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Eu Me Acostumei

Texto: Lívia Muniz. Era como se eu tivesse pulado de bungee jumping em quem achei que você fosse e agora a corda me puxasse com toda força do mundo de volta pra realidade. Eu via claramente a diferença entre você e por quem eu tinha me apaixonado. Sua versão boazinha não me enganava mais. E naquele mesmo momento, eu percebi a diferença entre todas as pessoas pra quem eu já tinha entregue meu coração e quem de fato tinha o recebido. Eu que sempre culpei a vida por todas as minhas derrotas, enxerguei pela primeira vez a culpada mesmo, era eu. Eu que esperava pouco Recebia pouco E me contentava com pouco Eu me acostumei. Criei um padrão e entrei em um ciclo completamente vicioso que tomou conta das minhas escolhas, dos meus amores e dos meus limites. Eu me limitei a esperar por pouco E querer pouco. E culpei o destino por isso. Mas boa parte dos meus desastres foram causados por mim. Mas assim como eles, essa luz no fim do túnel também foi minha. Exclusivamente minha. E bom, mesmo depois de tanta dor, eu não me arrependo de te ter tido como parte minha e da minha vida, mas tampouco agradeço por isso.

Solidão pandêmica

Texto: Júlia Mendonça. Oito meses. Oito meses desde que a solidão começou, desde que o mundo acabou, desde meu último dia. Oito meses. Oito meses desde o último encontro, o último abraço, o começo. Oito meses. Não são oito dias, nem oito semanas, mas felizmente também não são oito anos ou oito décadas. Oito meses que passaram tão rápido como o vento que leva as folhas caídas. Oito meses que eu dormi e somente agora, acordei. Oito meses desde meu último incrível mês. A calmaria antes da turbulência. Não foi fácil. Acumulo mensagens não lidas, 145 conversas, para ser mais exata. Acumulo ligações, conversas, novidades e histórias. Acumulo oito meses de uma vida perdida, em branco. Oito meses na cama, com o microfone desligado e a câmera ausente. Oito meses encarando o teto branco, respirando fundo, e pensando. Estou viva. Tenho que sobreviver. Oito meses dormindo, hibernando, com minha alma longe de mim e longe de meu próprio corpo. Oito meses. Estive ausente por oito meses. Não me lembro do que aprendi, das conversas que tive, do que fiz. Lembro-me de estar em modo automático, existindo e lutando contra mim mesma. Lembro de ligar a televisão, todas as noites, e ver os números crescendo. Lembro da negligência de meus líderes. Lembro de minha solidão, do desespero, da ausência. Lembro de ir além do que o pedido, e de isolar não só a mim, mas a minha própria alma de todas as outras. Hoje, acordei. Acordei, porque voltei. Voltei a cidade que me fez feliz, e a qual nunca poderia me dar um dia de tristeza. Acordei depois de meses de tratamento profissional. Acordei, e vi. Renasci. Vi as mensagens, vi as perguntas, as novidades, vi os “oi, você está bem?”, vi sinais de vida. A pandemia não acabou, nada acabou, e talvez esteja longe do fim. Mas eu? Eu carrego no peito o sentimento de sobrevivência, o alívio de saber que as coisas não terminaram e que não foi o fim do mundo. Eu carrego comigo sinais de esperança e dias de dor, de luto, de tristeza. Mas carrego também comigo a felicidade ao saber que sobrevivi e a força que me manteve viva. E quando me perguntarem “Ei, o que você fez durante a pandemia?” Eu vou te olhar feliz e dizer “Eu? Eu sobrevivi”.

