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A morte em tempos de pandemia

A morte deveria, em tese, ser tão normal e, de certo modo, aceitável quanto a vida para o homem (até porque se há vida, haverá, necessariamente, a morte no futuro). Ser humano, aliás, que se diz racional, em detrimento de emocional, quando em relação aos outros animais. Porém, durante a maior parte de sua existência, como no Egito Antigo, por exemplo, a humanidade criou jeitos de encarar a morte que não sejam, talvez, a mais real, ou talvez mesmo correta, criando essas crenças para seu próprio contentamento com o fim da vida. Com isso, em tempos de flagelos, tanto biológicos como sociais (como guerras), as tentativas de fugas dessa entidade aumentam, devido a sua proximidade com a vida e a realidade, pois se torna, certamente, desesperador para muitos. O filósofo existencialista Albert Camus, em seus inúmeros livros e ensaios, se refere à morte tão calma e normalmente quanto à vida, fato que torna suas leituras, para muitos, até “desconfortável”, de certa maneira. O absurdismo, corrente existencialista defendida pelo filósofo, afirma que a busca por sentido da vida pelo ser humano é impossível, pois mesmo que esse sentido exista, não é factível que será encontrada, e isso é demonstrado em diversas de suas obras, como logo no começo do livro “O Estrangeiro”, ou em sua aclamada obra “A Peste”. Por exemplo, em uma de suas famosas frases, ele diz que “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual números de pestes e guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram as pessoas igualmente desprevenidas”. Há uma explicação bem razoável para isso: As pessoas não acreditam, ou não querem pensar que o fim da vida chegará a eles, e preferem recorrer a outros meios de auto enganação para se sentirem bem, ou, no mínimo, sãos, o próprio absurdo, por parte de Camus por exemplo, é uma maneira de tentar entender a morte, ou pelo menos aceitá-la. Por outro lado, há as outras maneiras, já citadas, de escapar, pelo menos psicologicamente, da morte: as crenças, religiões. Essas maneiras são também chamadas de “suicídio filosófico” pelo filósofo Albert Camus. No Brasil, antes da chegada dos portugueses, cada tribo tinha sua própria cultura e religião, porém, com a descoberta do país, chegou o cristianismo, que domina até a modernidade, compartilhando espaço com várias outras crenças nos dias de hoje. E são em momentos de crise, como pandemias, que elas se fortalecem, pois uma de suas principais crenças, a de que a morte não existe, permite que as pessoas fiquem minimamente relaxadas sobre esse assunto, visto que o fim da vida está mais perto do homem do que nunca. Com isso dito, percebe-se que o acontecimento tão natural quanto a própria vida, é ainda um tabu, ou, em maior escala, um desespero, para a humanidade, e que o homem busca, constantemente, fugir dele. De fato, não há um jeito certo ou errado de lidar, cada um escolhe no que acreditar, para que consiga viver, pelo menos, sem um medo constante. Pois, quando analisados profundamente, nota-se que não há diferença entre a crença do absurdo da vida e a vida eterna, propagada pelas religiões, nenhuma das duas são sequer empiricamente provadas, e servem como tentativa para uma melhor relação com a morte. Por isso, as pessoas devem aceitar o óbito como ele é, de fato: o fim de um ciclo, sem tentar adivinhar se esse ciclo era o primeiro, o último ou o único, e as pandemias acontecem, de tempos em tempos, para nos lembrar constantemente disso.

Cabou-se o mundo?

