É tempo de desmitificar tradições inventadas!

É preciso ressignificar termos racistas no vocábulo brasileiro. É necessário ressignificar termos racistas no vocábulo brasileiro! É urgente! Muito se é dito sobre expressões e ditados populares, como se fossem a priori de tudo, frases famosas e canonizados, quase que consagradas ad eternum como tradição. Quem nunca ouviu "desde que o mundo é mundo, isso é assim"? Mas, afinal, de que mundo estamos falando? E quem decidiu que esse mundo fosse assim? Foucault cunhou a noção de que não há natureza nos objetos culturais e intelectuais, o que significa que fenômenos culturais passaram a ser entendidos como resultado de um processo de construção ao invés de detentores de conceitos de facto e origem. A vida social moderna, nesse sentido, traz consigo diversas pseudo-crenças simbólicas, nas quais uma delas acabou sendo a devoção às tradições inventadas. "Tradição inventada" que, para Eric Hobsbawm, se trata de um conceito que abarca reações e situações novas, sendo possível assumir e formar referência a situações anteriores, ou estabelecer seu próprio passado através da repetição. Então inventar tradições, criar rituais e regras que acabam por traçar uma continuidade, enfatiza a canonização através e pelo dispositivo tempo. O ponto que, aqui, consideramos central está na manutenção destas tradições inventadas, na predominância de um modelo político-social, além de um determinado sistema estrutural e estruturante que se reflete, inclusive, na linguagem popular. A linguagem é, sobretudo, um sistema de poder! Tudo é linguagem e quem ou qual grupo a detém, de forma sistematizada bem como organizada, detém o poder. É preciso, necessário e urgente descolonizar e decolonizar o pensamento social brasileiro - assim como nossas expressões coloquiais, nosso vocabulário - imbuído de tradições inventadas e expressões, que são como são "desde que o mundo é mundo". A linguagem pode criar e recriar aspectos que contribuem para a manutenção do modelo que se estabeleceu no Brasil República: uma sociedade pseudo-moderna forjada e sustentada na mão de obra escrava. Econômica, política e socialmente construída sob dominação, bem como, subalternização de corpos pretos. Uma vez que as mesmas expressões sociais relacionadas ao Branco são positivas e ao Negro são ditas negativas, fica clara a forma como as engrenagens deste sistema funcionam para controle destes corpos pretos - atuando sobre o imaginário social, interna e externamente. O maior mecanismo de controle está no pensamento, o que nos leva a necessidade de descolonizar o pensamento e assim decolonizar as formas de conhecimento, a começar pela ressignificação de expressões racistas populares. Expressões como: inveja branca, cor do pecado, mercado negro, lista negra, mulata, denegrir, a coisa tá ficando preta, ovelha negra e outras, são expressões pejorativas que ratificam a positividade atribuída ao branco e a negatividade ao negro. Orientando a articulação, tal qual a movimentação do povo preto de retomada e luta, o Coletivo Ovelha Negra da FGV, busca ressignificar essa expressão que foi outrora fundamentada no imaginário social brasileiro racista e suas distinções a partir de uma perspectiva negativa. Assim faremos para que nos seja disponível usar 'negra' em reverência à negritude, à cultura negra, à ancestralidade e todos os sinônimos coerentes com a etnicidade do nosso povo! O certo é mercado ILEGAL; lista do ódio; denegrir é bom, porque tornar-se negro é libertar-se; ser a ovelha negra é equivalente a se libertar; e se a coisa tá ficando preta, é porque tá ficando maravilhoso!

ISSN: 2447-2662
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