Sextou em SP

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Miguel Guethi. A sexta na FGV-SP tem muitas caras. Contarei aqui um relato de como foram muitas das minhas e de muitos gvnianos. O bom, é que na verdade, para alguns não tão noiados com o curso, ela já começa com uma noite pouco dormida, de quem decidiu sair na quinta feira para algumas das QIBs, QuintaNeja ou QuintaFunk¹, ou alguma outra festa muito bem achada de outra facul. Amanhece então uma sexta feira já com a boca seca, uma preguiça de levantar muito maior do que a regular, e uma motivação solene de quem não pode mais levar faltas naquela matéria. O DA ou o Sublepi, nossos espaços de vivência nos prédios de Administração e de Direito, percebem a mudança de humor que a sexta feira traz consigo, abraça os que estão dormindo pela manhã cansados, afundados nos seus puffs ou nos futons, e serve café para todos que tentam ganhar aquele gole de vida pela manhã, enquanto conversas soltas já combinam os planos para o resto do dia do nosso sextou. Até porque, enquanto não se decide para onde iremos, o Shokitos, nosso bar, é sempre o local de espera dessa decisão, claro, com uma Brahma e um baco, pra quem gosta, ou um paiero. Durante aquela aula da manhã, em que ainda estamos apenas existindo, contamos uma mentira para nosso eu interior: - Vou pegar só um café e já volto. É essa grande pausa, que tira quase 30 minutos da sua aula, é também o que faz você conseguir chegar até o seu final, agora mais desperto e com fome, pronto para encontrar os amigos no Shokitos, mas antes, será que vamos almoçar por lá mesmo, no Dellize, Vietnamita, marmita ou Getulinho? Infelizmente, para os que têm pouca sorte, a aula da tarde na sexta feira existe, o que diminui consideravelmente o quórum do bar, e, às vezes, algum diretor de entidade, caso não haja aula, tem a brilhante ideia de marcar uma reunião naquele horário. Ao longo da tarde, o shokitos vai ganhando vida, chegam pessoas do Direito que já terminaram seu almoço e subiram a rua, e também descem da aula os alunos de AE e AP, e, uma vez a cada muitos meses, se vê um aluno de Econo que não é o Bigode² no Bar. Os Litrões já vão se empilhando ao lado das mesas, os bacos, sendo bolados, e os paias sendo acesos³. As levantadas para o banheiro diminuindo seus intervalos e as risadas aumentando seu volume. Ao lado, a Avenida 9 de Julho, com buzinas, trânsito e vira e mexe, um carro de polícia com muito barulho: - Olha os coxinha. O dia segue, e dos muitos possíveis destinos, estão a Vila Madalena, o Largo da Batata, o Gaúcho, ou o Imburanas, todos bares em que você fica no meio da rua ou da calçada bebendo, músicas de muitos lados e que tem alguma barraquinha de procedência duvidosa pra matar sua fome. Uma vez tomada a decisão, cabe agora voltar pra GV alcoolizado, fingindo sobriedade para o segurança, buscar a mochila e se dirigir para a casa de um amigo que mora mais perto, ou, às vezes, a sua casa, pra tomar um banhozinho, deixar a mochila de novo e tomar o caminho escolhido. Muitas vezes, o destino escolhido é o bar onde um grupo de samba de alunos da Gv pretende tocar, ainda mais se for aniversário de alguém, aí tenha certeza de que encontrará metade da gv que você sequer esperava. Já no rolê, cantando alto, ao som de “zaaam zaaam zam zam zam zam, pascarigudum, pascarigudum, pascarigudum” bebemos mais um litrão no dia, uma pinga com mel e limão, talvez até um corote de pêssego. - Vamo bolar um? (“Baco”, claro) E vão aparecendo os amigos que já estão no estágio, claramente reconhecidos pela roupa mais social, que já vão soltando os botões das camisas, dobrando as mangas, as conversas vão ficando mais altas: - Não, e detalhe … - Até aí tudo bem, … E a madrugada vai passando, olhares são trocados, por sorte a pessoa de que você estava afim na gv veio: - Opa, salva um isqueiro? Os mais cansados vão indo embora, os mais animados começam a ter suas grandes ideias: - Vamo emendar um rolê? O metrô em breve abrirá para os que o esperam ir embora, os ubers já buscam pessoas e estão de um lado para o outro da rua. - Amigo(a/ue) cheguei em casa, tô bem. Sextamos. ¹ A QIB - Quinta e breja, é uma festa semanal da USP, dentro do campus, a Quinta neja e funk, por sua vez uma festa da ESPM. ² Personagem icônico e aluno da EESP, membro da APA FGV, nossa torcida. ³ Quase ninguém da gv fuma cigarro, e torcemos para que a galera do Jul não esteja no bar.

Cobertura: Sabatinas Eleitorais (2020) - Delegada Martha Rocha

Na última quarta-feira (7) a candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro, Martha Rocha (PDT), participou da sabatina eleitoral promovida pelos Centros e Diretórios Acadêmicos da FGV-Rio. Nesse post, destacaremos os principais pontos levantados durante a conversa, como forma de informação e estímulo à participação política.* Histórico da candidata “Cria da Penha”, Martha Rocha foi a primeira mulher a chefiar a Polícia Civil. Em 2014 elegeu-se Deputada Estadual e em 2018 foi reeleita. Após, filiou-se ao PDT, porque ao ter passado pela Polícia, tomou a educação como a arma mais poderosa de transformar a sociedade – em alusão feita a Nelson Mandela. Saúde Sobre o tema, a candidata apresentou postura crítica à forma que a gestão atual da prefeitura lidou com a crise sanitária e relembrou da grave crise na saúde pública vivenciada desde 2017. Para ela, a saúde básica, com atuação da medicina de família, é essencial para a melhora no panorama sanitário. Outro ponto destacado é morosidade de atendimento aos pacientes que necessitam de exames médicos, como mamografias. Topografia A candidata tratou do assunto de ocupação desordenada na cidade como um dos problemas cortantes na cidade. Como consequência desse fato, destacou a falta de preservação ambiental e a dominação de milícias sobre novas áreas imobiliárias, apontando olhar crítica ao projeto da Lei do Puxadinho e o caso de Muzema. Como solução, destacou a necessidade de lidar com a ocupação em consonância com o interesse social. Esporte Na visão da Delegada, os eventos esportivos internacionais que a cidade recebeu nos últimos anos geraram grandes dividias à cidade que foram geradas durante esse período – como o Parque dos Atletas. Ligado à retomada do projeto CIEP, a candidata destaca o papel do esporte. Ela acredita ser o esporte uma fonte de disciplina, coragem, senso de justiça e convivência social. Por fim, destacou a importância de ter um olhar para os atletas amadores. Turismo A candidata acredita no potencial dessa atividade econômica da cidade, focando no turismo interno, como fonte de geração de emprego e renda. Nessa ótica, a prefeitura deve ser incubadora de projetos, demonstrando que o Rio é um bom lugar para viver e empreender. Ainda nesse âmbito, reafirmou as diversas formas de turismo que o Rio comporta, como o turismo ecológico e o de negócios. Por fim, entende que o Carnaval gera receita e postos de trabalho por meio da cultura popular. Linha Amarela Quanto a esse tema, ressaltou o histórico do contrato da Linha. Disse que devido ao alto custo de manutenção, não adianta encampar por encampar, deve ter planejamento orçamentário. Destacou, também, o preço elevado do pedágio. Além disso, para ela, esse episódio gera insegurança jurídica para o mundo dos negócios. *A cobertura das sabatinas não inclui todo o conteúdo discutido, mas visa a resumir os principais pontos da entrevista, de acordo com a percepção da Revista. Encorajamos os interessados em se aprofundar sobre os candidatos que pesquisem nas redes sociais os respectivos perfis dos candidatos.