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Loreta Guerra. “Hoje é domingo Pede cachimbo O cachimbo é de barro Bate no jarro O jarro é de ouro Bate no touro O touro é valente Machuca a gente A gente é fraco Cai no buraco O buraco é fundo Cabou-se o mundo” (Hoje É Domingo – Parlenda Popular) Eu cresci ouvindo e cantando essa “parlenda” quase todo domingo. O nome “parlenda” é dado a esse tipo de cantiga versada, meio cantada de temática infantil. Agora, com meus 19 anos, acho muito graciosos esses versinhos, mas devo admitir que, apesar de recitá-los sorrindo com a minha mãe todo café da manhã de domingo, eu tinha um pé atrás com esse touro que machuca a gente e o tal buraco que cai no fim do mundo... o engraçado é que esse sentimento confuso se traduziu, para mim, no dia de domingo. Domingo, na minha percepção, é dia de acordar meio tarde porque sábado teve festa ou jantar na casa dos amigos. Ou simplesmente porque eu li até muito tarde. Apesar de não ser uma pessoa muito matutina, gosto de acordar cedo, aquele “cedo” de umas 9h e, na verdade, me incomodo quando isso não acontece... menos de domingo. Por que será? Acho que é porque domingo é sempre meio nublado, mas com um pouquinho de sol de manhã. Calor e luz o suficiente para dar uma volta na paulista, que fecha para os carros extraordinariamente nesse último dia do fim de semana, tirando os feriados. Observar as pessoas tão diferentes que circulam a pé, de bicicleta, patins, skate, ou o que mais der para andar na faixa vermelha destinada aos únicos “veículos” permitidos na avenida que, de repente, não tem mais direita e esquerda, via ou sentido certo. Na Paulista aberta aos domingos tem arte, música, esporte, política, comércio, família, cachorro, tem até um Michael Jackson (um dançarino fantástico que imita os passos lendários do artista). A verdade é que é uma grande bagunça, um grande “nublado”... mas o sol, assim como a animação, a criatividade e a alegria, também é forte! Talvez os domingos em São Paulo sejam exatamente isso! Uma confusão. Melhor: um paradoxo. Confusão traz uma sensação negativa e, apesar do touro e do buraco, domingo não é um dia ruim. Não. Esse dia “pede cachimbo”, pede reflexão (pode ser feita com um cachimbo ou não, vai de cada um), de olhar por vários ângulos, mesmo que antagônicos. Domingo é fim... ou é começo? A gente organiza as coisas da semana que passou, mas também planeja a semana que vem depois. Meio confuso. A gente para à tarde e lê um livro ou vê uma série, mas tem trabalho para entregar na segunda. Paradoxal por essência, por isso digo que é dia de refletir. Não falo necessariamente na reflexão socrática e retórica cheia de palavras e conceitos complexos que parecem trava línguas, falo de sentar e, de alguma forma, tomar um pouco de tempo para pensar no agora. Na Paulista aberta, a gente anda pelas ruas largas que viram calçadas, passa pelo parque Trianon e vê todo aquele verde quebrando o cinza. Admira a quase “floresta”, se comparada à selva de concreto que é São Paulo, coisa que não dá pra fazer na correria da semana. À tarde, antes de fechar para os pedestres (o que ocorre por volta das 19h) ainda dá pra aproveitar e andar até o Reserva Cultural ou o Cinema Belas Artes para pegar uma das últimas sessões de algum filme diferente, fugir um pouco da Hollywood que impera em outros cinemas. Não que os filmes mainstream não sejam legais, mas, de novo, domingo é dia de mudar as perspectivas. À noite, como minha avó sempre fala “é dia de pedir pizza”! Se juntar num jantarzinho rápido com a família mais próxima, conversar sobre tudo e nada por umas 2 horas e voltar antes das 22h para casa, para não atrapalhar o sono... Acho que é por isso que não vejo problema em acordar tarde nesse dia. Se o domingo é um, mas é o outro também, o tarde vira cedo e o cedo vira tarde. Depende do ângulo. Mesmo se levantando às 14h, ainda dá pra dar a volta na paulista depois do almoço. Ou não. Dá pra ler aquele livro que está esquentando a mesa de cabeceira há algumas semanas, estudar para a prova de quinta-feira, visitar a vó para um café da tarde, ou simplesmente passar o resto do dia na cama absorvendo conteúdo do facebook, instagram, twitter... o ponto é: depende do eu e do agora, muito mais do que os outros dias. De segunda a sexta tem compromisso, projetos, estudo. Sábado tem parque do Ibirapuera de manhã, almoço marcado à tarde e festa à noite. Domingo tem... o que tem domingo? Considerando que eu já vou acordar tarde, não tem nada de manhã, à tarde no máximo um almoço diferente, à noite não dá pra marcar muita coisa (além da pizza) porque tem que acordar cedo na segunda... domingo tem, bem, domingo! Aqui, caracterizo alguns dos meus compromissos usuais, de uma estudante de universidade privada que não trabalha. A perspectiva da semana e das incumbências de cada um variam de pessoa para pessoa, mas eu acredito que o conceito do domingo é, de certa forma, bem parecido para todo mundo. Um dia para ser aproveitado como dia, não como junção de afazeres. Tanto que nenhuma loja de rua abre no domingo, o horário de funcionamento do shopping encurta, a maior parte das escolas (mesmo as com aula até no sábado) reconhecem que é um dia diferente, tanto que não tem aula. É dia de descanso da rotina, da bola de neve que rola na mente pensando “o que eu preciso fazer agora?”. Não sou religiosa, mas entendo que domingo é um dia que muitas pessoas reservam para ir à missa. De certa forma, acho que o que eu quero dizer nesse texto é que domingo é dia de “ir à missa”, seja literalmente ou não. É dia de cortar aquela avalanche de produtividade, reuniões, festas, trabalho, jantar, almoço, café da manhã... acordar tarde e ir contemplar o caos completamente com sentido que é a avenida paulista, a melhor representação do próprio dia. Uma linda metáfora. Não que domingo não possa ser usado para trabalhar ou estudar, é só que ele, naturalmente e de forma muito mais explícita que os outros dias, pode ser usado para o que se quer, sem convenções fixas e determinadas, muito mais comuns na semana e mesmo no sábado. Entendo que definir o domingo é, por essência, uma tarefa difícil, exatamente por essa característica de pluralidade que ele carrega, de “inexatidão”. Descrever um dia no qual o que eu mais faço é deixar a mente ir para onde ela quiser, para o fim e para o começo ao mesmo tempo, é complicado, mas também, de alguma forma, suave. Achei paradoxos até no processo criativo desse texto. Mas creio que finalmente compreendi o que os versos da cantiga que me incomodavam na infância significam para mim. O cachimbo eu já entendia: domingo é para relaxar e pensar. O touro é a força com que me permito fazer o que quiser, seja produtivo ou não. O buraco é a passagem de uma semana para a outra. Minha única modificação viria agora: nessa onda de antagonismos, domingo não é começo nem fim, portanto a afirmação final, para mim, deveria virar um questionamento: “cabou-se o mundo?”

