A arte de fazer ver

A Queermuseu invadiu o Rio de Janeiro. Apesar de calada em Porto Alegre, por ter sido suspensa antes do tempo previsto, a exposição voltou. Mais questionadora, mais polêmica, mais queer, vem acompanhada do subtítulo mais do que adequado: "Cartografias da Diferença na Arte Brasileira". A exposição rompe paradigmas há muito tempo. Além de instigar debates sobre o que é arte e o que o deixa de ser, abre espaço para artistas manifestarem pautas frequentemente marginalizadas e invisibilizadas. Daí a importância de, mesmo com toda a censura realizada previamente, no Santander Cultural, a mostra voltar e retratar questões de gênero, de diversidade cultural e de lutas raciais. As obras são extremamente intensas. Não há nada que não estimule reflexões sedentas por espaço no debate artístico brasileiro. Nossa arte é elitizada. Desde o acesso à matéria prima até o networking necessário para expor em reconhecidas galerias, passando, inevitavelmente, pelo conteúdo das obras produzidas, tudo isso é ditado pelas posições sociais dos sujeitos e dos objetos da arte brasileira - seja pelo recorte de classe, de raça, de gênero ou de qualquer outro marcador social. O protagonismo está longe das margens. Esse é um dos tantos sentidos da insubordinação do Queermuseu. "Amnésia" é uma das esculturas da exposição. Feita em bronze pelo artista Flávio Cerqueira, mostra um menino negro despejando uma lata de tinta branca na cabeça. A cena, combinada com o título, grita para que o espectador enxergue as diversas tentativas de embranquecer a população negra brasileira, esquecendo sua cultura e ocultando sua memória. Este é só um exemplo. Os artistas brincam com ícones da cultura pop, com símbolos religiosos e com mensagens subversivas, recebidas com espanto e incômodo, porém sempre tão necessárias. A exposição afirma seu compromisso com a liberdade de expressão e com trazer a missão de democratizar a arte para seu centro de produção e apreciação. Contra todas as expectativas, no Rio ela sobreviveu. Em Porto Alegre, em 2017, sofreu uma censura privada, foi encerrada antes de florescer por pressão de movimentos particulares de indignação com o que não é trivial ou comum. Mais uma vez, as elites se apropriaram do discurso do que era arte para manterem seus próprios pontos de vista como os predominantes, os retratados e os dominantes no cenário artístico. É preciso quebrar com esse ciclo e incomodar. É preciso tornar pinceladas, fotografias, colagens e esculturas veículos efetivos de transmissão de mensagens sobre inclusão, respeito e resistência. Assim, é impossível falar do retorno do Queermuseu sem falar do lugar que a abrigou nesse período. A Escola de Artes Visuais do Parque Lage, fundada em 1975 (portanto ainda durante o regime militar) por Rubens Gerchman, afirma em seu texto introdutório: foi outrora chamada de "espaço de resistência, espaço de emergência ou jardim da oposição". Durante anos, a instituição se fez aliada das lutas raciais, LGBTI+, periféricas e feministas com rodas de conversas, cursos e exposições. Não havia lugar melhor para o Queermuseu. Hoje, a exposição é encerrada no Rio, mas eu espero que as discussões que ensejou continuem aqui e migrem, se expandam e cresçam. Que cada queer do mundo se enxergue representado nas obras e no corpo de artistas contribuintes. Que eles saibam que vale a pena contar as suas próprias histórias e que eles podem ser donos de suas narrativas. Que o Queermuseu continue incomodando conservadores, mas inspirando e ressurgindo as margens. Beatriz Vergette é aluna do 4º Período da FGV Direito Rio #ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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