Quarentena

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Laura Kirsztajn. No dia 26 de fevereiro de 2020, foi reportado o primeiro caso de COVID-19 no Brasil. Em 16 de março, iniciaram-se as medidas de distanciamento social em São Paulo, dentre elas a quarentena. Algumas semanas antes de tudo isso, um dos meus professores havia comentado conosco a possibilidade de as aulas serem online, porque já escutávamos as histórias na China e na Itália, então era questão de tempo – mas quando? E ficamos nesse “quando”, munidos pela incerteza de que não havia casos confirmados, com dezenas de planos para o futuro. A confirmação do primeiro caso foi na véspera da festa de aniversário do meu amigo, e eu me perguntava: eu vou para lá? Enquanto isso, pessoas choravam de tristeza na GV (especialmente no Sublepi, um cantinho especial de descanso na Escola de Direito, em que os alunos não precisam ser alunos, só gente), outras só ficavam meio frustradas quanto ao cancelamento das festas, das suas comemorações, competições, viagens, formaturas. Algumas, como eu, ficavam irritadas com o drama pessoal sendo colocado acima de um problema mundial. De qualquer modo, a GV deu uma semana para estruturar as aulas online, e eu sou incapaz de lembrar o que fiz nessa semana sem atividades, porque foi uma mistura de “não vou para a faculdade por causa da greve” sem greve e especulações sobre o quão temporário isso seria: três semanas, três meses, até o final do semestre? Ninguém esperava isso. Aulas à distância. Depois de fazer uma eletiva sobre Ensino do Direito, meu posicionamento era simples: EAD não funciona, é um pesadelo, um monstro, se pudesse eu extinguiria. O que eu não esperava é que eu teria que fazer EAD contra a minha vontade, no meu último ano do curso de Direito. Minha rotina se desdobrou completamente e eu percebi que até meus professores poderiam visualizar o caos do meu quarto, do meu bairro barulhento e cheio de ventania, a instabilidade da minha internet e o alcance vocal dos meus pais. Coisas que antes você mantinha em casa, e podia deixar lá quando saísse para a GV, mas que agora tem que dar conta simultaneamente. O lar ficou menos confortável, menos caseiro, pelo menos enquanto o Zoom estivesse funcionando¹. Como estou no último ano, faço apenas eletivas, por isso escolhi com carinho as minhas disciplinas. Minhas experiências não são universalizáveis, especialmente para quem acabou com os professores mais severos, dependendo daquela matéria obrigatória para não repetir o semestre. É um outro peso. Mesmo assim, eu sou aquela aluna que chamam de... chata. Eu gosto de fazer parte da aula, ainda que isso não me dê nota, como se tivesse a obrigação moral de ter um ótimo desempenho e fazer o professor feliz. Por isso, precisei desenvolver algumas habilidades que nunca considerei: como levantar a mão no Zoom antes de outras 10 pessoas na sala; como não surtar com o medo de o áudio abrir sem eu perceber; como debater com pessoas que você não vê o rosto; como fazer um trabalho em grupo com alguém com quem você só tem contato graças ao Whatsapp, e que pode simplesmente não visualizar mensagens e você nunca mais vai ter notícia da existência; como comer chocolate discretamente durante a aula; como escutar o professor falando enquanto acontece um pancadão no seu bairro; como acompanhar o chat do Zoom enquanto escuta os outros falarem. Como lidar com o fato de que podem ter inúmeras pessoas olhando para o seu rosto às 7h da manhã, ou ninguém, porque você não tem ideia de quem te vê e quem te ignora. Nunca pensei que fosse reclamar de não precisar acordar às 5h45 para ir para a faculdade. Escolher a roupa, sair correndo com a possibilidade de esquecer algo importante em casa. Chegar na faculdade e rezar para abrirem a cantina no horário certo, para comprar um pão de queijo antes da aula. Esse processo de horas e diversos músculos trabalhando se transformou no meu despertador tocando 30min antes da aula começar, e sendo adiado mais alguns minutos, até eu tomar vergonha na cara e me deslocar para o banheiro, uns 5 metros de distância da cama, e para a escrivaninha, a 70 centímetros. Foi nessa enrolação para levantar que eu percebi que meu computador não é tão rápido assim para entrar no Zoom. Em poucas semanas esse negócio de “botar uma roupa normal” caiu por terra, e as pessoas puderam conhecer meus pijamas. Precisei desenvolver a habilidade de ficar desperta em menos de 10 minutos, coisa que eu fazia durante horas ao longo do caminho da minha casa para a faculdade, enquanto comia pão de queijo com capuccino e lia os textos do dia. Curiosidade: ainda não tenho essa habilidade; em quatro anos de curso eu quase nunca me atrasei, agora, consegui a audácia de me atrasar para a aula EAD (trânsito, né?), e até o momento, com mais de seis meses nessa quarentena, não posso dizer que melhorei meu timing de despertar. Nos primeiros 20 min de aula, eu poderia bem ser uma boneca realista, que dá “bom dia”. Apesar de tudo (o que inclui muita coisa), minha quarentena teve bons momentos: participei da Olimpíada Nacional de História do Brasil, comecei a ter aulas de russo, fiz uma aula de um curso gratuito de Harvard, iniciei um clube para discutir filmes semanalmente, realizei atendimentos jurídicos, fortaleci amizades, escrevi artigos, participei de aulas e debates, escutei e li “eu te amo”. Defendi meu TCC, que foi aprovado, apesar de eu ter vivenciado algo novo, que não era apenas o habitual medo da banca: o medo de a internet cair durante a defesa. Mas eu não gosto dessa romantização sobre “veja só, não há só coisas ruins nesse desastre aqui, vamos tirar a beleza de uma pandemia, os aprendizados da quarentena”; minha suposta produtividade e todas essas descobertas estão longe de superarem ou apaziguarem essa crise que atinge nosso país. Com 133 mil mortos, até onde sei, e mais tantos sofrendo por fome, desemprego, falta de moradia, sem suas terras, na pura negligência do Estado. A quarentena sem dúvida me propiciou uma autodescoberta, uma relação completamente distinta com meu corpo e minha mente, mas tudo isso pode ser feito fora desse contexto. Eu me recuso a projetar a minha individualidade tão longe assim. Prefiro ser uma formiguinha insignificante, o que não é o pensamento mais incentivado para estudantes de Direito, que se consideram deuses que mudarão o país (geralmente para pior, só que eles não acreditam nisso, especialmente os punitivistas). Aos poucos, o EAD foi incorporado aos nossos hábitos, e algumas modificações foram feitas para que isso pudesse melhorar. Professores passaram a dar 10min de intervalo durante a aula, foi dada ênfase às atividades de discussão em grupo nos breakout rooms do Zoom, e alguns se deram conta de que 40 alunos apresentarem seus trabalhos em um mesmo dia, dependendo da conexão de internet de cada um deles, não daria muito certo. No segundo semestre, a escola de Direito estendeu o período letivo, para que uma semana por mês não tivesse aula e os professores utilizassem esses dias para adaptar as metodologias, enquanto os alunos dão uma pausa na constante exposição à tela. É difícil prever o que vai ser de uma aula online: quantos vão ligar as câmeras? E se o Zoom da pessoa travar sucessivamente? O link vai parar de funcionar? Nossas experiências humanas, que acabam misturadas entre corpos habitando uma sala de aula, agora são partilhadas entre caixinhas das redes sociais: o grupo de Whatsapp dos amigos, do estágio, do trabalho em grupo X, Y e Z, as atualizações nos stories do Instagram, publicações pelo Facebook, enfim, qualquer espaço de expressão que não exija proximidade física. Se você não gostava dessa existência conectada, agora é praticamente obrigado a existir dentro dela. Ainda estamos nesse estado de não saber bem o que pode acontecer amanhã, e quando poderemos nos rever, abraçar, olhar os outros nos olhos enquanto eles dão uma palestrinha na discussão em sala de aula, conversar com o professor depois de a aula acabar (sem ser bloqueado pelo aviso do Zoom de que o host encerrou a reunião). Ansiamos por coisas simples como ficar no Sublepi deitados, sendo completamente inúteis para o mundo, só olhando para o teto ou para o céu, ao lado dos nossos amigos, sem precisarmos trocar quaisquer palavras, mantendo apenas a companhia física. Eu não quero um “novo normal”, não precisamos de algo normal, porque nossa normalidade também não é muito boa. Precisamos apenas de um país que não seja um constante alvo de tragédias – o COVID-19 é apenas uma delas. Quando que isso vai terminar? ¹Falei um pouco do caos do lar neste texto para a Gazeta Vargas: Lar, Caótico Lar, uma releitura da vida universitária em tempos de pandemia. Disponível em: https://www.gazetavargasfgv.com/post/lar-ca%C3%B3tico-lar-uma-releitura-da-vida-universit%C3%A1ria-em-tempos-de-pandemia