Quando penso em política, penso em Silenciamento

Às vezes me sinto engasgada. Como se tivesse palavras entaladas na minha garganta que eu nem mesmo sei exatamente quais são. Sinto como se essas palavras morassem no meu corpo, mas não fossem só minhas. Pesa sobre meus ombros algo que apelidei de responsabilidade social. É uma sensação tão estranha: por mais que eu fale incessantemente, sinto que ainda há tanto a ser falado. E, cada dia mais, essa carga e urgência de expressar formiga e cresce dentro de mim. Comecei ainda nova a gostar de política. Desde então, esse meu interesse já teve tantas formas. Hoje em dia, se me perguntarem, digo com desconforto: a primeira palavra que me vem quando penso em política é Silenciamento. Isso porque, ainda que eu ocupe uma posição de extremo privilégio e acesso à oportunidade, quase não vejo representação da minha existência nesse espaço. O Brasil se encontra na 161ª posição do ranking que avalia a participação de mulheres na política de 186 países – temos menos representação feminina inclusive que a Arábia Saudita, onde mulheres conquistaram o direito de dirigir apenas em 2018. As conquistas dos direitos políticos e da possibilidade de votar e de ser votada não solucionaram a dificuldade feminina de participar na política. Apenas 15% das cadeiras da Câmara de Deputados são ocupadas por mulheres. E isso não é por falta de interesse. O espaço político é tido como masculino e, mesmo quando as mulheres o ocupam, têm sua atuação dificultada. Há uma grande diferença entre silêncio e silenciamento. Sinto um nó na garganta ao afirmar que mulheres foram e são, todos os dias, politicamente silenciadas. E isso é extremamente preocupante. Inclusive dado que a variável “ser mulher” é apenas uma entre tantas outras que, interligadas ou não, dificultam a participação política. A situação fica ainda mais grave quando se analisa as variáveis de classe e raça, por exemplo. Todas as ações políticas buscam a satisfação de interesses e fins individuais ou coletivos. Elas são embasadas em opiniões, compreendem juízos de valores e princípios. São, portanto, parciais e vinculadas à posição social na qual cada agente político vive. Em uma sociedade na qual mulheres são sub-representadas na política, os interesses atendidos e tratados como “vontade geral” são masculinos. Em uma sociedade desigual, é impossível que se pense política sem que seja sob a marca do conflito. Assim, é necessário que pessoas com uma visão diferente do grupo dominante ocupem o espaço político. Para que as desigualdades sociais sejam combatidas, as experiências de diversos grupos devem ser consideradas na formulação das leis. É em meio a esse cenário desigual que sinto meu coração apertar e confirmo: ainda há tanto a ser falado. Por mim e por tantas mulheres que têm tanto a dizer sobre identidades e posições sociais tão complexas. Exteriorizar é necessário. Incentivar e ouvir a expressão também. Porque a fala tem poder. Ela ocupa e constrói a sociedade. E é justamente por isso que tentam a silenciar.

O diamante é o mineral mais duro do mundo e pode arranhar qualquer outro mineral que existe

O diamante é o mineral mais duro do mundo e pode arranhar qualquer outro mineral que existe. Ainda assim, é um pedra atraente, brilhante e muito desejada, uma pedra que ouço que é a melhor amiga de uma mulher desde que me entendo por gente. Tendo todas essas características, pode-se dizer que o diamante é belo e praticamente perfeito, não? Bom, a beleza como entendida pela sociedade obedece a um padrão específico que te engloba ou não. Assim como o diamante, a beleza é um conceito duro que arranha e corta quem tenta atingi-la, esses cortes e arranhões são de diversos tamanhos e de diversas profundidades e todos temos pelo menos um. Esses cortes geram cicatrizes físicas e emocionais que associo diretamente a inseguranças. Historicamente o significado de “beleza” e a ideia de “perfeição” já representaram tantas características diferentes, que acabo me questionando se todos os sacrifícios que fazemos realmente valem a pena. No Renascimento, o belo estava equiparado ao corpo gordo, um símbolo de riqueza. Já nos anos de 1990, o conceito de Heroin Chic exaltou a magreza extrema. Nos anos 2000 quanto mais lisos fossem os cabelos mais belos eram. Já hoje em dia, as ondas são o alvo de milhares de mulheres. Ao perceber isso, lembrei que até mesmo diamantes não são perfeitos. Para atingir a imagem que conhecemos e corresponder as nossas expectativas, a pedra bruta deve ser lapidada. Isso significa que a ideia do diamante perfeito também não é constante e pode mudar de tempos em tempos. Por isso, escolhi definir o que é beleza para mim, a fim de não perder a minha identidade nas constantes mudanças do padrão de beleza. Dessa forma, as mudanças que eu fizer em mim serão para atingir os meus próprios objetivos e não os que a sociedade busca definir que eles devem ser. Nesse sentido, penso que se for minha vontade trabalhar para mudar meu corpo, meu cabelo ou meus traços faciais devo fazer isso, mas somente para me tornar bela aos meus olhos, pois acho que não devo me conformar com que sou, e sim, amar quem sou. Para mim ser bela é isso, ser feliz e generosa comigo mesma e com aqueles que estão ao meu redor, me sentir confiante no meu corpo, mesmo que esteja tentando mudá-lo, me sentir confortável para ser eu mesma sozinha e com os outros e acima de tudo amar... amar a mim mesma, amar minha família e amar meus amigos, não só sentir, mas também agir para demonstrar esse amor. Atingir um estado de amor próprio é difícil, mas assim como o diamante sinto que nós nos lapidamos a fim de nos descobrir e quero acreditar que o resultado deste processo é forte e brilhante.

