Aplausos à Indiferença

A série Black Mirror, criada por Charlie Brooker, foi lançada em 2011 no Reino Unido. Após ser transmitida via streaming pela Netflix, tornou-se mundialmente conhecida e causou um grande impacto nos espectadores. A fama se dá pela ficção distópica retratada em cada episódio, que tem o objetivo de levar o público a refletir sobre as consequências de um uso cada vez mais exagerado de objetos tecnológicos. Apesar de usualmente se referir ao futuro, a distopia tangencia o presente e revela críticas sobre os tempos atuais. Em geral, a série critica a espetacularização da vida existente na nossa sociedade, em que tudo, independentemente do conteúdo, precisa ser mostrado e assistido. Especificamente no episódio “White Bear”, trata-se da punição como espetáculo: ver alguém sofrer é meramente uma forma de entretenimento. Por um lado, em se tratando da sociedade como um todo, o ponto é que a tecnologia apenas aprofundou a superficialidade das relações humanas. Já no século XX, o sociólogo George Simmel dissertava sobre a indiferença humana, denominando-a "Efeito Blasé". O indivíduo prefere ignorar ao invés de se envolver emocionalmente. Dessa forma, a apatia em relação ao outro já estava presente nas relações interpessoais. Por isso, a evolução da internet não é causa da frieza humana, como sugere a série, mas sim um meio de potencializá-la. Por outro lado, no que se refere à realidade brasileira, o episódio nos lembra muito o discurso crescente no país de "bandido bom é bandido morto". Acredito que além de Black Mirror evidenciar a intensificação da insensibilidade decorrente da revolução tecnológica, em "White Bear" vemos também aplausos à desumanização. O enredo ultrapassa a impassibilidade humana, uma vez que não é apenas uma questão de não demonstrar sentimentos, pois há a sensação de prazer ao não se importar. A diversão em ver a dor do outro é simplesmente a comprovação de que a nossa doente sociedade, paradoxalmente, sente o prazer de não sentir. Assim, a série revela uma crítica profunda. No entanto, se estamos tão apáticos, por que iríamos usufruir de tal crítica a fim de tentarmos mudar? O público que é criticado gosta de assistir a crítica – até ela foi submetida à espetacularização. Mas, quando o episódio acaba e a tela dos computadores ou celulares fica preta novamente, a vida segue e continuamos a perpetuar os defeitos que nós mesmos constatamos ser graves para a coletividade. Catarina Messenberg é aluna do 3º período da FGV Direito Rio. A ilustração deste texto foi feita pelo Amauri (@amaurietc), ilustrador da Edição 11 da Revista

ISSN: 2447-2662
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