A morte em tempos de pandemia

A morte deveria, em tese, ser tão normal e, de certo modo, aceitável quanto a vida para o homem (até porque se há vida, haverá, necessariamente, a morte no futuro). Ser humano, aliás, que se diz racional, em detrimento de emocional, quando em relação aos outros animais. Porém, durante a maior parte de sua existência, como no Egito Antigo, por exemplo, a humanidade criou jeitos de encarar a morte que não sejam, talvez, a mais real, ou talvez mesmo correta, criando essas crenças para seu próprio contentamento com o fim da vida. Com isso, em tempos de flagelos, tanto biológicos como sociais (como guerras), as tentativas de fugas dessa entidade aumentam, devido a sua proximidade com a vida e a realidade, pois se torna, certamente, desesperador para muitos. O filósofo existencialista Albert Camus, em seus inúmeros livros e ensaios, se refere à morte tão calma e normalmente quanto à vida, fato que torna suas leituras, para muitos, até “desconfortável”, de certa maneira. O absurdismo, corrente existencialista defendida pelo filósofo, afirma que a busca por sentido da vida pelo ser humano é impossível, pois mesmo que esse sentido exista, não é factível que será encontrada, e isso é demonstrado em diversas de suas obras, como logo no começo do livro “O Estrangeiro”, ou em sua aclamada obra “A Peste”. Por exemplo, em uma de suas famosas frases, ele diz que “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual números de pestes e guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram as pessoas igualmente desprevenidas”. Há uma explicação bem razoável para isso: As pessoas não acreditam, ou não querem pensar que o fim da vida chegará a eles, e preferem recorrer a outros meios de auto enganação para se sentirem bem, ou, no mínimo, sãos, o próprio absurdo, por parte de Camus por exemplo, é uma maneira de tentar entender a morte, ou pelo menos aceitá-la. Por outro lado, há as outras maneiras, já citadas, de escapar, pelo menos psicologicamente, da morte: as crenças, religiões. Essas maneiras são também chamadas de “suicídio filosófico” pelo filósofo Albert Camus. No Brasil, antes da chegada dos portugueses, cada tribo tinha sua própria cultura e religião, porém, com a descoberta do país, chegou o cristianismo, que domina até a modernidade, compartilhando espaço com várias outras crenças nos dias de hoje. E são em momentos de crise, como pandemias, que elas se fortalecem, pois uma de suas principais crenças, a de que a morte não existe, permite que as pessoas fiquem minimamente relaxadas sobre esse assunto, visto que o fim da vida está mais perto do homem do que nunca. Com isso dito, percebe-se que o acontecimento tão natural quanto a própria vida, é ainda um tabu, ou, em maior escala, um desespero, para a humanidade, e que o homem busca, constantemente, fugir dele. De fato, não há um jeito certo ou errado de lidar, cada um escolhe no que acreditar, para que consiga viver, pelo menos, sem um medo constante. Pois, quando analisados profundamente, nota-se que não há diferença entre a crença do absurdo da vida e a vida eterna, propagada pelas religiões, nenhuma das duas são sequer empiricamente provadas, e servem como tentativa para uma melhor relação com a morte. Por isso, as pessoas devem aceitar o óbito como ele é, de fato: o fim de um ciclo, sem tentar adivinhar se esse ciclo era o primeiro, o último ou o único, e as pandemias acontecem, de tempos em tempos, para nos lembrar constantemente disso.