Pelos Corredores da FGV

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Raquel Guimarães. Nos textos dessa parceria buscaremos trazer as perspectivas de pessoas que moram no Rio e em SP relacionados à vivência na faculdade e fora dela. Esperamos que gostem e agradecemos a Gazeta por ter proposto esse trabalho coordenado! “Os corredores da GV em São Paulo não pareciam do tipo que deixariam saudades, pelo menos não esteticamente. São todos cinzas e sobrepostos por outros tons de cinza, limitados a decorações comemorativas de 50 anos de Fundação com fotos em preto e branco e escritos tipo linhas do tempo, e cartazes espalhados, com jargões anglicizados - tipo “think tank” - escritos em fonte azul. Falo dos corredores da EAESP, sigla para Escola de Administração de Empresas de São Paulo, que tem esse nome mesmo sendo sede, há umas boas décadas, também do curso de Administração Pública. O prédio parece ter sido composto por vários puxadinhos ao longo das décadas, que resultaram em doze andares assimétricos, cheios de portas misteriosas, que parecem não levar a lugar nenhum. Há uma ligação de apenas dois ou três degraus entre alguns dos últimos andares e elevadores que só passam por andares específicos . O térreo fica na Av. Nove de Julho – a grande ironia urbanística da Fundação Getulio Vargas de São Paulo – e o sétimo, na Rua Itapeva, com entrada até para carros. A entrada principal tem um busto enorme do J. F. Kennedy. Diria que o prédio tem cinco elevadores e meio: três são maiores e ficam no centro do prédio, um pula o primeiro andar, um é supostamente “de serviço”– uma das marcas de segregação socioeconômica da GV – e tem as paredes acolchoadas e sem a TVzinha com propagandas de rugby ou aquelas notícias de curiosidades, e o último só começa no quarto andar, e por isso foi considerado, aqui, como meio elevador. Por mais ridículo que soe, é fato que, mesmo com tantos elevadores por andar, tentar se locomover pelo prédio por meio deles é estressante e ineficiente. O sistema que rege os três principais parece ter sido bem mal feito; não que eu entenda muito sobre a programação envolvida num sistema de chamar elevadores, mas sinto que o ideal não é nem que o elevador passe reto por você, nem que cheguem dois elevadores ao mesmo tempo - e os dois eventos são bem frequentes. Além de muitos elevadores, temos muitos, mas muitos banheiros. Diferentemente dos elevadores, no entanto, eles dão conta da demanda com folga, e nos meus dois anos lá, não lembro de ter esperado uma única vez na fila – exceto talvez no do andar do Diretório Acadêmico. Os banheiros são sempre muito limpos e, pelo menos no banheiro feminino do oitavo andar, lembro de termos um espelho de corpo inteiro. Recentemente, foi inaugurado um banheiro unissex, e esse, sim, tenho que admitir que infelizmente às vezes tem mijo no chão e no assento da privada. Todo andar também tem seu filtro de água, e os filtros têm, além de uma página de Facebook já inativa de avaliação , uma fileira de copinhos plásticos ao lado. Queria poder saber quantos copos vão embora por dia. Nos horários mais calmos, aqueles bem no meio da aula, sempre parece ter duas amigas numa conversa séria, uma delas desabafando sobre alguma coisa no banco perto da água. E você pega uns 30 segundos de história sobre alguma merda que aconteceu na GVjada enquanto sua garrafinha enche, e depois vai embora sem saber o desfecho. Além de todos os banheiros e filtros, tem também muitos e muitos lances de escada, que são uma boa alternativa em relação aos elevadores, principalmente no horário de almoço. Subir e descer os lances era o meu principal exercício físico diário e, no EaD, a falta disso tem afetado consideravelmente a minha resistência aeróbica. A escada principal tem uma vista muito legal a partir do quarto andar, você vê a Av. Nove de Julho e um pedacinho do MASP. Sempre estão passando vários ônibus e, se você der muita sorte, consegue até ver aquele que você estava descendo pra ir pegar indo embora e sumindo no túnel. Do outro lado da avenida, tem um prédio residencial e, às vezes, se alguém tiver aberto as persianas, que ficam sempre fechadas, dá pra ver cenas interessantes da vida alheia acontecendo no meio da aula. Nos próprios degraus das escadas, às vezes acontecem umas cenas interessantes: passar por um conhecido de conhecidos com quem você conversou no bar uma vez e tentar dar um oi e desviar o olhar ao mesmo tempo; esbarrar em alguém que você beijou no carnaval e que não faz ideia de como cumprimentar; encontrar um professor antigo que dificilmente lembra seu nome, coisas assim. A outra escada lateral é meio express, caracol, dá pra pegar embalo num trote e descer sete andares bem rápido - confiando que não vá aparecer nenhum empresário palestrante vindo no sentido contrário –, gosto bastante dela. Pego pra chegar no DA, que é como nos referimos ao primeiro andar, já que lá é a sede do Diretório Acadêmico. Tem até algumas coisas legais. Uma mesa de sinuca, duas de pebolim, um piano com algumas teclas mudas - que gosto de tocar quando tem menos gente no fim da tarde - duas televisões que às vezes são ligadas para passar jogo de futebol ou um filme de sessão da tarde, uma televisão com PlayStation - que só vi sendo usada para Fifa - e vários sofás, que são bem macios. Eu adoro o ecossistema dos sofás do DA. Sempre tem alguém dormindo, e aí tem bastante esse embate “pessoal do violão/que fica falando alto vs. pessoal desesperado pra dormir e que depois reclama sobre o outro lado no Facebook”. Ainda assim, gosto da aceitação social acerca de dormir lá, ninguém parece julgar ou se importar muito. Sempre tem gente no computador também, e, com alguma frequência, um ou outro casal se beijando, o que, dependendo da situação, acaba sendo bonitinho ou só bem desconfortável. É fato que a quarentena nos faz sentir saudades das coisas mais estranhas, causa dúvida sobre o tempo verbal das afirmações - por exemplo, a EAESP tinha lanches chiques de “coffee break”, ou tem? Ou teve? - e, por vezes, daríamos tudo e mais um pouco estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa. As saudades do fumódromo, aparentemente o único lugar em que se pode pegar algum resquício de sol no prédio, eram esperadas; as dos cinzas dos corredores da GV, nem tanto, mas, pelo tom romantizado do texto, estão aqui".

