• Beatriz Vergette

Margaret Douglas - dona de mãos invisíveis

Introdução


É preciso, para a construção deste ensaio, concordar com Adam Smith: é ingenuidade pensar que o jantar seria servido pela benevolência do açougueiro e do cervejeiro. Quem põe a mesa é a mão invisível. No entanto, também é preciso discordar de Adam Smith para a construção deste ensaio: a mão não pertence ao mercado. A mão que serve o jantar é ainda mais invisível. A mão que serve o jantar é de uma mulher.


Margaret Douglas era a mãe do autor estudado. Enquanto Smith poderia gastar seu tempo se debruçando sobre toda a construção da teoria econômica moderna, ela lavava, passava, cuidava e cozinhava. Margaret Douglas não foi a única - ela é representativa das mulheres que são alocadas ao trabalho doméstico não remunerado e não contabilizado, encoberto pela lógica de mercado e ferramenta de exclusão econômica, política e social das mulheres até hoje.


É importante notar que trabalho, no sentido aqui empregado, deve ser diferenciado de emprego, razão pela qual não é a realização de tarefas domésticas mediante remuneração que será abordada por este trabalho. O emprego é visto e contabilizado, ao passo que o trabalho realizado dentro de casa é apenas um pressuposto para o desenvolvimento de outras atividades econômicas (masculinas). Trata-se de uma verdade velada, uma realidade conveniente para a supremacia masculina e motor de todos os outros setores econômicos. Para que homens produzam e se desenvolvam, as mulheres ficam responsáveis por uma economia de base - e é exatamente isso que a teoria de Adam Smith falha em observar.


O autor parte do pressuposto de que a divisão do trabalho gera especialização e que ela leva ao desenvolvimento. Todo o progresso viria dessa separação, mas seria essencialmente masculino. A economia de Smith só contabiliza o trabalho público, mas se fundamenta no trabalho doméstico. O cervejeiro não fermenta a cevada, o açougueiro não vende carne e Adam Smith não teoriza o mercado sem mães, irmãs e esposas responsáveis pelos cuidados da casa.



Da "segunda economia"


O estudo de Adam Smith é notório. Sem ele, as noções de economia que perduram hoje não seriam consolidadas no mundo moderno. No entanto, sua visão sobre como a economia funciona é generalizada quando não deveria, uma vez que é marcada pela divisão sexual do trabalho.


A alocação de mulheres ao cenário de casa limita as frentes em que elas podem se desenvolver e atuar, de modo que o pensamento de Smith não se traduz em realidade quando falamos do universo feminino. A lógica de mercado de Adam Smith só segue seu curso supostamente natural quando se trata de homens, já que mulheres raramente alcançam posições de destaque em que podem se desenvolver de fato - ou, quando alcançam, é com o dobro do esforço masculino.


A relação entre essas duas economias é piramidal: a segunda, doméstica e feminina, é suporte e fundamento da primeira - homens ganham o tempo que as mulheres gastam na cozinha, na área de serviço e no quarto dos filhos, além dos nichos de mercado que elas deixam de ocupar para prestar essas tarefas.


A obra do autor consagra a divisão do trabalho como motriz da especialização. Se isto é verdade, é verdade também que divisão sexual do trabalho é geradora da segregação de mulheres no jogo econômico. Mulheres são treinadas para executarem tarefas domésticas e, portanto, só se especializam nestas atividades. Não servem para o mundo exterior. Uma casa bem estruturada é pressuposto para o progresso, mas é invisibilizada e menosprezada.


A análise parte de um dos pontos centrais do pensamento de Smith: as paixões são nossas fontes de sucesso. O que move a sociedade, a força de nosso desenvolvimento são interesses individuais, egoísmos característicos do ser-humano.


Quando analisamos quais as concepções hegemônicas sobre a natureza feminina, podemos perceber como elas não se encaixam nessa visão de progresso [1]. Estamos condicionados a pensar em mulheres como cuidadoras, como mães, irmãs e esposas zelosas à disposição das necessidades da casa e da família. Mulheres não são, sob esta ótica, egoístas ou movidas pelo auto-interesse. Assim, não são compatíveis com o avanço (movido, principalmente, por desejos individuais) proposto por Adam Smith.


