no chão da recepção, discando o número da emergência. Alguns dos momentos mais cruciais na vida são elementos surpresa. Eles não nos concedem tempo de preparo ou custeiam cortesias. Antes de a cabeça cair solta sob os ombros o homem chamou pela mãe. Parece mesmo o tipo de orientação que uma mãe daria - if you feel sick go into the first place you see and tell someone to call 999. Sabe bem que não sou mãe de ninguém ainda, mas pensei que, se fosse, gostaria que meu filho tivesse quem lhe desse a mão, caso terminasse em uma recepção qualquer. É difícil segurar mãos que não te seguram de volta, mas penso que mais difícil ainda seria soltá-las e ter que viver com isso pro resto da vida. Então segurei o mais forte que pude. Homens adoecidos no Reino Unido andam por aí com muralhas erguidas no seu entorno. Meninas como nós andam por aí com muralhas erguidas no seu entorno. No chão da recepção, todo mundo só quer a mãe e a promessa de que não importa o que aconteça, alguém vai estar lá por ti. A vulnerabilidade segue sendo o mais alto grau de honestidade da natureza humana. Penso assim e o pensamento sempre me traz lágrimas aos olhos. A morte é certamente chocante, mas ela é só um momento da vulnerabilidade. Não é inteligente confundir os dois. 'please don’t hurt me please don’t hurt me please don’t hurt me' o homem repetiu três vezes. É um homem bom, esse que estamos salvando — educado até quando implora pelo seu direito. Em algum ponto na História de quem somos, nossa obrigação para com os outros virou um favor. Isso me entristece profundamente. Ouvi o pranto de muita gente nas 4 palavras. No chão de qualquer recepção, quando o mundo para e todo o resto perde a importância, ficam só os nossos desejos mais profundos: please don’t hurt me. Meus próprios pensamentos abrem um parênteses e revisitam o Marcos um ano antes. Me custa pensar que meses e muitos passaram por ele, todo tempo em frente a uma escola de Medicina, e não houve quem tivesse a dignidade de oferecer ao seu problema um pouco de atenção. É de uma ironia perversa a ordem e geografia dos fatos. 'I'm so so sorry' Dora, senti pena em lugares em mim que não acendiam há muito tempo. Onde já se viu pedir desculpas por morrer, ainda que de forma espalhafatosa. Não sei como dizer isso pro homem até porque acho que já não me ouve mais. É difícil aliviar o terror de quem teme perigos reais. Sei que ele deve ter passado por um bocado de coisas ruins antes de chegar ali, naquele momento, pois é preciso pensar muito pouco de si mesmo para olhar pra própria morte e ver apenas uma inconveniência. Do contrário não digo nada. Quero oferecer a ele mais do que pena e compressões. Deveríamos oferecer uns aos outros mais do que pena e compressões, antes que o tempo acabe. O tempo acaba mais depressa do que pensamos. Costumava pensar que dos olhos só se podia falar do desconforto de serem caçados por outro par. Ninguém escreve sobre olhos que param de enxergar de repente. Vidrados. Eu nunca li sobre olhos que parecem espelhos. Nada disso está nos livros. É comum pensar que os corpos no Anatômico ajudam os estudantes de Medicina a se desfazer do deslumbre leigo que se tem pela morte; mas não. São corpos dissecados, um tanto diferentes dos nossos e, portanto, estão aquém da nossa empatia. não carregam humanidade tal como carrega um corpo que em um segundo está ocupado, chamando pela mãe, e no outro não mais. Dora, hoje rezei para Deus em todas as suas formas. Quando chegaram os paramédicos com desfibriladores e a maca, o homem na recepção foi levado. No chão ficou escrito: Andamos dando muito valor às desimportâncias. Deixando o amor implícito mesmo quando é possível dizê-lo em voz alta. Passando uns pelos outros com pressa demais. E nos falta gentileza que somos capazes de oferecer, com só um pouco mais de esforço. Chris está no hospital. Hoje felizmente não foi seu último dia. Não o salvei. Foi ele quem me salvou. Em Leeds, o tempo médio entre o telefonema e a chegada da ambulância é de apenas 4 minutos. Acordado, os socorristas perguntaram a ele qual era a última coisa de que se lembrava, ao que respondeu 'gentle people helping me' É tudo que fica, no final das contas. com amor e muita saudade, Manda. Amanda Milani é estudante de medicina na Itália Ilustrações de Marília Arruda

ISSN: 2447-2662
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