É preciso um país inteiro para construir as boas memórias de uma criança

Enquanto estou de frente para o computador escrevendo esse artigo, tento me libertar da ideia, que eu mesma ou alguém botou em mim, de que o que tenho a dizer não é importante. Tento não me culpar por não ser capaz de me livrar dela, tem todo um sistema sendo operado desde a minha infância para calar grupos minoritários, e eu ganhei na loteria de fazer parte de vários deles enquanto espero que as futuras gerações de garotas como eu não precisem se agarrar a uma corda fininha de crença em sua capacidade. Parte dessa dificuldade de escrever, se expressar ou acreditar no valor da minha opinião é fruto de sementes plantadas entre a minha infância e pré-adolescência. Hoje, enquanto jovem adulta e tia de duas crianças, parte da minha responsabilidade com as crianças que convivo é ter cuidado com as coisas que digo e quais memórias de infância estou ajudando a criar. Tenho pensado nisso com mais frequência desde que terminei de assistir a terceira temporada de “This is us” (“Estes somos nós”, em tradução livre). A série estadunidense é um drama familiar que narra a vida de três irmãos começando com eles aos trinta e seis anos ao mesmo tempo que vai e volta no passado, e no futuro, traçando paralelos entre os acontecimentos que os afligem no mundo atual e os que permearam suas vidas há dez, vinte, trinta anos atrás. É nítido como alguns episódios tentam trazer do passado as justificativas do presente, frases que foram ouvidas ao que parece um milhão de anos atrás não foram esquecidas décadas de anos depois, e sobreviveram a rigorosa curadoria das memórias que nossa mente limitada é capaz de guardar. Tudo que a Kate, personagem principal, ouviu sobre seu corpo durante a infância foi guardado dia após dia e os comentários gordofóbicos sobreviveram a ação do tempo. E esse é só um dos exemplos que consigo lembrar e que direciona a maior parte das atitudes futuras da personagem. No entanto, de muito pouco serve que eu me preocupe em construir memórias saudáveis com as crianças a minha volta, se a outra grande parcela de adultos com as quais eles convivem direta ou indiretamente não se importam com isso. Crianças não são responsabilidade somente de seus pais ou responsáveis. Em algum nível, todos somos responsáveis por elas, não existe isso de que “Quem pariu Mateus que balance” quando o futuro do mundo também depende de como foi criada uma geração inteira. Sabe aquele seu comentário inofensivo sobre a aparência de uma criança? Parabéns! Talvez você tenha criado, e não saiba, um pequeno evento que a memória dela vai fazer questão de carregar “para sempre”. A mídia, a moda e tudo o mais que é produzido e reforça estereótipos. As decisões políticas que acentuam as desigualdades tomadas por centenas de pessoas, governantes, deputados, prefeitos que foram eleitos pelos adultos. O descaso com um um vírus que mata, desemprega, gera fome. Um abuso sexual que fica conhecido no país inteiro e mostra que a gente que é adulto tem feito pouco caso da vida de um monte de crianças que já estão aqui. Tudo isso produz uma consequência, uma memória que às vezes gruda igual chiclete na cabeça, que mostra que é preciso um país inteiro não só para construir boas lembranças de infância, mas qualidade de vida para se viver hoje.

