A morte em tempos de pandemia

A morte deveria, em tese, ser tão normal e, de certo modo, aceitável quanto a vida para o homem (até porque se há vida, haverá, necessariamente, a morte no futuro). Ser humano, aliás, que se diz racional, em detrimento de emocional, quando em relação aos outros animais. Porém, durante a maior parte de sua existência, como no Egito Antigo, por exemplo, a humanidade criou jeitos de encarar a morte que não sejam, talvez, a mais real, ou talvez mesmo correta, criando essas crenças para seu próprio contentamento com o fim da vida. Com isso, em tempos de flagelos, tanto biológicos como sociais (como guerras), as tentativas de fugas dessa entidade aumentam, devido a sua proximidade com a vida e a realidade, pois se torna, certamente, desesperador para muitos. O filósofo existencialista Albert Camus, em seus inúmeros livros e ensaios, se refere à morte tão calma e normalmente quanto à vida, fato que torna suas leituras, para muitos, até “desconfortável”, de certa maneira. O absurdismo, corrente existencialista defendida pelo filósofo, afirma que a busca por sentido da vida pelo ser humano é impossível, pois mesmo que esse sentido exista, não é factível que será encontrada, e isso é demonstrado em diversas de suas obras, como logo no começo do livro “O Estrangeiro”, ou em sua aclamada obra “A Peste”. Por exemplo, em uma de suas famosas frases, ele diz que “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual números de pestes e guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram as pessoas igualmente desprevenidas”. Há uma explicação bem razoável para isso: As pessoas não acreditam, ou não querem pensar que o fim da vida chegará a eles, e preferem recorrer a outros meios de auto enganação para se sentirem bem, ou, no mínimo, sãos, o próprio absurdo, por parte de Camus por exemplo, é uma maneira de tentar entender a morte, ou pelo menos aceitá-la. Por outro lado, há as outras maneiras, já citadas, de escapar, pelo menos psicologicamente, da morte: as crenças, religiões. Essas maneiras são também chamadas de “suicídio filosófico” pelo filósofo Albert Camus. No Brasil, antes da chegada dos portugueses, cada tribo tinha sua própria cultura e religião, porém, com a descoberta do país, chegou o cristianismo, que domina até a modernidade, compartilhando espaço com várias outras crenças nos dias de hoje. E são em momentos de crise, como pandemias, que elas se fortalecem, pois uma de suas principais crenças, a de que a morte não existe, permite que as pessoas fiquem minimamente relaxadas sobre esse assunto, visto que o fim da vida está mais perto do homem do que nunca. Com isso dito, percebe-se que o acontecimento tão natural quanto a própria vida, é ainda um tabu, ou, em maior escala, um desespero, para a humanidade, e que o homem busca, constantemente, fugir dele. De fato, não há um jeito certo ou errado de lidar, cada um escolhe no que acreditar, para que consiga viver, pelo menos, sem um medo constante. Pois, quando analisados profundamente, nota-se que não há diferença entre a crença do absurdo da vida e a vida eterna, propagada pelas religiões, nenhuma das duas são sequer empiricamente provadas, e servem como tentativa para uma melhor relação com a morte. Por isso, as pessoas devem aceitar o óbito como ele é, de fato: o fim de um ciclo, sem tentar adivinhar se esse ciclo era o primeiro, o último ou o único, e as pandemias acontecem, de tempos em tempos, para nos lembrar constantemente disso.

ISSN: 2447-2662
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