• Saulo Rocha

Em defesa das humanidades

As más-línguas têm amaldiçoado o ensino das humanidades. A sua criatividade reacionária teima em se justificar no pouco retorno trazido ao contribuinte pelas artes, filosofia, sociologia, pelo ensino das letras e das coisas-humanas, quais sejam.


Ameaçadas por um tom desumanizante e pela obscuridade dos nossos tempos, estar em defesa das humanidades nunca foi tão urgente.


O fazer artístico está contido essencialmente no artista. É segredo dele realizar sua obra tão bem que quase esqueçamos de indagar com que propósito foi feita, pela admiração pura que o modo como o fez em nós suscita. Não existe realmente essa coisa conhecida como Arte. Existem somente artistas, cuja interpretação, a imaginação e os dons que transpira dão forma e cores a um novo corpo. A este corpo chamamos Arte.


Na seara da criação espontânea estão os artistas plásticos, os músicos, os poetas e os-de-prosa. Os que rabiscam, esboçam e pintam; os que harmonizam e cantarolam; os que muito sentem e confessam; os que sempre têm algo a dizer num texto corrido.


Artistas atiçam nossa sensibilidade. Elevam nosso espírito. Fortalecem nossa cultura. Neles depositamos a confiança da boa história ou a expectativa da explicação. Completude do fim ou os percalços dos meios. Nas suas obras impregnamos subjetivismo e individualidade. Sua maior riqueza é produzir interpretação e significância. Daí a sua preciosidade, daí a sua importância, daí a sua virtude. É sobre tratar do mármore e transformá-lo em músculo e expressão. Juntar papel branco e condensá-lo em livro de pecados e benfeitorias. Organizar e temporizar as notas em sinfonia.


As Artes relevam em tempos cinzentos pela esperança que a beleza instiga em nossos estômagos , eis que o belo na arte comove nossos sentimentos mais primitivos.


De outro lado estão os ensinos da História, da Filosofia e da Sociologia. Estas são menos coisas-dos-homens que coisas-humanas. O seu rigor científico importa e deve ser protegido precisamente por nos mostrar de onde viemos, situar onde estamos e nortear o caminho que buscamos traçar. O dinamismo, o movimento, a energia e a complexidade das relações exigem que saibamos pensar sobre o Tempo e dele saibamos falar. Exigem que reflitamos sobre o Amor e por ele prezemos. Que pensemos o Certo e o Errado, o Moral e o Imoral. Tudo isto aí está, e nunca fora tão recente e urgente abstrair nossas angústias e temeridades.


Somos ser-no-mundo e ser-no-tempo. Há atos humanos que, considerados isoladamente, são impregnados pela nossa sensibilidade valorativa com as cores mais deslumbrantes, mas que, pelas consequências a que dão origem, acabam fundindo-se na cinzenta infinidade do historicamente indiferente, ou que antes, por esbarrar noutros eventos do destino histórico, acabam mudando tanto na dimensão como na natureza do seu sentido, até tornar-se irreconhecíveis.




Quando falamos em História, temos o vício de refugiar -nos no passado. Na verdade, deve ser o inverso: a História começa hoje, e continua amanhã. Escrever História é, por vezes, endossar os acertos, presentificando as virtudes; em vezes outras, livrar-nos dos erros, aprimorando as nossas verdades.


Da locomotiva da História a Sociologia extrai as suas aspirações. A ciência do nada-pode-ser-à-toa vigora, ainda, como a mãe das ciências humanas, sendo ela a fonte dos por quês sociais. O exercício sociológico é um exercício que incomoda. Do soberano à plebe; do aristocrata ao ralé; do burguês ao proletário: não há um que seja por ela inalcançável.


As coisas humanas precisam ser ensinadas justamente para que conheçamos a nós mesmos. O pensamento industrial e fordista que procura castrá-las, sob o passo irrefreável e faminto do interesse financeiro, nada sabe, e nada pode saber acerca da origem d as emoções e paixões humanas.


O ensino humanizante, com o incrível ônus de humanizar, nada tem a ver com o rendimento econômico ou com o tesouro público. Sua utilidade se desdobra em razões muito mais enobrecedoras, por aprimorar a empatia, as capacidades intelectivas e as atividades sensoriais. Quem confunde o preto no branco dos números e cifras com a policromia caótica dos sentimentos do mundo nada tem a contribuir para os valores humanos, mas muito tem para esvaziá-los.


Antes de medicar saldos creditícios é preciso tratar de nossa humanidade. Só assim se encontra a vocação para contar, cantar e dizer o mundo. Pelas suas melhores lentes. Nos seus melhores jeitos. Nos mais humanos métodos. Para, então, alcançar a tentativa genuína, não a fabricada. Tentá-la novamente. Por vezes, falhar. Mas falhar, daí, melhor, porque humanamente.

Saulo Rocha é aluno do 3º período da FGV Direito Rio e membro de Edição da Revista Ágora.


ISSN: 2447-2662
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