Rotina egocêntrica de uma amante musical

Eu ouço essa música todo dia, vivendo memórias de outro tempo tal como no edifício Master levando a vida à my way. Eu vejo esse filme pra conseguir dormir, toda noite i dreamed a dream onde ele me toca, onde ele escorrega os dedos pelo meu rosto e conforta minhas lágrimas. I wanna dream. Eu abro os olhos ainda melados, uno a terra e o céu através de Iris - como na Ilíada - ela se manifesta somewhere over the rainbow, a procura do pote de ouro. Mas eu amei, não hoje, mas yesterday. Eu já gritei pra todo mundo ouvir: Stand by me amor, Say something, Wake me up... Eu ainda não desisti, eu ainda creio na nossa La vie en rose.

É tempo de desmitificar tradições inventadas!

É preciso ressignificar termos racistas no vocábulo brasileiro. É necessário ressignificar termos racistas no vocábulo brasileiro! É urgente! Muito se é dito sobre expressões e ditados populares, como se fossem a priori de tudo, frases famosas e canonizados, quase que consagradas ad eternum como tradição. Quem nunca ouviu "desde que o mundo é mundo, isso é assim"? Mas, afinal, de que mundo estamos falando? E quem decidiu que esse mundo fosse assim? Foucault cunhou a noção de que não há natureza nos objetos culturais e intelectuais, o que significa que fenômenos culturais passaram a ser entendidos como resultado de um processo de construção ao invés de detentores de conceitos de facto e origem. A vida social moderna, nesse sentido, traz consigo diversas pseudo-crenças simbólicas, nas quais uma delas acabou sendo a devoção às tradições inventadas. "Tradição inventada" que, para Eric Hobsbawm, se trata de um conceito que abarca reações e situações novas, sendo possível assumir e formar referência a situações anteriores, ou estabelecer seu próprio passado através da repetição. Então inventar tradições, criar rituais e regras que acabam por traçar uma continuidade, enfatiza a canonização através e pelo dispositivo tempo. O ponto que, aqui, consideramos central está na manutenção destas tradições inventadas, na predominância de um modelo político-social, além de um determinado sistema estrutural e estruturante que se reflete, inclusive, na linguagem popular. A linguagem é, sobretudo, um sistema de poder! Tudo é linguagem e quem ou qual grupo a detém, de forma sistematizada bem como organizada, detém o poder. É preciso, necessário e urgente descolonizar e decolonizar o pensamento social brasileiro - assim como nossas expressões coloquiais, nosso vocabulário - imbuído de tradições inventadas e expressões, que são como são "desde que o mundo é mundo". A linguagem pode criar e recriar aspectos que contribuem para a manutenção do modelo que se estabeleceu no Brasil República: uma sociedade pseudo-moderna forjada e sustentada na mão de obra escrava. Econômica, política e socialmente construída sob dominação, bem como, subalternização de corpos pretos. Uma vez que as mesmas expressões sociais relacionadas ao Branco são positivas e ao Negro são ditas negativas, fica clara a forma como as engrenagens deste sistema funcionam para controle destes corpos pretos - atuando sobre o imaginário social, interna e externamente. O maior mecanismo de controle está no pensamento, o que nos leva a necessidade de descolonizar o pensamento e assim decolonizar as formas de conhecimento, a começar pela ressignificação de expressões racistas populares. Expressões como: inveja branca, cor do pecado, mercado negro, lista negra, mulata, denegrir, a coisa tá ficando preta, ovelha negra e outras, são expressões pejorativas que ratificam a positividade atribuída ao branco e a negatividade ao negro. Orientando a articulação, tal qual a movimentação do povo preto de retomada e luta, o Coletivo Ovelha Negra da FGV, busca ressignificar essa expressão que foi outrora fundamentada no imaginário social brasileiro racista e suas distinções a partir de uma perspectiva negativa. Assim faremos para que nos seja disponível usar 'negra' em reverência à negritude, à cultura negra, à ancestralidade e todos os sinônimos coerentes com a etnicidade do nosso povo! O certo é mercado ILEGAL; lista do ódio; denegrir é bom, porque tornar-se negro é libertar-se; ser a ovelha negra é equivalente a se libertar; e se a coisa tá ficando preta, é porque tá ficando maravilhoso!

