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Saudade

O texto da Coluna Semanal de hoje é sobre saudade e foi escrito por Bernardo Rubião. O texto aborda o potencial de transformação do sentir e tange o tempo, o amor e a solidão. O que é esse sentimento sem explícita explicação? Já dizia Mário Quintana no poema Presença: "É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas". Confira-o abaixo:


CAPÍTULO I – SAUDADE


Saudade é a filha caçula da comunhão entre o amor e a solidão. Irmã da melancolia, talvez uma prima distante do medo. Saudade nasce de uma relação. Se acumula como energia potencial ao passo que cresce e transborda-se de amar. A chama inflama. Arde. Aquece. Vive-se e divide-se para se recriar. Expande-se como uma estrela a nascer e morrer.


Bem que os físicos diziam que as suas leis eram universais. Quando se ama tanto, de se contrair e apertar o peito que no coração vive; quando se existe tanto amor para dar que se exaure de onde criar; quando se falta material para que o nosso coração possa transformar qualquer coisa em amor; hei de se comprimir em tanto que dói. E dói porque não se pode mais crescer. Como uma estrela que há de brilhar cada vez mais e mais, o amor há de se acabar. Não acaba por vontade própria; mas por tanto arder em chamas simplesmente acabou. Numa tão linda supernova transformou-se de Afrodite para um só Hades. Sozinho. Só.


Se o amor é uma estrela e a solidão é um buraco negro o que será que os físicos de plantão chamariam a saudade?


Dou meu pitaco.


Saudade é um vazio que não sabemos preencher. Saudade é a palavra que os germânicos não sabem traduzir. Saudade é o momento depois do amor, mas antes da solidão. A saudade depende do amor. Do prazer. De momentos felizes. Sente-se muito e explica-se pouco. A saudade é inexplicável, não se mede, mas tentamos contar. A saudade é.


A saudade é o tempo. E o tempo não se explica. O tempo é.


Temos saudade, mas ela passa. E se renova – amém. A saudade de hoje não é a de amanhã. O tempo passa, e a saudade também. Só o amor – ah, o amor. Só ele não passa. Ele se transforma. E o tempo. E a saudade. E tudo. Tudo passa.