É preciso um país inteiro para construir as boas memórias de uma criança

Enquanto estou de frente para o computador escrevendo esse artigo, tento me libertar da ideia, que eu mesma ou alguém botou em mim, de que o que tenho a dizer não é importante. Tento não me culpar por não ser capaz de me livrar dela, tem todo um sistema sendo operado desde a minha infância para calar grupos minoritários, e eu ganhei na loteria de fazer parte de vários deles enquanto espero que as futuras gerações de garotas como eu não precisem se agarrar a uma corda fininha de crença em sua capacidade. Parte dessa dificuldade de escrever, se expressar ou acreditar no valor da minha opinião é fruto de sementes plantadas entre a minha infância e pré-adolescência. Hoje, enquanto jovem adulta e tia de duas crianças, parte da minha responsabilidade com as crianças que convivo é ter cuidado com as coisas que digo e quais memórias de infância estou ajudando a criar. Tenho pensado nisso com mais frequência desde que terminei de assistir a terceira temporada de “This is us” (“Estes somos nós”, em tradução livre). A série estadunidense é um drama familiar que narra a vida de três irmãos começando com eles aos trinta e seis anos ao mesmo tempo que vai e volta no passado, e no futuro, traçando paralelos entre os acontecimentos que os afligem no mundo atual e os que permearam suas vidas há dez, vinte, trinta anos atrás. É nítido como alguns episódios tentam trazer do passado as justificativas do presente, frases que foram ouvidas ao que parece um milhão de anos atrás não foram esquecidas décadas de anos depois, e sobreviveram a rigorosa curadoria das memórias que nossa mente limitada é capaz de guardar. Tudo que a Kate, personagem principal, ouviu sobre seu corpo durante a infância foi guardado dia após dia e os comentários gordofóbicos sobreviveram a ação do tempo. E esse é só um dos exemplos que consigo lembrar e que direciona a maior parte das atitudes futuras da personagem. No entanto, de muito pouco serve que eu me preocupe em construir memórias saudáveis com as crianças a minha volta, se a outra grande parcela de adultos com as quais eles convivem direta ou indiretamente não se importam com isso. Crianças não são responsabilidade somente de seus pais ou responsáveis. Em algum nível, todos somos responsáveis por elas, não existe isso de que “Quem pariu Mateus que balance” quando o futuro do mundo também depende de como foi criada uma geração inteira. Sabe aquele seu comentário inofensivo sobre a aparência de uma criança? Parabéns! Talvez você tenha criado, e não saiba, um pequeno evento que a memória dela vai fazer questão de carregar “para sempre”. A mídia, a moda e tudo o mais que é produzido e reforça estereótipos. As decisões políticas que acentuam as desigualdades tomadas por centenas de pessoas, governantes, deputados, prefeitos que foram eleitos pelos adultos. O descaso com um um vírus que mata, desemprega, gera fome. Um abuso sexual que fica conhecido no país inteiro e mostra que a gente que é adulto tem feito pouco caso da vida de um monte de crianças que já estão aqui. Tudo isso produz uma consequência, uma memória que às vezes gruda igual chiclete na cabeça, que mostra que é preciso um país inteiro não só para construir boas lembranças de infância, mas qualidade de vida para se viver hoje.

ISSN: 2447-2662
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