Crescer

Tem uns anos que não consigo me contentar muito bem com o que o dicionário define como crescer. Dizem que é sinônimo de aumentar, de progredir, mas sei não. Comecei a pensar em crescer como o ato de ressignificar. Não é nada de extraordinário, nem de transcedência espiritual, mas acho que acontece com todo mundo, e aí a gente pode dizer que é definição de algo, né? Eu digo ressignificar como passar a entender algumas coisas como outras, sem grandes floreios ou investigações acadêmicas, mas de imediato, aquilo que os nossos neurônios produzem dando de cara com algo. A ideia de felicidade, por exemplo. Quando era pequena felicidade era abrir um sorriso banguela para ver minha avó chegando para fazer visita, saber que o riso dela ia ser a trilha sonora da minha tarde, com pão de queijo, guaraná, colo dela, da minha tia, e meus irmãos todos juntos. Eu me equilibrava no sofá perto da janela da sala e mostrava toda a minha falta de dentes quando eles chegavam, e acredite, não existia Natal, Páscoa ou Disney que fizesse uma criança tão feliz. Com uns 3 ou 4 anos, eu achava que saudade era sentir falta da minha mãe quando estava na escolinha, ou de uma história de princesas, fadas, leões ou índios quando acabava o livro. Hoje, acho que saudade parece mais com quando o peito abre e eu lembro do abraço das pessoas que foram embora, e, por um segundo, parece que o mundo faz sentido de novo, porque aquela ternura invadiu meu peito em algum momento, mas em seguida preciso me dar conta que o tempo não entende como levar abraços deixa a gente só. Confesso que até uns anos mais velha, talvez 8 ou 9, monstro para mim era uma criatura horrível que morava debaixo da cama, e podia fazer quanta maldade quisesse se desligasse a luz. A sorte era que o interruptor funcionava muito bem, e sempre podia me socorrer com aquela luminosidade - ou o amanhecer mesmo. Agora é diferente: monstro para mim é o que muita gente considera Presidente, e pensar nisso é pior, não só porque agora é real e não vai embora se ligo a luz, mas porque é adorado por quem também devia sentir medo. Tem muito tempo que comecei a ouvir falar de tempo. Isso vai de “faltam 5 minutos para a escola e você não está pronta!” até ver uns cabelos brancos a mais nas pessoas, acabar inúmeras histórias, ou ter que dizer tchau mais vezes do que gostaria. O interessante é que dentro disso tudo, tem uma coisa que nunca foi ressignificada - quer dizer, talvez tenha mudado de perspectiva, mas se parar para prestar atenção, a coisa continua a mesma. É que felicidade para mim é chegar em casa depois de um dia de estudo, trabalho, decepções, música do metrô, culpa, ansiedade, calçada esburacada, rua alagada e ABNT para ver o sorriso banguela da minha avó, e ter plena certeza de que felicidade, para mim, continua a mesma coisa.

Manifesto Pelo Fim do Distanciamento Social

Ao contrário do que possa sugerir a interpretação imediata do título, não se faz aqui apologia ao desrespeito às orientações das autoridades sanitárias. Nada obstante, defendo o fim tardio de um distanciamento simbólico, estrutural e estruturante de nossa sociedade, que traça fronteiras intransponíveis entre seus grupos sociais. A construção histórica de um “eu” distante do “outro”. A ironia é que, intimados a nos afastar 2 metros do próximo ser humano, a restrição nos parece quase torturante. Mas, anestesiados, despercebemos que estamos cada vez mais afastados uns dos outros. Os sintomas dessa ética da indiferença são escancarados pela pandemia. As filas quilométricas de desassistidos. A vulnerabilidade dos invisíveis. A tensão entre realidades sociais contrapostas estampa os noticiários em episódios deploráveis de intolerância. As mortes adquirem a frieza da estatística. Enquanto uns se desesperam para não morrer de tédio, outros se desesperam para não morrer. Privilégio é ter escolhas. Evidente – ou deveria ser – que a única estratégia vencedora para opor a pandemia é a coesão social. Não há espaço para individualismo. É preciso colaborar, coordenar e agir pela coletividade. Para sair dessa, é preciso confiar na empatia dos outros. Defino empatia como a ponte mínima de compreensão entre realidades distintas. Ponte que intermedeia o fluxo entre margens – e mesmo realidades – opostas. Sem empatia, estamos fadados a enxergar o mundo apenas do nosso lado da margem, um retrato incompleto que não faz jus à riqueza de existências que nos cercam. Se deixarmos de fora a empatia do “novo normal”, este será tão novo quanto nós somos. A anestesia da indiferença sempre terá como legado a fragmentação, a polarização, a exclusão. Para forjar um novo normal, é preciso olhar para os infinitos Brasis que nos permeiam, aproximá-los e não tolerar mais normalizar os velhos absurdos quotidianos. Jamais compreenderemos, em sua plenitude, o que é ser o outro, o que é viver a sua realidade. Afinal, todo ponto de vista é a vista de um ponto. Talvez a menor distância entre dois pontos seja ainda mais curta que a reta. Basta escutar. Basta sentir.