Cabou-se o mundo?

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Loreta Guerra. “Hoje é domingo Pede cachimbo O cachimbo é de barro Bate no jarro O jarro é de ouro Bate no touro O touro é valente Machuca a gente A gente é fraco Cai no buraco O buraco é fundo Cabou-se o mundo” (Hoje É Domingo – Parlenda Popular) Eu cresci ouvindo e cantando essa “parlenda” quase todo domingo. O nome “parlenda” é dado a esse tipo de cantiga versada, meio cantada de temática infantil. Agora, com meus 19 anos, acho muito graciosos esses versinhos, mas devo admitir que, apesar de recitá-los sorrindo com a minha mãe todo café da manhã de domingo, eu tinha um pé atrás com esse touro que machuca a gente e o tal buraco que cai no fim do mundo... o engraçado é que esse sentimento confuso se traduziu, para mim, no dia de domingo. Domingo, na minha percepção, é dia de acordar meio tarde porque sábado teve festa ou jantar na casa dos amigos. Ou simplesmente porque eu li até muito tarde. Apesar de não ser uma pessoa muito matutina, gosto de acordar cedo, aquele “cedo” de umas 9h e, na verdade, me incomodo quando isso não acontece... menos de domingo. Por que será? Acho que é porque domingo é sempre meio nublado, mas com um pouquinho de sol de manhã. Calor e luz o suficiente para dar uma volta na paulista, que fecha para os carros extraordinariamente nesse último dia do fim de semana, tirando os feriados. Observar as pessoas tão diferentes que circulam a pé, de bicicleta, patins, skate, ou o que mais der para andar na faixa vermelha destinada aos únicos “veículos” permitidos na avenida que, de repente, não tem mais direita e esquerda, via ou sentido certo. Na Paulista aberta aos domingos tem arte, música, esporte, política, comércio, família, cachorro, tem até um Michael Jackson (um dançarino fantástico que imita os passos lendários do artista). A verdade é que é uma grande bagunça, um grande “nublado”... mas o sol, assim como a animação, a criatividade e a alegria, também é forte! Talvez os domingos em São Paulo sejam exatamente isso! Uma confusão. Melhor: um paradoxo. Confusão traz uma sensação negativa e, apesar do touro e do buraco, domingo não é um dia ruim. Não. Esse dia “pede cachimbo”, pede reflexão (pode ser feita com um cachimbo ou não, vai de cada um), de olhar por vários ângulos, mesmo que antagônicos. Domingo é fim... ou é começo? A gente organiza as coisas da semana que passou, mas também planeja a semana que vem depois. Meio confuso. A gente para à tarde e lê um livro ou vê uma série, mas tem trabalho para entregar na segunda. Paradoxal por essência, por isso digo que é dia de refletir. Não falo necessariamente na reflexão socrática e retórica cheia de palavras e conceitos complexos que parecem trava línguas, falo de sentar e, de alguma forma, tomar um pouco de tempo para pensar no agora. Na Paulista aberta, a gente anda pelas ruas largas que viram calçadas, passa pelo parque Trianon e vê todo aquele verde quebrando o cinza. Admira a quase “floresta”, se comparada à selva de concreto que é São Paulo, coisa que não dá pra fazer na correria da semana. À tarde, antes de fechar para os pedestres (o que ocorre por volta das 19h) ainda dá pra aproveitar e andar até o Reserva Cultural ou o Cinema Belas Artes para pegar uma das últimas sessões de algum filme diferente, fugir um pouco da Hollywood que impera em outros cinemas. Não que os filmes mainstream não sejam legais, mas, de novo, domingo é dia de mudar as perspectivas. À noite, como minha avó sempre fala “é dia de pedir pizza”! Se juntar num jantarzinho rápido com a família mais próxima, conversar sobre tudo e nada por umas 2 horas e voltar antes das 22h para casa, para não atrapalhar o sono... Acho que é por isso que não vejo problema em acordar tarde nesse dia. Se o domingo é um, mas é o outro também, o tarde vira cedo e o cedo vira tarde. Depende do ângulo. Mesmo se levantando às 14h, ainda dá pra dar a volta na paulista depois do almoço. Ou não. Dá pra ler aquele livro que está esquentando a mesa de cabeceira há algumas semanas, estudar para a prova de quinta-feira, visitar a vó para um café da tarde, ou simplesmente passar o resto do dia na cama absorvendo conteúdo do facebook, instagram, twitter... o ponto é: depende do eu e do agora, muito mais do que os outros dias. De segunda a sexta tem compromisso, projetos, estudo. Sábado tem parque do Ibirapuera de manhã, almoço marcado à tarde e festa à noite. Domingo tem... o que tem domingo? Considerando que eu já vou acordar tarde, não tem nada de manhã, à tarde no máximo um almoço diferente, à noite não dá pra marcar muita coisa (além da pizza) porque tem que acordar cedo na segunda... domingo tem, bem, domingo! Aqui, caracterizo alguns dos meus compromissos usuais, de uma estudante de universidade privada que não trabalha. A perspectiva da semana e das incumbências de cada um variam de pessoa para pessoa, mas eu acredito que o conceito do domingo é, de certa forma, bem parecido para todo mundo. Um dia para ser aproveitado como dia, não como junção de afazeres. Tanto que nenhuma loja de rua abre no domingo, o horário de funcionamento do shopping encurta, a maior parte das escolas (mesmo as com aula até no sábado) reconhecem que é um dia diferente, tanto que não tem aula. É dia de descanso da rotina, da bola de neve que rola na mente pensando “o que eu preciso fazer agora?”. Não sou religiosa, mas entendo que domingo é um dia que muitas pessoas reservam para ir à missa. De certa forma, acho que o que eu quero dizer nesse texto é que domingo é dia de “ir à missa”, seja literalmente ou não. É dia de cortar aquela avalanche de produtividade, reuniões, festas, trabalho, jantar, almoço, café da manhã... acordar tarde e ir contemplar o caos completamente com sentido que é a avenida paulista, a melhor representação do próprio dia. Uma linda metáfora. Não que domingo não possa ser usado para trabalhar ou estudar, é só que ele, naturalmente e de forma muito mais explícita que os outros dias, pode ser usado para o que se quer, sem convenções fixas e determinadas, muito mais comuns na semana e mesmo no sábado. Entendo que definir o domingo é, por essência, uma tarefa difícil, exatamente por essa característica de pluralidade que ele carrega, de “inexatidão”. Descrever um dia no qual o que eu mais faço é deixar a mente ir para onde ela quiser, para o fim e para o começo ao mesmo tempo, é complicado, mas também, de alguma forma, suave. Achei paradoxos até no processo criativo desse texto. Mas creio que finalmente compreendi o que os versos da cantiga que me incomodavam na infância significam para mim. O cachimbo eu já entendia: domingo é para relaxar e pensar. O touro é a força com que me permito fazer o que quiser, seja produtivo ou não. O buraco é a passagem de uma semana para a outra. Minha única modificação viria agora: nessa onda de antagonismos, domingo não é começo nem fim, portanto a afirmação final, para mim, deveria virar um questionamento: “cabou-se o mundo?”