Isso acontece porque, para Adam Smith, a economia é uma disciplina privada e não deve, em nenhum aspecto, ser politizada. Quando uma realidade não é politizada, ela não é pensada criticamente, de modo que passa a ser encarada como um universo à parte, em um vácuo que ignora todo o cenário externo e fecha os olhos para desigualdades pré-existentes e estruturais. Desse modo, a primeira economia é precificada e está sujeita à competição, portanto amadurece e avança. A segunda economia é estática, não avança, não prospera, mas continua sendo fundamental. Assim, o mundo criado por Smith é um mundo que, diferente do que o próprio autor diz, não é aberto à competição completa.



Dos efeitos atuais


O que se nota, então, é a masculinização da própria econometria. A contribuição feminina, essencial para que haja tempo disponível para que os homens possam realizar o trabalho que de fato é reconhecido, não é notada.


Na Semana da Mulher de 2017, a ONU Mulheres lembrou: o trabalho de cuidado e de manutenção da casa representa até 39% do Produto Interno Bruto (PIB) de um país [2], mas não entra nesse cálculo. Esse trabalho é, além de infraestrutura para a sociedade, complemento (muitas vezes é até substitutivo) de serviços públicos, como de saúde e educação. São cargas horárias extensas, que impõem dupla, às vezes tripla, jornada de trabalho às mulheres.


A verdade é que o trabalho doméstico pode (e deve) ser quantificado. Seja porque o tempo que os homens não gastam trabalhando em casa se traduz em salário no mercado de trabalho; seja porque, quando essa tarefa é desempenhada por homens, eles sabem como precificá-la para receber compensações financeiras [3]. A ativista liberiana Leymah Gbowee, em um evento na Fundação Gates, contou que, ao trabalhar com um grupo de pastores, perguntou a eles o que suas esposas faziam durante o dia. Os pastores respondiam que nada. Em seguida, pediu para que eles se levantassem e escrevessem o valor de seus próprios salários em um quadro, ao lado das tarefas "insignificantes" desempenhadas por mulheres. Pediu, também, que escrevessem o quanto gostariam de receber se realizassem tais tarefas. Ao final do processo, a quantia que eles atribuíam ao trabalho doméstico era superior ao salário que recebiam.


Esta carga excessiva constitui não só um desincentivo a trabalhos não-domésticos por parte de mulheres como também maior cansaço e desgaste emocional[4]. São instrumentos que promovem e reiteram desigualdades ao dificultar a entrada de mulheres no mercado de trabalho e, assim, constituem empecilhos para sua autonomia e independência financeira.


Além disso, é possível notar que a divisão do trabalho é tão enraizada em distinções de gênero que, mesmo quando as mulheres entraram no mercado de trabalho, as tarefas domésticas continuaram sendo dominadas pelo feminino (92% dos empregados domésticos são mulheres) [5]. Nesse cenário, o recorte é feito por classe: mulheres com maior poder aquisitivo contratam mulheres de classe social mais baixa porque seus parceiros homens não ficam responsáveis pelo trabalho em casa.


Na estrutura social em que estamos inseridos, é tão impensável que homens realizem funções de cuidado e de casa, que, mesmo quando os homens estão desempregados e as mulheres empregadas no mercado [6], elas ainda passam 10 horas a mais do que eles em ocupações doméstica, segundo dados do IBGE.


Não é o caso pontual de uma família ou de um país. Smith propôs uma teoria universal, e ela é universalmente segregadora. O espaço doméstico é inerentemente feminino, e, sob esta ótica, não há homem que possa desempenhar estes papéis melhor do que mulheres, porque não se especializam em tais atividades. Do mesmo modo, não há sistema econômico que se desenvolva sem mãos de mulheres invisíveis para cuidar da casa enquanto as mãos valorizadas fazem o trabalho que é remunerado.


