A Dor Desejada

Eu amo as ondas, Que afogam os desesperados E afundam as pequenas canoas. Eu amo o vento, Que varre a face da terra E o telhado das casas de madeira. Eu amo a chuva, Que transforma em rios as ruas E apaga a luz de meu quarto. Eu amo os tiros, Que atravessam o corpo despreparado, Nas horas quietas da noite. Eu amo as lágrimas, Escorrendo no macio da face, Transbordando as dores da alma. Eu amo a guerra, Que lava de sangue o corpo da terra E preenche de raiva o vazio humano. Eu amo o medo, Que trava os passos na madrugada E gera a gagueira dos apaixonados. Mas, Acima de tudo, Amo estes teus olhos. Essa inconstante loucura, Irrequieta, Que fragmenta a saudade. Essa pontada de angústia, Que reparte a despedida, Para que ela doa mais. Como pequenos cacos de vidro, Cravados no cerne da existência, De um antigo vaso que se quebrou. Como todos esses sofrimentos, Que apenas existem porque sentimos. Que apenas sentimos, Porque amamos sentir. João Pedro Vasconcellos é aluno da FGV Direito Rio As ilustrações deste poema foram feitas pela Isabella Aparício (@isabellaaparicio), ilustradora da Edição 10 da Revista #ed10

ISSN: 2447-2662
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