Quando penso em política, penso em Silenciamento

Às vezes me sinto engasgada. Como se tivesse palavras entaladas na minha garganta que eu nem mesmo sei exatamente quais são. Sinto como se essas palavras morassem no meu corpo, mas não fossem só minhas. Pesa sobre meus ombros algo que apelidei de responsabilidade social. É uma sensação tão estranha: por mais que eu fale incessantemente, sinto que ainda há tanto a ser falado. E, cada dia mais, essa carga e urgência de expressar formiga e cresce dentro de mim. Comecei ainda nova a gostar de política. Desde então, esse meu interesse já teve tantas formas. Hoje em dia, se me perguntarem, digo com desconforto: a primeira palavra que me vem quando penso em política é Silenciamento. Isso porque, ainda que eu ocupe uma posição de extremo privilégio e acesso à oportunidade, quase não vejo representação da minha existência nesse espaço. O Brasil se encontra na 161ª posição do ranking que avalia a participação de mulheres na política de 186 países – temos menos representação feminina inclusive que a Arábia Saudita, onde mulheres conquistaram o direito de dirigir apenas em 2018. As conquistas dos direitos políticos e da possibilidade de votar e de ser votada não solucionaram a dificuldade feminina de participar na política. Apenas 15% das cadeiras da Câmara de Deputados são ocupadas por mulheres. E isso não é por falta de interesse. O espaço político é tido como masculino e, mesmo quando as mulheres o ocupam, têm sua atuação dificultada. Há uma grande diferença entre silêncio e silenciamento. Sinto um nó na garganta ao afirmar que mulheres foram e são, todos os dias, politicamente silenciadas. E isso é extremamente preocupante. Inclusive dado que a variável “ser mulher” é apenas uma entre tantas outras que, interligadas ou não, dificultam a participação política. A situação fica ainda mais grave quando se analisa as variáveis de classe e raça, por exemplo. Todas as ações políticas buscam a satisfação de interesses e fins individuais ou coletivos. Elas são embasadas em opiniões, compreendem juízos de valores e princípios. São, portanto, parciais e vinculadas à posição social na qual cada agente político vive. Em uma sociedade na qual mulheres são sub-representadas na política, os interesses atendidos e tratados como “vontade geral” são masculinos. Em uma sociedade desigual, é impossível que se pense política sem que seja sob a marca do conflito. Assim, é necessário que pessoas com uma visão diferente do grupo dominante ocupem o espaço político. Para que as desigualdades sociais sejam combatidas, as experiências de diversos grupos devem ser consideradas na formulação das leis. É em meio a esse cenário desigual que sinto meu coração apertar e confirmo: ainda há tanto a ser falado. Por mim e por tantas mulheres que têm tanto a dizer sobre identidades e posições sociais tão complexas. Exteriorizar é necessário. Incentivar e ouvir a expressão também. Porque a fala tem poder. Ela ocupa e constrói a sociedade. E é justamente por isso que tentam a silenciar.

O diamante é o mineral mais duro do mundo e pode arranhar qualquer outro mineral que existe

