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Quarentena

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Laura Kirsztajn.

No dia 26 de fevereiro de 2020, foi reportado o primeiro caso de COVID-19 no Brasil. Em 16 de março, iniciaram-se as medidas de distanciamento social em São Paulo, dentre elas a quarentena. Algumas semanas antes de tudo isso, um dos meus professores havia comentado conosco a possibilidade de as aulas serem online, porque já escutávamos as histórias na China e na Itália, então era questão de tempo – mas quando? E ficamos nesse “quando”, munidos pela incerteza de que não havia casos confirmados, com dezenas de planos para o futuro.


A confirmação do primeiro caso foi na véspera da festa de aniversário do meu amigo, e eu me perguntava: eu vou para lá? Enquanto isso, pessoas choravam de tristeza na GV (especialmente no Sublepi, um cantinho especial de descanso na Escola de Direito, em que os alunos não precisam ser alunos, só gente), outras só ficavam meio frustradas quanto ao cancelamento das festas, das suas comemorações, competições, viagens, formaturas. Algumas, como eu, ficavam irritadas com o drama pessoal sendo colocado acima de um problema mundial. De qualquer modo, a GV deu uma semana para estruturar as aulas online, e eu sou incapaz de lembrar o que fiz nessa semana sem atividades, porque foi uma mistura de “não vou para a faculdade por causa da greve” sem greve e especulações sobre o quão temporário isso seria: três semanas, três meses, até o final do semestre? Ninguém esperava isso.


Aulas à distância. Depois de fazer uma eletiva sobre Ensino do Direito, meu posicionamento era simples: EAD não funciona, é um pesadelo, um monstro, se pudesse eu extinguiria. O que eu não esperava é que eu teria que fazer EAD contra a minha vontade, no meu último ano do curso de Direito. Minha rotina se desdobrou completamente e eu percebi que até meus professores poderiam visualizar o caos do meu quarto, do meu bairro barulhento e cheio de ventania, a instabilidade da minha internet e o alcance vocal dos meus pais. Coisas que antes você mantinha em casa, e podia deixar lá quando saísse para a GV, mas que agora tem que dar conta simultaneamente. O lar ficou menos confortável, menos caseiro, pelo menos enquanto o Zoom estivesse funcionando¹.


Como estou no último ano, faço apenas eletivas, por isso escolhi com carinho as minhas disciplinas. Minhas experiências não são universalizáveis, especialmente para quem acabou com os professores mais severos, dependendo daquela matéria obrigatória para não repetir o semestre. É um outro peso. Mesmo assim, eu sou aquela aluna que chamam de... chata. Eu gosto de fazer parte da aula, ainda que isso não me dê nota, como se tivesse a obrigação moral de ter um ótimo desempenho e fazer o professor feliz.


Por isso, precisei desenvolver algumas habilidades que nunca considerei: como levantar a mão no Zoom antes de outras 10 pessoas na sala; como não surtar com o medo de o áudio abrir sem eu perceber; como debater com pessoas que você não vê o rosto; como fazer um trabalho em grupo com alguém com quem você só tem contato graças ao Whatsapp, e que pode simplesmente não visualizar mensagens e você nunca mais vai ter notícia da existência; como comer chocolate discretamente durante a aula; como escutar o professor falando enquanto acontece um pancadão no seu bairro; como acompanhar o chat do Zoom enquanto escuta os outros falarem. Como lidar com o fato de que podem ter inúmeras pessoas olhando para o seu rosto às 7h da manhã, ou ninguém, porque você não tem ideia de quem te vê e quem te ignora.


Nunca pensei que fosse reclamar de não precisar acordar às 5h45 para ir para a faculdade. Escolher a roupa, sair correndo com a possibilidade de esquecer algo importante em casa. Chegar na faculdade e rezar para abrirem a cantina no horário certo, para comprar um pão de queijo antes da aula. Esse processo de horas e diversos músculos trabalhando se transformou no meu despertador tocando 30min antes da aula começar, e sendo adiado mais alguns minutos, até eu tomar vergonha na cara e me deslocar para o banheiro, uns 5 metros de distância da cama, e para a escrivaninha, a 70 centímetros. Foi nessa enrolação para levantar que eu percebi que meu computador não é tão rápido assim para entrar no Zoom. Em poucas semanas esse negócio de “botar uma roupa normal” caiu por terra, e as pessoas puderam conhecer meus pijamas.


