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Pelos Corredores da FGV

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Raquel Guimarães.

Nos textos dessa parceria buscaremos trazer as perspectivas de pessoas que moram no Rio e em SP relacionados à vivência na faculdade e fora dela. Esperamos que gostem e agradecemos a Gazeta por ter proposto esse trabalho coordenado!


“Os corredores da GV em São Paulo não pareciam do tipo que deixariam saudades, pelo menos não esteticamente. São todos cinzas e sobrepostos por outros tons de cinza, limitados a decorações comemorativas de 50 anos de Fundação com fotos em preto e branco e escritos tipo linhas do tempo, e cartazes espalhados, com jargões anglicizados - tipo “think tank” - escritos em fonte azul.


Falo dos corredores da EAESP, sigla para Escola de Administração de Empresas de São Paulo, que tem esse nome mesmo sendo sede, há umas boas décadas, também do curso de Administração Pública. O prédio parece ter sido composto por vários puxadinhos ao longo das décadas, que resultaram em doze andares assimétricos, cheios de portas misteriosas, que parecem não levar a lugar nenhum. Há uma ligação de apenas dois ou três degraus entre alguns dos últimos andares e elevadores que só passam por andares específicos . O térreo fica na Av. Nove de Julho – a grande ironia urbanística da Fundação Getulio Vargas de São Paulo – e o sétimo, na Rua Itapeva, com entrada até para carros. A entrada principal tem um busto enorme do J. F. Kennedy.


Diria que o prédio tem cinco elevadores e meio: três são maiores e ficam no centro do prédio, um pula o primeiro andar, um é supostamente “de serviço”– uma das marcas de segregação socioeconômica da GV – e tem as paredes acolchoadas e sem a TVzinha com propagandas de rugby ou aquelas notícias de curiosidades, e o último só começa no quarto andar, e por isso foi considerado, aqui, como meio elevador. Por mais ridículo que soe, é fato que, mesmo com tantos elevadores por andar, tentar se locomover pelo prédio por meio deles é estressante e ineficiente. O sistema que rege os três principais parece ter sido bem mal feito; não que eu entenda muito sobre a programação envolvida num sistema de chamar elevadores, mas sinto que o ideal não é nem que o elevador passe reto por você, nem que cheguem dois elevadores ao mesmo tempo - e os dois eventos são bem frequentes.


Além de muitos elevadores, temos muitos, mas muitos banheiros. Diferentemente dos elevadores, no entanto, eles dão conta da demanda com folga, e nos meus dois anos lá, não lembro de ter esperado uma única vez na fila – exceto talvez no do andar do Diretório Acadêmico. Os banheiros são sempre muito limpos e, pelo menos no banheiro feminino do oitavo andar, lembro de termos um espelho de corpo inteiro. Recentemente, foi inaugurado um banheiro unissex, e esse, sim, tenho que admitir que infelizmente às vezes tem mijo no chão e no assento da privada.


Todo andar também tem seu filtro de água, e os filtros têm, além de uma página de Facebook já inativa de avaliação , uma fileira de copinhos plásticos ao lado. Queria poder saber quantos copos vão embora por dia. Nos horários mais calmos, aqueles bem no meio da aula, sempre parece ter duas amigas numa conversa séria, uma delas desabafando sobre alguma coisa no banco perto da água. E você pega uns 30 segundos de história sobre alguma merda que aconteceu na GVjada enquanto sua garrafinha enche, e depois vai embora sem saber o desfecho.


Além de todos os banheiros e filtros, tem também muitos e muitos lances de escada, que são uma boa alternativa em relação aos elevadores, principalmente no horário de almoço. Subir e descer os lances era o meu principal exercício físico diário e, no EaD, a falta disso tem afetado consideravelmente a minha resistência aeróbica.


A escada principal tem uma vista muito legal a partir do quarto andar, você vê a Av. Nove de Julho e um pedacinho do MASP. Sempre estão passando vários ônibus e, se você der muita sorte, consegue até ver aquele que você estava descendo pra ir pegar indo embora e sumindo no túnel. Do outro lado da avenida, tem um prédio residencial e, às vezes, se alguém tiver aberto as persianas, que ficam sempre fechadas, dá pra ver cenas interessantes da vida alheia acontecendo no meio da aula. Nos próprios degraus das escadas, às vezes acontecem umas cenas interessantes: passar por um conhecido de conhecidos com quem você conversou no bar uma vez e tentar dar um oi e desviar o olhar ao mesmo tempo; esbarrar em alguém que você beijou no carnaval e que não faz ideia de como cumprimentar; encontrar um professor antigo que dificilmente lembra seu nome, coisas assim.


A outra escada lateral é meio express, caracol, dá pra pegar embalo num trote e descer sete andares bem rápido - confiando que não vá aparecer nenhum empresário palestrante vindo no sentido contrário –, gosto bastante dela. Pego pra chegar no DA, que é como nos referimos ao primeiro andar, já que lá é a sede do Diretório Acadêmico. Tem até algumas coisas legais. Uma mesa de sinuca, duas de pebolim, um piano com algumas teclas mudas - que gosto de tocar quando tem menos gente no fim da tarde - duas televisões que às vezes são ligadas para passar jogo de futebol ou um filme de sessão da tarde, uma televisão com PlayStation - que só vi sendo usada para Fifa - e vários sofás, que são bem macios.


Eu adoro o ecossistema dos sofás do DA. Sempre tem alguém dormindo, e aí tem bastante esse embate “pessoal do violão/que fica falando alto vs. pessoal desesperado pra dormir e que depois reclama sobre o outro lado no Facebook”. Ainda assim, gosto da aceitação social acerca de dormir lá, ninguém parece julgar ou se importar muito. Sempre tem gente no computador também, e, com alguma frequência, um ou outro casal se beijando, o que, dependendo da situação, acaba sendo bonitinho ou só bem desconfortável.


É fato que a quarentena nos faz sentir saudades das coisas mais estranhas, causa dúvida sobre o tempo verbal das afirmações - por exemplo, a EAESP tinha lanches chiques de “coffee break”, ou tem? Ou teve? - e, por vezes, daríamos tudo e mais um pouco estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa. As saudades do fumódromo, aparentemente o único lugar em que se pode pegar algum resquício de sol no prédio, eram esperadas; as dos cinzas dos corredores da GV, nem tanto, mas, pelo tom romantizado do texto, estão aqui".

ISSN: 2447-2662
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