O diamante é o mineral mais duro do mundo e pode arranhar qualquer outro mineral que existe. Ainda assim, é um pedra atraente, brilhante e muito desejada, uma pedra que ouço que é a melhor amiga de uma mulher desde que me entendo por gente. Tendo todas essas características, pode-se dizer que o diamante é belo e praticamente perfeito, não? Bom, a beleza como entendida pela sociedade obedece a um padrão específico que te engloba ou não. Assim como o diamante, a beleza é um conceito duro que arranha e corta quem tenta atingi-la, esses cortes e arranhões são de diversos tamanhos e de diversas profundidades e todos temos pelo menos um. Esses cortes geram cicatrizes físicas e emocionais que associo diretamente a inseguranças. Historicamente o significado de “beleza” e a ideia de “perfeição” já representaram tantas características diferentes, que acabo me questionando se todos os sacrifícios que fazemos realmente valem a pena. No Renascimento, o belo estava equiparado ao corpo gordo, um símbolo de riqueza. Já nos anos de 1990, o conceito de Heroin Chic exaltou a magreza extrema. Nos anos 2000 quanto mais lisos fossem os cabelos mais belos eram. Já hoje em dia, as ondas são o alvo de milhares de mulheres. Ao perceber isso, lembrei que até mesmo diamantes não são perfeitos. Para atingir a imagem que conhecemos e corresponder as nossas expectativas, a pedra bruta deve ser lapidada. Isso significa que a ideia do diamante perfeito também não é constante e pode mudar de tempos em tempos. Por isso, escolhi definir o que é beleza para mim, a fim de não perder a minha identidade nas constantes mudanças do padrão de beleza. Dessa forma, as mudanças que eu fizer em mim serão para atingir os meus próprios objetivos e não os que a sociedade busca definir que eles devem ser. Nesse sentido, penso que se for minha vontade trabalhar para mudar meu corpo, meu cabelo ou meus traços faciais devo fazer isso, mas somente para me tornar bela aos meus olhos, pois acho que não devo me conformar com que sou, e sim, amar quem sou. Para mim ser bela é isso, ser feliz e generosa comigo mesma e com aqueles que estão ao meu redor, me sentir confiante no meu corpo, mesmo que esteja tentando mudá-lo, me sentir confortável para ser eu mesma sozinha e com os outros e acima de tudo amar... amar a mim mesma, amar minha família e amar meus amigos, não só sentir, mas também agir para demonstrar esse amor. Atingir um estado de amor próprio é difícil, mas assim como o diamante sinto que nós nos lapidamos a fim de nos descobrir e quero acreditar que o resultado deste processo é forte e brilhante.

Pelos Corredores da FGV

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Raquel Guimarães. Nos textos dessa parceria buscaremos trazer as perspectivas de pessoas que moram no Rio e em SP relacionados à vivência na faculdade e fora dela. Esperamos que gostem e agradecemos a Gazeta por ter proposto esse trabalho coordenado! “Os corredores da GV em São Paulo não pareciam do tipo que deixariam saudades, pelo menos não esteticamente. São todos cinzas e sobrepostos por outros tons de cinza, limitados a decorações comemorativas de 50 anos de Fundação com fotos em preto e branco e escritos tipo linhas do tempo, e cartazes espalhados, com jargões anglicizados - tipo “think tank” - escritos em fonte azul. Falo dos corredores da EAESP, sigla para Escola de Administração de Empresas de São Paulo, que tem esse nome mesmo sendo sede, há umas boas décadas, também do curso de Administração Pública. O prédio parece ter sido composto por vários puxadinhos ao longo das décadas, que resultaram em doze andares assimétricos, cheios de portas misteriosas, que parecem não levar a lugar nenhum. Há uma ligação de apenas dois ou três degraus entre alguns dos últimos andares e elevadores que só passam por andares específicos . O térreo fica na Av. Nove de Julho – a grande ironia urbanística da Fundação Getulio Vargas de São Paulo – e o sétimo, na Rua Itapeva, com entrada até para carros. A entrada principal tem um busto enorme do J. F. Kennedy. Diria que o prédio tem cinco elevadores e meio: três são maiores e ficam no centro do prédio, um pula o primeiro andar, um é supostamente “de serviço”– uma das marcas de segregação socioeconômica da GV – e tem as paredes acolchoadas e sem a TVzinha com propagandas de rugby ou aquelas notícias de curiosidades, e o último só começa no quarto andar, e por isso foi considerado, aqui, como meio elevador. Por mais ridículo que soe, é fato que, mesmo com tantos elevadores por andar, tentar se locomover pelo prédio por meio deles é estressante e ineficiente. O sistema que rege os três principais parece ter sido bem mal feito; não que eu entenda muito sobre a programação envolvida num sistema de chamar elevadores, mas sinto que o ideal não é nem que o elevador passe reto por você, nem que cheguem dois elevadores ao mesmo tempo - e os dois eventos são bem frequentes. Além de muitos elevadores, temos muitos, mas muitos banheiros. Diferentemente dos elevadores, no entanto, eles dão conta da demanda com folga, e nos meus dois anos lá, não lembro de ter esperado uma única vez na fila – exceto talvez no do andar do Diretório Acadêmico. Os banheiros são sempre muito limpos e, pelo menos no banheiro feminino do oitavo andar, lembro de termos um espelho de corpo inteiro. Recentemente, foi inaugurado um banheiro unissex, e esse, sim, tenho que admitir que infelizmente às vezes tem mijo no chão e no assento da privada. Todo andar também tem seu filtro de água, e os filtros têm, além de uma página de Facebook já inativa de avaliação , uma fileira de copinhos plásticos ao lado. Queria poder saber quantos copos vão embora por dia. Nos horários mais calmos, aqueles bem no meio da aula, sempre parece ter duas amigas numa conversa séria, uma delas desabafando sobre alguma coisa no banco perto da água. E você pega uns 30 segundos de história sobre alguma merda que aconteceu na GVjada enquanto sua garrafinha enche, e depois vai embora sem saber o desfecho. Além de todos os banheiros e filtros, tem também muitos e muitos lances de escada, que são uma boa alternativa em relação aos elevadores, principalmente no horário de almoço. Subir e descer os lances era o meu principal exercício físico diário e, no EaD, a falta disso tem afetado consideravelmente a minha resistência aeróbica. A escada principal tem uma vista muito legal a partir do quarto andar, você vê a Av. Nove de Julho e um pedacinho do MASP. Sempre estão passando vários ônibus e, se você der muita sorte, consegue até ver aquele que você estava descendo pra ir pegar indo embora e sumindo no túnel. Do outro lado da avenida, tem um prédio residencial e, às vezes, se alguém tiver aberto as persianas, que ficam sempre fechadas, dá pra ver cenas interessantes da vida alheia acontecendo no meio da aula. Nos próprios degraus das escadas, às vezes acontecem umas cenas interessantes: passar por um conhecido de conhecidos com quem você conversou no bar uma vez e tentar dar um oi e desviar o olhar ao mesmo tempo; esbarrar em alguém que você beijou no carnaval e que não faz ideia de como cumprimentar; encontrar um professor antigo que dificilmente lembra seu nome, coisas assim. A outra escada lateral é meio express, caracol, dá pra pegar embalo num trote e descer sete andares bem rápido - confiando que não vá aparecer nenhum empresário palestrante vindo no sentido contrário –, gosto bastante dela. Pego pra chegar no DA, que é como nos referimos ao primeiro andar, já que lá é a sede do Diretório Acadêmico. Tem até algumas coisas legais. Uma mesa de sinuca, duas de pebolim, um piano com algumas teclas mudas - que gosto de tocar quando tem menos gente no fim da tarde - duas televisões que às vezes são ligadas para passar jogo de futebol ou um filme de sessão da tarde, uma televisão com PlayStation - que só vi sendo usada para Fifa - e vários sofás, que são bem macios. Eu adoro o ecossistema dos sofás do DA. Sempre tem alguém dormindo, e aí tem bastante esse embate “pessoal do violão/que fica falando alto vs. pessoal desesperado pra dormir e que depois reclama sobre o outro lado no Facebook”. Ainda assim, gosto da aceitação social acerca de dormir lá, ninguém parece julgar ou se importar muito. Sempre tem gente no computador também, e, com alguma frequência, um ou outro casal se beijando, o que, dependendo da situação, acaba sendo bonitinho ou só bem desconfortável. É fato que a quarentena nos faz sentir saudades das coisas mais estranhas, causa dúvida sobre o tempo verbal das afirmações - por exemplo, a EAESP tinha lanches chiques de “coffee break”, ou tem? Ou teve? - e, por vezes, daríamos tudo e mais um pouco estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa. As saudades do fumódromo, aparentemente o único lugar em que se pode pegar algum resquício de sol no prédio, eram esperadas; as dos cinzas dos corredores da GV, nem tanto, mas, pelo tom romantizado do texto, estão aqui".

