A luta dos desalienados

O tempo que passou na Europa trouxera novos ares para a vida de Dr Simão Bacamarte: ao passo que o homem inspirava demasiado conhecimento sobre psiquiatria e entendimento da mente humana, oxigenava ideias “inovadoras” para resolver os problemas de distúrbios psiquiátricos que ocorriam em sua terra natal – o Brasil. À luz de constatações duvidosas, que naquele tempo os estudiosos europeus elaboravam a respeito dos possíveis tratamentos para “loucos”, o Alienista de Machado de Assis construíra um manicômio em sua cidade: uma grande casa verde capaz de abrigar e tratar todos aqueles que pela loucura estavam acometidos. Não por acaso, a arte do célebre escritor estava imitando a vida que no Brasil acontecia. Isso porque, ao fim do século XIX – mesmo tempo em que a obra machadiana ganhou vida – se iniciou no Brasil a implantação de hospitais destinados ao “tratamento” de pessoas que sofriam com transtornos psíquicos: casas grandiosas, com capacidade de receber os que da “loucura” sofriam, e carregadas da promessa de que tinham a solução para o possível perigo que tais doentes ofereciam à sociedade. Esses hospitais – ou hospícios, como ficaram conhecidos -, para muito além do que o livro nos conta, traziam em sua essência a extrema falta de sensibilidade e a crueldade desmedida em relação a vida dos que pretendiam “tratar”. Distante de qualquer coisa que podemos qualificar como digna, o tratamento dado às pessoas internadas incluía diversos tipos de agressões físicas, humilhações e até tratamento de choque. Isso tudo além, é claro, do absurdo em que consiste o completo isolamento dos doentes que, por si só, já viola uma série dos direitos fundamentais da pessoa humana. Fazendo um paralelo com a realidade que conhecemos, seria como se pessoas que lidam com crises de pânico ou depressão fossem afastadas da vida em sociedade para viver em hospitais, distanciadas de tudo que lhes aspira vontade de viver, sob tratamento insensível e cruel – dado que muito se sabe sobre a negligência dos manicômios com relação a higiene pessoal e até alimentação dos pacientes –, vítimas da forma equivocada como o mundo interpreta suas doenças e as possibilidades de trata-las. Equivocada pois, assim como Machado nos mostra que o próprio psiquiatra se deu conta de que seu entendimento de “loucura” estava errado – ainda que diante de todos os estudos que fizera -, a vida real evidencia tamanho perigo de se caracterizar uma pessoa como “louca” e, portanto, passível de reclusão. Nos tempos passados, como nos de hoje, os gritos pela necessidade de respeito a liberdade de Ser e ao direito de tratamento digno e livre de tortura ecoaram pelas vozes daqueles que viam nas instituições manicomiais uma afronta aos direitos humanos. Assim, em meados dos anos 80, um movimento em prol da humanização dos tratamentos às doenças psíquicas abriu espaço para a discussão sobre a importância de diagnósticos melhor fundamentados e deu vida ao início da Luta Antimanicomial no Brasil. Desde então, atentando cada vez mais para a relevância dessa luta na sociedade, a realidade brasileira progrediu em diversos aspectos: a legislação se renovou, reconhecendo que pessoas acometidas por transtornos mentais não devem ter seus direitos fundamentais violados, e os profissionais da área da saúde passaram a se engajar no desenvolvimento de tratamentos alternativos que respeitem aqueles direitos – em contraste abismal com o que foi empregado por Dr Bacamarte e seus semelhantes da vida real. No entanto, ainda que a historia e seus fatos concretos elucidem tanto do que foram as crueldades sofridas nos manicômios, o movimento antimanicomial se faz necessário até os dias de hoje, tendo inclusive o dia 18 de maio como marco oficial de sua luta contra os que ainda acreditam em tão descabido meio como uma possível solução. No fim das contas, ainda é preciso que façamos vívida a áurea que nos afasta daquele “alienismo” cruel para que Machado já nos atentava em sua distopia.

ISSN: 2447-2662
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