Biblioteca Agiota

Certa noite, em minha cama, pus-me a refletir sobre quanto eu estou devendo à Biblioteca da minha Faculdade. Não sou o aluno mais exemplar em se tratando de prazos bibliotecários. Quando digo isso, ainda estou sendo bastante generoso comigo. Nos tempos da escola fui obrigado a desenvolver técnicas para atenuar as violentas multas de cinquenta centavos por dia. Com nove anos eu já sustentava aquela biblioteca. A dívida pública brasileira não existe perto daquela. Era pura amortização de juros. Lembro que chegou ao ponto de sacrificar o lanche da cantina para pagar os famigerados bibliotecários. Com nove anos eu já havia pensado na auditoria cidadã. Independente de eu ter uma jovem alma de esquerda ou não, fato é que a passagem de Karl Marx se aplica nesse exato momento: “A história sempre se repete”. Cá estou, pensando na minha nova dívida com a biblioteca da Fundação Getúlio Vargas. Acho que já ultrapassam os três dígitos. Um calote poderia ser uma opção. Poderia, de fato, se não existisse um tão pequeno detalhe que é quase imperceptível: não existe a possibilidade de se passar mais de uma semana sem entrar na biblioteca, ou, para os íntimos, Ritalina. Confesso que, como trauma de infância, não consigo olhar para um bibliotecário sem sentir calafrios. Quantos recreios o pobre Bernardo não passou sem comer suas guloseimas por conta de dívidas bibliotecárias? Isso porque não entrei no mérito do preço. Um real por dia? Se formos imaginar que a média do preço dos livros da biblioteca é de cem reais, seriam juros simples de 1% ao dia. Nenhuma ação ou fundo de investimento tem um retorno tão expressivo e seguro. São 365% ao ano. Custo benefício melhor que o bitcoin. Os juros são quase iguais aos do cartão de crédito. Daí eu reflito: São pessoas ameaçadoras, cuja presença já me põe em situação de perigo; são pessoas que cobram juros abusivos, obrigando a pobre criança a deixar de comer – ou imprimir – para amortizar os juros; são pessoas que são detentoras da Meca dos Estudos. São agiotas. Logo vão me cobrar. Primeiro eles enviam e-mails. Será que a minha cama é um bem impenhorável? Melhor voltar a dormir. Bernardo Rubião é aluno da FGV Direito Rio A ilustração deste texto foi feita pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista

ISSN: 2447-2662
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