É preciso um país inteiro para construir as boas memórias de uma criança

Enquanto estou de frente para o computador escrevendo esse artigo, tento me libertar da ideia, que eu mesma ou alguém botou em mim, de que o que tenho a dizer não é importante. Tento não me culpar por não ser capaz de me livrar dela, tem todo um sistema sendo operado desde a minha infância para calar grupos minoritários, e eu ganhei na loteria de fazer parte de vários deles enquanto espero que as futuras gerações de garotas como eu não precisem se agarrar a uma corda fininha de crença em sua capacidade. Parte dessa dificuldade de escrever, se expressar ou acreditar no valor da minha opinião é fruto de sementes plantadas entre a minha infância e pré-adolescência. Hoje, enquanto jovem adulta e tia de duas crianças, parte da minha responsabilidade com as crianças que convivo é ter cuidado com as coisas que digo e quais memórias de infância estou ajudando a criar. Tenho pensado nisso com mais frequência desde que terminei de assistir a terceira temporada de “This is us” (“Estes somos nós”, em tradução livre). A série estadunidense é um drama familiar que narra a vida de três irmãos começando com eles aos trinta e seis anos ao mesmo tempo que vai e volta no passado, e no futuro, traçando paralelos entre os acontecimentos que os afligem no mundo atual e os que permearam suas vidas há dez, vinte, trinta anos atrás. É nítido como alguns episódios tentam trazer do passado as justificativas do presente, frases que foram ouvidas ao que parece um milhão de anos atrás não foram esquecidas décadas de anos depois, e sobreviveram a rigorosa curadoria das memórias que nossa mente limitada é capaz de guardar. Tudo que a Kate, personagem principal, ouviu sobre seu corpo durante a infância foi guardado dia após dia e os comentários gordofóbicos sobreviveram a ação do tempo. E esse é só um dos exemplos que consigo lembrar e que direciona a maior parte das atitudes futuras da personagem. No entanto, de muito pouco serve que eu me preocupe em construir memórias saudáveis com as crianças a minha volta, se a outra grande parcela de adultos com as quais eles convivem direta ou indiretamente não se importam com isso. Crianças não são responsabilidade somente de seus pais ou responsáveis. Em algum nível, todos somos responsáveis por elas, não existe isso de que “Quem pariu Mateus que balance” quando o futuro do mundo também depende de como foi criada uma geração inteira. Sabe aquele seu comentário inofensivo sobre a aparência de uma criança? Parabéns! Talvez você tenha criado, e não saiba, um pequeno evento que a memória dela vai fazer questão de carregar “para sempre”. A mídia, a moda e tudo o mais que é produzido e reforça estereótipos. As decisões políticas que acentuam as desigualdades tomadas por centenas de pessoas, governantes, deputados, prefeitos que foram eleitos pelos adultos. O descaso com um um vírus que mata, desemprega, gera fome. Um abuso sexual que fica conhecido no país inteiro e mostra que a gente que é adulto tem feito pouco caso da vida de um monte de crianças que já estão aqui. Tudo isso produz uma consequência, uma memória que às vezes gruda igual chiclete na cabeça, que mostra que é preciso um país inteiro não só para construir boas lembranças de infância, mas qualidade de vida para se viver hoje.

Rotina egocêntrica de uma amante musical

Eu ouço essa música todo dia, vivendo memórias de outro tempo tal como no edifício Master levando a vida à my way. Eu vejo esse filme pra conseguir dormir, toda noite i dreamed a dream onde ele me toca, onde ele escorrega os dedos pelo meu rosto e conforta minhas lágrimas. I wanna dream. Eu abro os olhos ainda melados, uno a terra e o céu através de Iris - como na Ilíada - ela se manifesta somewhere over the rainbow, a procura do pote de ouro. Mas eu amei, não hoje, mas yesterday. Eu já gritei pra todo mundo ouvir: Stand by me amor, Say something, Wake me up... Eu ainda não desisti, eu ainda creio na nossa La vie en rose.

ISSN: 2447-2662
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