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Divisão Sexual (e Política) do Trabalho


A pandemia do COVID-19 torna necessárias mudanças bruscas na rotina mundial. Grande parte da população adota medidas restritivas para desacelerar a transmissão do vírus. Entre essas medidas, está a recomendação de quem tem a possibilidade de ficar dentro de casa o faça. Assim, a atenção que antes era direcionada ao ambiente externo se redireciona para o interno. Aspectos que, na pressa do dia-a-dia, eram naturalizados e despercebidos, inevitavelmente, ganham foco. A convivência intensa dá espaço para que se conheça incontáveis faces das pessoas com quem se vive e se pense sobre o modo como acontecem as relações entre os moradores da residência, por exemplo. Sobressalta-se, entre outras tantas coisas, a forma como o trabalho doméstico é dividido. Por que, na maioria das moradias brasileiras, atribuem-se às mulheres a responsabilidade pelos trabalhos domésticos?


A sociedade brasileira divide seu trabalho, na maioria dos lares, a partir do critério sexual. Historicamente, designa-se às mulheres afazeres domésticos. Em oposição ao conceito de trabalho produtivo, que gera renda e é, portanto, valorizado, cria-se a noção de trabalho reprodutivo. Essa classificação compreende atividades relacionadas ao apoio da força de trabalho; assim, é essencial para o bem-estar da sociedade. No entanto, acontecendo dentro do lar e não sendo remunerado, esse trabalho, além de desvalorizado, passa por uma invisibilização social e econômica, reforçando a subestimação das atividades realizadas pelas mulheres na sociedade. Não é raro que mulheres que desempenham exclusivamente o trabalho reprodutivo sejam tratadas como desocupadas. O fato de ser uma atividade não remunerada faz com que parte das pessoas o trate como menor, sem enxergar que é de fundamental importância - que, inclusive, possibilita que outros moradores possam se ocupar de atividades fora de casa.


Mesmo que o homem, no contexto da pandemia, esteja 24 horas dentro de casa, é esperado da mulher que se responsabilize pelos afazeres domésticos e que cuide, caso tenha filhos, de assuntos respectivos à maternidade. Quando o homem participa dessas atividades, é tratado como se estivesse ajudando a mulher, como se essa atividade não o pertencesse. Nessa estrutura, ainda que a mulher, assim como o homem, se ocupe de trabalho produtivo, é muito provável que sejam atribuídas a ela as atividades reprodutivas. Essa divisão sexual do trabalho escancara uma manifestação da misoginia no processo educativo e de socialização dos indivíduos na sociedade, reproduz-se relações de gênero aprendidas e naturalizadas em incontáveis gerações familiares.


O retorno de parte da população para dentro das casas evidencia a discussão, que, vale ressaltar, é muito anterior ao cenário que estamos vivendo. É necessário que se encare a ideia de que “o pessoal é político”, cunhada pela ativista e autora feminista Carol Hanisch, que deu cara à segunda onda do feminismo na década de 60. Essa afirmação expressa que relações vistas como privadas, encaradas, muitas vezes, como relevantes apenas no ambiente doméstico e entre os moradores da residência devem ser tratadas como políticas, pois são reflexo da mesma estrutura de dominação que determina as relações na esfera pública.


60 anos depois, em 2020, a afirmação ainda carrega um significado fundamental para o feminismo. É relevante, sobretudo em um contexto no qual parte das pessoas ficam em casa por recomendações de saúde, que reflitamos criticamente sobre as interações de gênero na esfera privada e problematizemos, de forma política, o que é naturalizado por essa construção histórica de opressão.

ISSN: 2447-2662
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