sentimentos de 30 dias quarentenada

Já faz tempo que quero escrever alguma coisa que eu não sei o que é. Nessas semanas confinada, longe de tudo que me dá vida e completa, me vi diante da necessidade de dar vida a mim mesma... Meus pais fizeram aniversário no meio do furacão, e eu aprendi a comemorar mesmo tendo vontade de chorar. Briguei com meu pai, briguei comigo mesma. Ainda sem certeza de nada, sem saber onde buscar alegria, me vi afogada de um mar de gente que não tem nada a ver comigo. Num campo minado de “falo ou não falo”, as vozes se calaram dentro de mim e o mundo me encheu de vazio. Fiz aniversário no meio do furacão e ainda não senti vontade de falar. De tantos vazios me preencheram nesses dias..... Vazio dos outros e vazio de mim. Volto pra cá e me perco no que nunca fui. Me perco nos hábitos, nas manias, no jeito de falar, de me expressar, de sentir... Me perco no que eles são e os confundo com o que sou. Me perco no tempo, no que parece eterno e no que não quero que passe nunca. Por alguns minutinhos me perco deles – que é mesmo de quem às vezes quero me perder. No fundo, só sinto medo de me perder de mim. Quando eu ainda não tinha ideia de quem eu era, uma pessoa me apresentou um mundo novo pela música. Músicas que eu aprendi a sentir e que, de tanto sentir, acabei me reconhecendo dentro delas. Nessa época eu nem me conhecia; não tinha ideia de quem eu era. Tem vezes que nem eu entendo, mas tem essas coisas que pulsam tão forte dentro de mim.... Nem sei o que mais eu poderia ser senão tudo que essas pequenas coisinhas me fizeram descobrir que sou tanto. Nem era sobre isso que queria falar, mas acabei me lembrando porque hoje se foi um dos grandiosos responsáveis por essas “coisas pequenas” que me fizeram descobrir em mim mesma a possibilidade de um Ser tão grande... Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso.. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e pela lei natural dos encontros eu deixo e recebo um TANTO! Se uma parte não parece ter a ver com a outra, agora nesse finalzinho eu faço questão de conectá-las: nessa quarentena, com um medo doído de me perder, quando sinto que estou todos os dias tão distante de tudo que eu sou, me entrego pras músicas que me fizeram descobrir a grandiosidade do que eu podia me tornar – quando, lá atrás, eu ainda pensava que não era nada. Me entrego pros braços dos artistas que eu amo porque eles fizeram a ponte entre o que sou neste momento e a grandiosidade do que posso ser em todos os próximos dias. A música brasileira me resgata do limbo do medo, me leva pra lugares em que eu sei exatamente o que não sou e o que quero ser mais e mais. Talvez ainda não faça sentido pra você hahaha mas pra mim faz! A música brasileira me transforma, me dá forças – faça quarentena ou faça liberdade – pra dar vida a mim mesma, me deixa não precisar dar vida sozinha.. porque a música brasileira alimenta, por ela mesma, a minha vida! Se eu fosse vocês, alimentava minha alma disso também. Amor pela arte, amor pela vida e por tudo que ainda posso descobrir que quero ser!

Sobre isolamento

Os seres humanos, sujeitos sociais, constroem famílias, comunidades e laços afetivos de modo a evitar aquilo que mais temem: a solidão. Nesse sentido, a ideia do isolamento, historicamente, tem sido utilizada como castigo: o exílio e a prisão, por exemplo. Contudo, diante do cenário corrente, isolar-se é sinônimo de salvação. Não obstante, ainda que a integridade física daqueles que cumprem a quarentena tenha sido mantida, os efeitos psicológicos do isolamento são sentidos. Nesse texto, trago à luz a minha visão sobre quase 5 meses de quarentena. Para entender o que penso agora é preciso voltar ao passado recente. No dia 4 de julho de 2019, eu enviei um texto, intitulado de “Manifesto pelo acaso”, para ser publicado na Revista Ágora. Nele, eu escrevia sobre as imprevisibilidades da vida e nossa incapacidade de controlar acontecimentos cotidianos. Naquele momento, o texto fazia sentido: tinha acabado de passar pelo primeiro período de faculdade e mudanças grandes aconteceram em minha vida, encarava com positividade a incerteza. Nessa ótica, apesar de não ter nenhuma noção do que iria acontecer com o mundo esse ano, estava otimista. Mesmo não sendo supersticioso, vi, próximo ao Réveillon, junto com as minhas amigas, as melhores cores de roupas para boas energias em 2020, pesquisamos as previsões de nossos signos e, até, procuramos a numerologia. Tudo isso para nada! Não que qualquer uma dessas análises tenha efetiva capacidade de prever o que acontecerá, mas em nenhuma hipótese eu, ou as previsões, pensamos que haveria uma pandemia no mundo. Já nesse ano, os primeiros dias foram conturbados, a morte de um oficial iraniano e a tensão de um míssil que atingiu uma base estadunidense no Iraque. Logo depois, houve os incêndios australianos. Em seguida, a crise água no Rio de Janeiro. Finalmente, alguns momentos depois, o coronavírus se espalhou pelo mundo. À época, entendia a crise mundial e esperava que seríamos atingidos, mas não imaginava a ingerência e a escala que o fenômeno tomaria no país. Nesse panorama, dia 13 de março foi o último meu último dia de aulas presenciais. Achava que em questão de meses voltaríamos para a faculdade... Agora, já no quarto período, continuamos online. Obviamente, é a medida correta: não gerar aglomeração e preservar a vida de funcionários, docentes e discentes. No entanto, como afirmado anteriormente, somos seres sociais. Certamente diversas pessoas têm questões muito mais difíceis e complexas para enfrentar no cotidiano – tenho noção do meu privilégio. Mas a maioria dos meus amigos e eu temos por volta de 20 anos, estamos no início das nossas vidas de jovem adulto, queremos viver, sair, encontrar uns aos outros e nada disso estava nos nossos planos, nos de ninguém. Notícias cada vez piores, o isolamento e a não-previsão de quando tudo passará, afetam o psicológico. Nesse momento, encontro-me mais acostumado com a ideia de ficar em casa e matar a saudade dos amigos por meios digitais, lidamos do jeito que conseguimos. Ainda que a situação seja chata para muitos, é dramática para milhares de famílias que têm de lidar com situações de vida ou morte. Portanto, é preciso botar em perspectiva os problemas e se cuidar para não contribuir para o agravamento do cenário presente. Ainda que eu esteja escrevendo isso em agosto, tenho convicção de que muitos episódios se desenrolarão a partir do momento atual, de que 2020 será um ano lembrado na História e de que será um período transformador do comportamento de uma geração.

ISSN: 2447-2662
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