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Solidão pandêmica

Texto: Júlia Mendonça.

Oito meses. Oito meses desde que a solidão começou, desde que o mundo acabou, desde meu último dia. Oito meses. Oito meses desde o último encontro, o último abraço, o começo. Oito meses. Não são oito dias, nem oito semanas, mas felizmente também não são oito anos ou oito décadas. Oito meses que passaram tão rápido como o vento que leva as folhas caídas. Oito meses que eu dormi e somente agora, acordei. Oito meses desde meu último incrível mês. A calmaria antes da turbulência. Não foi fácil. Acumulo mensagens não lidas, 145 conversas, para ser mais exata. Acumulo ligações, conversas, novidades e histórias. Acumulo oito meses de uma vida perdida, em branco. Oito meses na cama, com o microfone desligado e a câmera ausente. Oito meses encarando o teto branco, respirando fundo, e pensando. Estou viva. Tenho que sobreviver. Oito meses dormindo, hibernando, com minha alma longe de mim e longe de meu próprio corpo. Oito meses. Estive ausente por oito meses. Não me lembro do que aprendi, das conversas que tive, do que fiz. Lembro-me de estar em modo automático, existindo e lutando contra mim mesma. Lembro de ligar a televisão, todas as noites, e ver os números crescendo. Lembro da negligência de meus líderes. Lembro de minha solidão, do desespero, da ausência. Lembro de ir além do que o pedido, e de isolar não só a mim, mas a minha própria alma de todas as outras. Hoje, acordei. Acordei, porque voltei. Voltei a cidade que me fez feliz, e a qual nunca poderia me dar um dia de tristeza. Acordei depois de meses de tratamento profissional. Acordei, e vi. Renasci. Vi as mensagens, vi as perguntas, as novidades, vi os “oi, você está bem?”, vi sinais de vida. A pandemia não acabou, nada acabou, e talvez esteja longe do fim. Mas eu? Eu carrego no peito o sentimento de sobrevivência, o alívio de saber que as coisas não terminaram e que não foi o fim do mundo. Eu carrego comigo sinais de esperança e dias de dor, de luto, de tristeza. Mas carrego também comigo a felicidade ao saber que sobrevivi e a força que me manteve viva. E quando me perguntarem “Ei, o que você fez durante a pandemia?” Eu vou te olhar feliz e dizer “Eu? Eu sobrevivi”.


ISSN: 2447-2662
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