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Afrofuturismo, necropolítica e a arte que escreve o futuro


Nas últimas semanas, a sensação de viver num mundo distópico não parece distante da realidade de todos. O Brasil passa por uma crise sanitária, econômica e política, enfrentando uma doença para a qual não existem remédios, vacina ou mesmo estudos completos sobre as sequelas que a doença pode deixar em diversos campos. Além disso, autoridades fazem declarações negacionistas, desprezam as recomendações da ciência e expressam publicamente sua indiferença. Parece razoável uma parcela da população sacrificar sua vida, afinal, as pessoas sempre morreram de qualquer forma. Soa aterrorizante viver num lugar assim, só que o mundo não se tornou distópico da noite pro dia. Todo dia se escolhe quem vai viver e quem vai morrer. É a necropolítica em ação. A vida de populações vulneráveis e marginalizadas foi e é esquecida século após século e perpassa gerações. Diante disso, como pode-se então construir um novo futuro? Para a população negra, por exemplo, o afrofuturismo surge como uma possibilidade de imaginar um futuro contrário à sua aniquilação, o que de certo modo é também uma forma de envisionar não só contra a possibilidade de que o mundo poderia acabar, mas também de que ele pode se tornar um lugar muito melhor.


Segundo o escritor Fábio Kabral, o afrofuturismo é “a mescla entre mitologias e tradições africanas com narrativas de fantasia e ficção científica”. Não só uma maneira de escrever e protagonizar o futuro, o movimento afrofuturista é também sobre recontar um passado africano que um dia foi esquecido, ignorado e deturpado. É uma forma de ir na direção contrária do que o Estado e a sociedade oferecem para uma pessoa negra. Se existem tantas formas de pensar uma sociedade futurística, por que não uma na qual pessoas negras participem ativamente das discussões políticas, avanços científicos e tecnológicos e expressem suas particularidades como seres humanos com diferentes vivências? Soa utópico imaginar um mundo assim quando há poucos dias os jornais noticiaram a morte, ou melhor dito, assassinato, de uma criança negra de catorze anos cumprindo o isolamento social com sua família. Não foi só um tiro. A polícia mira para matar sem dó. Não foi o único caso e infelizmente, outros ainda virão.


O conceito de necropolítica foi cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. Na medicina, necro é o termo utilizado para indicar morte ou corpo morto. Sendo assim, a palavra necropolítica pode ser “traduzida” como política de morte. Em seu ensaio “Necropolítica”, Achille propõe a noção de necropolítica para explicar como “vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o status de ‘mortos-vivos’ ”. Dizer que o país já atravessou o pior porque o pico de Covid-19 nas classes altas já passou ou realizar operações policiais violentas em meio a uma pandemia, tudo isso é reforçar a ideia de que existe alguém que deve morrer e alguém que merece viver. É parte do leque de um conjunto de políticas de controle através da morte. Exemplos desse discurso não faltam, e de fato a realidade de escolha de quem sobrevive à pandemia também nos leitos dos hospitais públicos está mais próxima do que nunca.


Enquanto o apocalipse bate, ou sempre bateu à porta, a literatura, a arte, a música e o cinema inspirados no movimento afrofuturista propõem uma especulação de um futuro que seja ao menos positivo. Nesse momento, onde todas essas formas de arte são uma válvula de escape para muitos, é extremamente necessário imaginar e, mais ainda, ajudar a criar um futuro onde todas as vidas sejam importantes, mesmo que pareça utópico.

ISSN: 2447-2662
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