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Cabou-se o mundo?

Parceria com a Gazeta Vargas. Texto de Loreta Guerra.

“Hoje é domingo

Pede cachimbo


O cachimbo é de barro

Bate no jarro


O jarro é de ouro

Bate no touro


O touro é valente

Machuca a gente


A gente é fraco

Cai no buraco


O buraco é fundo

Cabou-se o mundo”


(Hoje É Domingo – Parlenda Popular)


Eu cresci ouvindo e cantando essa “parlenda” quase todo domingo. O nome “parlenda” é dado a esse tipo de cantiga versada, meio cantada de temática infantil. Agora, com meus 19 anos, acho muito graciosos esses versinhos, mas devo admitir que, apesar de recitá-los sorrindo com a minha mãe todo café da manhã de domingo, eu tinha um pé atrás com esse touro que machuca a gente e o tal buraco que cai no fim do mundo... o engraçado é que esse sentimento confuso se traduziu, para mim, no dia de domingo.


Domingo, na minha percepção, é dia de acordar meio tarde porque sábado teve festa ou jantar na casa dos amigos. Ou simplesmente porque eu li até muito tarde. Apesar de não ser uma pessoa muito matutina, gosto de acordar cedo, aquele “cedo” de umas 9h e, na verdade, me incomodo quando isso não acontece... menos de domingo. Por que será?


Acho que é porque domingo é sempre meio nublado, mas com um pouquinho de sol de manhã. Calor e luz o suficiente para dar uma volta na paulista, que fecha para os carros extraordinariamente nesse último dia do fim de semana, tirando os feriados. Observar as pessoas tão diferentes que circulam a pé, de bicicleta, patins, skate, ou o que mais der para andar na faixa vermelha destinada aos únicos “veículos” permitidos na avenida que, de repente, não tem mais direita e esquerda, via ou sentido certo. Na Paulista aberta aos domingos tem arte, música, esporte, política, comércio, família, cachorro, tem até um Michael Jackson (um dançarino fantástico que imita os passos lendários do artista). A verdade é que é uma grande bagunça, um grande “nublado”... mas o sol, assim como a animação, a criatividade e a alegria, também é forte!


Talvez os domingos em São Paulo sejam exatamente isso! Uma confusão. Melhor: um paradoxo. Confusão traz uma sensação negativa e, apesar do touro e do buraco, domingo não é um dia ruim. Não. Esse dia “pede cachimbo”, pede reflexão (pode ser feita com um cachimbo ou não, vai de cada um), de olhar por vários ângulos, mesmo que antagônicos.

Domingo é fim... ou é começo? A gente organiza as coisas da semana que passou, mas também planeja a semana que vem depois. Meio confuso. A gente para à tarde e lê um livro ou vê uma série, mas tem trabalho para entregar na segunda. Paradoxal por essência, por isso digo que é dia de refletir. Não falo necessariamente na reflexão socrática e retórica cheia de palavras e conceitos complexos que parecem trava línguas, falo de sentar e, de alguma forma, tomar um pouco de tempo para pensar no agora.


Na Paulista aberta, a gente anda pelas ruas largas que viram calçadas, passa pelo parque Trianon e vê todo aquele verde quebrando o cinza. Admira a quase “floresta”, se comparada à selva de concreto que é São Paulo, coisa que não dá pra fazer na correria da semana. À tarde, antes de fechar para os pedestres (o que ocorre por volta das 19h) ainda dá pra aproveitar e andar até o Reserva Cultural ou o Cinema Belas Artes para pegar uma das últimas sessões de algum filme diferente, fugir um pouco da Hollywood que impera em outros cinemas. Não que os filmes mainstream não sejam legais, mas, de novo, domingo é dia de mudar as perspectivas. À noite, como minha avó sempre fala “é dia de pedir pizza”! Se juntar num jantarzinho rápido com a família mais próxima, conversar sobre tudo e nada por umas 2 horas e voltar antes das 22h para casa, para não atrapalhar o sono...


Acho que é por isso que não vejo problema em acordar tarde nesse dia. Se o domingo é um, mas é o outro também, o tarde vira cedo e o cedo vira tarde. Depende do ângulo. Mesmo se levantando às 14h, ainda dá pra dar a volta na paulista depois do almoço. Ou não. Dá pra ler aquele livro que está esquentando a mesa de cabeceira há algumas semanas, estudar para a prova de quinta-feira, visitar a vó para um café da tarde, ou simplesmente passar o resto do dia na cama absorvendo conteúdo do facebook, instagram, twitter... o ponto é: depende do eu e do agora, muito mais do que os outros dias.


De segunda a sexta tem compromisso, projetos, estudo. Sábado tem parque do Ibirapuera de manhã, almoço marcado à tarde e festa à noite. Domingo tem... o que tem domingo? Considerando que eu já vou acordar tarde, não tem nada de manhã, à tarde no máximo um almoço diferente, à noite não dá pra marcar muita coisa (além da pizza) porque tem que acordar cedo na segunda... domingo tem, bem, domingo! Aqui, caracterizo alguns dos meus compromissos usuais, de uma estudante de universidade privada que não trabalha. A perspectiva da semana e das incumbências de cada um variam de pessoa para pessoa, mas eu acredito que o conceito do domingo é, de certa forma, bem parecido para todo mundo. Um dia para ser aproveitado como dia, não como junção de afazeres. Tanto que nenhuma loja de rua abre no domingo, o horário de funcionamento do shopping encurta, a maior parte das escolas (mesmo as com aula até no sábado) reconhecem que é um dia diferente, tanto que não tem aula. É dia de descanso da rotina, da bola de neve que rola na mente pensando “o que eu preciso fazer agora?”.


Não sou religiosa, mas entendo que domingo é um dia que muitas pessoas reservam para ir à missa. De certa forma, acho que o que eu quero dizer nesse texto é que domingo é dia de “ir à missa”, seja literalmente ou não. É dia de cortar aquela avalanche de produtividade, reuniões, festas, trabalho, jantar, almoço, café da manhã... acordar tarde e ir contemplar o caos completamente com sentido que é a avenida paulista, a melhor representação do próprio dia. Uma linda metáfora. Não que domingo não possa ser usado para trabalhar ou estudar, é só que ele, naturalmente e de forma muito mais explícita que os outros dias, pode ser usado para o que se quer, sem convenções fixas e determinadas, muito mais comuns na semana e mesmo no sábado.


Entendo que definir o domingo é, por essência, uma tarefa difícil, exatamente por essa característica de pluralidade que ele carrega, de “inexatidão”. Descrever um dia no qual o que eu mais faço é deixar a mente ir para onde ela quiser, para o fim e para o começo ao mesmo tempo, é complicado, mas também, de alguma forma, suave. Achei paradoxos até no processo criativo desse texto. Mas creio que finalmente compreendi o que os versos da cantiga que me incomodavam na infância significam para mim. O cachimbo eu já entendia: domingo é para relaxar e pensar. O touro é a força com que me permito fazer o que quiser, seja produtivo ou não. O buraco é a passagem de uma semana para a outra. Minha única modificação viria agora: nessa onda de antagonismos, domingo não é começo nem fim, portanto a afirmação final, para mim, deveria virar um questionamento: “cabou-se o mundo?”


ISSN: 2447-2662
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