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Quando penso em política, penso em Silenciamento


Às vezes me sinto engasgada. Como se tivesse palavras entaladas na minha garganta que eu nem mesmo sei exatamente quais são. Sinto como se essas palavras morassem no meu corpo, mas não fossem só minhas. Pesa sobre meus ombros algo que apelidei de responsabilidade social. É uma sensação tão estranha: por mais que eu fale incessantemente, sinto que ainda há tanto a ser falado. E, cada dia mais, essa carga e urgência de expressar formiga e cresce dentro de mim.


Comecei ainda nova a gostar de política. Desde então, esse meu interesse já teve tantas formas. Hoje em dia, se me perguntarem, digo com desconforto: a primeira palavra que me vem quando penso em política é Silenciamento. Isso porque, ainda que eu ocupe uma posição de extremo privilégio e acesso à oportunidade, quase não vejo representação da minha existência nesse espaço. O Brasil se encontra na 161ª posição do ranking que avalia a participação de mulheres na política de 186 países – temos menos representação feminina inclusive que a Arábia Saudita, onde mulheres conquistaram o direito de dirigir apenas em 2018.


As conquistas dos direitos políticos e da possibilidade de votar e de ser votada não solucionaram a dificuldade feminina de participar na política. Apenas 15% das cadeiras da Câmara de Deputados são ocupadas por mulheres. E isso não é por falta de interesse. O espaço político é tido como masculino e, mesmo quando as mulheres o ocupam, têm sua atuação dificultada. Há uma grande diferença entre silêncio e silenciamento. Sinto um nó na garganta ao afirmar que mulheres foram e são, todos os dias, politicamente silenciadas.


E isso é extremamente preocupante. Inclusive dado que a variável “ser mulher” é apenas uma entre tantas outras que, interligadas ou não, dificultam a participação política. A situação fica ainda mais grave quando se analisa as variáveis de classe e raça, por exemplo.


Todas as ações políticas buscam a satisfação de interesses e fins individuais ou coletivos. Elas são embasadas em opiniões, compreendem juízos de valores e princípios. São, portanto, parciais e vinculadas à posição social na qual cada agente político vive. Em uma sociedade na qual mulheres são sub-representadas na política, os interesses atendidos e tratados como “vontade geral” são masculinos. Em uma sociedade desigual, é impossível que se pense política sem que seja sob a marca do conflito. Assim, é necessário que pessoas com uma visão diferente do grupo dominante ocupem o espaço político. Para que as desigualdades sociais sejam combatidas, as experiências de diversos grupos devem ser consideradas na formulação das leis.


É em meio a esse cenário desigual que sinto meu coração apertar e confirmo: ainda há tanto a ser falado. Por mim e por tantas mulheres que têm tanto a dizer sobre identidades e posições sociais tão complexas. Exteriorizar é necessário. Incentivar e ouvir a expressão também. Porque a fala tem poder. Ela ocupa e constrói a sociedade. E é justamente por isso que tentam a silenciar.


ISSN: 2447-2662
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