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A cruz que carregamos em nossas línguas


Palavras são símbolos, como são os quadrados, triângulos e retângulos. Símbolos que podem existir em formas de som, na linguagem oral, ou de sinais visíveis, na linguagem escrita. Uma palavra só pode ser compreendida, com determinado significado, pelos falantes de uma mesma língua. Essa compreensão é construída com o passar do tempo, à medida em que esses símbolos passam a ser associados a imagens.


Nem todo símbolo é uma palavra. Vejamos, por exemplo, um crucifixo. "Crucifixo" é, de fato, uma palavra. Contudo, a imagem de um crucifixo, por si só, tem diferentes significados. No Império Romano, era um instrumento de tortura e morte de seres humanos. Esses eram condenados a ficarem pregados ou amarrados, nessa estrutura, até morrerem.


Um personagem histórico que morreu crucificado foi, como sabemos, Jesus Cristo. Sua morte, juntamente com sua vida e seus ensinamentos, foi tão simbólica que serviu de base para a criação da maior religião do mundo, cujo símbolo principal se tornou o próprio crucifixo.


Não discuto aqui os fatores religiosos por trás disso. Tampouco tenho competência para tanto. Porém, posso afirmar que quando Neymar Jr. comemora um gol com um sinal da cruz, não está desejando para si uma morte semelhante à de Cristo. Pelo contrário, atualmente o crucifixo é um sinal de proteção  -  embora também carregue a simbologia do sacrifício de Cristo por toda a humanidade.


Cristo, por outro lado, não foi o único que morreu crucificado. A cruz serviu, por muito tempo, como instrumento de verdadeiro terror. Creio que, antes de Cristo existir, usar um crucifixo pendurado no peito seria como reverenciar um pau-de-arara ou uma cadeira do dragão, nos dias de hoje. Isso significa que bilhões de cristãos estão errados em reverenciar um crucifixo, dentro do significado atual? Estou certo que não.


Por que penso assim? Em suma: porque o significado em torno do símbolo do crucifixo mudou. Muitos somos ensinados, desde pequenas, a associar a cruz com o Cristianismo, e a carregamos conosco como proteção simbólica.


Fica a pergunta: devemos nos sentir culpados pelas milhares de pessoas mortas e oprimidas pelo Império Romano? Sabemos que a formação de toda a Europa e do Oriente Médio foi diretamente afetada pelos romanos. A nossa língua é filha dessa opressão. Além disso, grande parte do nosso pensamento e da nossa cultura bebe do sangue derramado pelos romanos.


De qualquer forma, com ou sem sangue derramado, somos o que somos. Não temos culpa por termos nascido onde nascemos, nem por falar a língua que falamos. Apenas somos culpados se, conscientemente, cometermos novas injustiças e crueldades.


Falar uma língua, entretanto, não é cometer uma injustiça. Palavras, como já disse, são apenas símbolos. Símbolos cujos significados morrem e renascem com o tempo. Símbolos que nos ajudam a expressar ideias e a indicar imagens de maneira precisa. Devemos enterrar esses símbolos? Ou já basta que antigos significados opressores sejam extintos?


Eis o peso da cruz.

Lavo as minhas mãos.

ISSN: 2447-2662
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