Fomos acostumados a pensar no feminino como dócil, familiar, cuidadoso. O Brasil ainda pensa dessa maneira: mulheres ainda dedicam mais horas ao ambiente de casa e menos da metade dos homens realiza tarefas domésticas. 89% deles considera inadmissível mulheres que não mantenham a casa em ordem, ao mesmo tempo em que quase 64% acredita que homens devem ser a cabeça da família [7].



Conclusão


Embora as mulheres são sejam incluídas no pensamento de Adam Smith, estavam muito presentes em sua vida. Ele não enxergou a segunda economia, mas só trabalhou por causa dela. Margaret Douglas trabalhou, junto à prima de Adam Smith, Janet Douglas, até a morte para servir seu filho. Quando Janet faleceu, Smith escreveu a um amigo "Ela me deixa como o homem mais incapaz e destituído de toda a Escócia".


Ele era um dos homens mais ricos do Reino Unido - não era destituído de dinheiro, mas de zelo. Ainda assim, a sua teoria, que era para ser tão universalizável e generalizável, constrói um homem econômico com sexo tão implícito e ao mesmo tempo tão claro: o homo economicus não é neutro, é homem. Só um homem tem o egoísmo necessário para agir em nome do interesse pessoal. Mulheres agem em nome de todos, com o altruísmo que nos é característico.


Adam Smith é um homem celebrado até hoje; de Margaret Douglas não se fala. Janet Douglas, mesmo morta, foi lembrada como parte de Smith, não como ser autônomo. As mulheres que desejam ter acesso ao mercado, hoje, se veem na necessidade de empregar outras mulheres, porque não dividem o esforço com seus parceiros. As teorias econômicas que vieram depois tampouco incluíram mulheres ou remuneraram o trabalho doméstico, mas com certeza dependeram dele, assim como o açougueiro e o cervejeiro dependeram de suas mães, esposas e filhas.


[1]WILLIAMS, Joan C. Domesticity as the Dangerous Supplement of Liberalism. Johns Hopkins University Press. Journal of Women's History, vol. 2 no. 3, pp. 69-88, 1991.

[2]ONU BRASIL. Trabalho doméstico não remunerado representa até 39% do PIB dos países, diz ONU Mulheres.2017. Disponível em https://nacoesunidas.org/trabalho-domestico-nao-remunerado-representa-ate-39-do-pib-dos-paises-diz-onu-mulheres/. Acesso em 09/06/2018.

[3]MERELLI, Annalisa; ZHOU, Youyou. This calculator puts a dollar value on the invisible, unpaid work done by women. 2018. Disponível em https://work.qz.com/1083411/this-calculator-makes-the-unpaid-work-women-do-visible/. Acesso em 03/05/2018.

[4]DIAS, Tatiana. Filhos, trabalho e cansaço: como o estresse familiar atinge principalmente as mulheres.2016. Disponível em https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/10/05/Filhos-trabalho-e-cansa%C3%A7o-como-o-estresse-familiar-atinge-principalmente-as-mulheres. Acesso em 08/05/2018.

[5]GOVERNO DO BRASIL. Trabalho doméstico é a ocupação de 5,9 milhões de brasileiras.2016. Disponível em http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/03/trabalho-domestico-e-a-ocupacao-de-5-9-milhoes-de-brasileiras. Acesso em 08/05/2018.

[6]CORRÊA, Marcelo; FERREIRA, Luciano. Mulheres com emprego trabalham mais em casa do que homens desempregados.2018. Disponível em https://oglobo.globo.com/economia/mulheres-com-emprego-trabalham-mais-em-casa-do-que-homens-desempregados-22602818. Acesso em 05/06/2018.

[7]DIAS, Tatiana. 5 fatos sobre a divisão do trabalho doméstico no Brasil. 2016. Disponível em https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/12/06/5-fatos-sobre-a-divis%C3%A3o-do-trabalho-dom%C3%A9stico-no-Brasil. Acesso em 08/05/2018.

Beatriz Vergette é aluna do 4º período da FGV Direito Rio

As ilustrações são da Marília Arruda, ilustradora da nossa 12ª edição



ISSN: 2447-2662
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