Precisei desenvolver a habilidade de ficar desperta em menos de 10 minutos, coisa que eu fazia durante horas ao longo do caminho da minha casa para a faculdade, enquanto comia pão de queijo com capuccino e lia os textos do dia. Curiosidade: ainda não tenho essa habilidade; em quatro anos de curso eu quase nunca me atrasei, agora, consegui a audácia de me atrasar para a aula EAD (trânsito, né?), e até o momento, com mais de seis meses nessa quarentena, não posso dizer que melhorei meu timing de despertar. Nos primeiros 20 min de aula, eu poderia bem ser uma boneca realista, que dá “bom dia”.


Apesar de tudo (o que inclui muita coisa), minha quarentena teve bons momentos: participei da Olimpíada Nacional de História do Brasil, comecei a ter aulas de russo, fiz uma aula de um curso gratuito de Harvard, iniciei um clube para discutir filmes semanalmente, realizei atendimentos jurídicos, fortaleci amizades, escrevi artigos, participei de aulas e debates, escutei e li “eu te amo”. Defendi meu TCC, que foi aprovado, apesar de eu ter vivenciado algo novo, que não era apenas o habitual medo da banca: o medo de a internet cair durante a defesa.


Mas eu não gosto dessa romantização sobre “veja só, não há só coisas ruins nesse desastre aqui, vamos tirar a beleza de uma pandemia, os aprendizados da quarentena”; minha suposta produtividade e todas essas descobertas estão longe de superarem ou apaziguarem essa crise que atinge nosso país. Com 133 mil mortos, até onde sei, e mais tantos sofrendo por fome, desemprego, falta de moradia, sem suas terras, na pura negligência do Estado. A quarentena sem dúvida me propiciou uma autodescoberta, uma relação completamente distinta com meu corpo e minha mente, mas tudo isso pode ser feito fora desse contexto. Eu me recuso a projetar a minha individualidade tão longe assim. Prefiro ser uma formiguinha insignificante, o que não é o pensamento mais incentivado para estudantes de Direito, que se consideram deuses que mudarão o país (geralmente para pior, só que eles não acreditam nisso, especialmente os punitivistas).


Aos poucos, o EAD foi incorporado aos nossos hábitos, e algumas modificações foram feitas para que isso pudesse melhorar. Professores passaram a dar 10min de intervalo durante a aula, foi dada ênfase às atividades de discussão em grupo nos breakout rooms do Zoom, e alguns se deram conta de que 40 alunos apresentarem seus trabalhos em um mesmo dia, dependendo da conexão de internet de cada um deles, não daria muito certo. No segundo semestre, a escola de Direito estendeu o período letivo, para que uma semana por mês não tivesse aula e os professores utilizassem esses dias para adaptar as metodologias, enquanto os alunos dão uma pausa na constante exposição à tela.


É difícil prever o que vai ser de uma aula online: quantos vão ligar as câmeras? E se o Zoom da pessoa travar sucessivamente? O link vai parar de funcionar? Nossas experiências humanas, que acabam misturadas entre corpos habitando uma sala de aula, agora são partilhadas entre caixinhas das redes sociais: o grupo de Whatsapp dos amigos, do estágio, do trabalho em grupo X, Y e Z, as atualizações nos stories do Instagram, publicações pelo Facebook, enfim, qualquer espaço de expressão que não exija proximidade física. Se você não gostava dessa existência conectada, agora é praticamente obrigado a existir dentro dela.


Ainda estamos nesse estado de não saber bem o que pode acontecer amanhã, e quando poderemos nos rever, abraçar, olhar os outros nos olhos enquanto eles dão uma palestrinha na discussão em sala de aula, conversar com o professor depois de a aula acabar (sem ser bloqueado pelo aviso do Zoom de que o host encerrou a reunião). Ansiamos por coisas simples como ficar no Sublepi deitados, sendo completamente inúteis para o mundo, só olhando para o teto ou para o céu, ao lado dos nossos amigos, sem precisarmos trocar quaisquer palavras, mantendo apenas a companhia física. Eu não quero um “novo normal”, não precisamos de algo normal, porque nossa normalidade também não é muito boa. Precisamos apenas de um país que não seja um constante alvo de tragédias – o COVID-19 é apenas uma delas. Quando que isso vai terminar?


¹Falei um pouco do caos do lar neste texto para a Gazeta Vargas: Lar, Caótico Lar, uma releitura da vida universitária em tempos de pandemia. Disponível em: https://www.gazetavargasfgv.com/post/lar-ca%C3%B3tico-lar-uma-releitura-da-vida-universit%C3%A1ria-em-tempos-de-pandemia

ISSN: 2447-2662
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