• Entrevistada por Ana Clara Jansen e Isabella

Noite de Climão – O perfil da música por trás de Letrux

A auto-descrição ilustra bastante: “Letrux é Letícia Novaes pós Letuce. Fênix Tijucana. Caçula e estabanada. Fossa e gozo. Climão”. A Ágora entrevistou Letícia Novaes, idealizadora da Letrux. Conversamos sobre a cena da música alternativa brasileira para novos artistas, o que aguarda nossa arte depois das eleições e descobrimos um pouco mais sobre esse projeto tão inovador no nosso espaço musical.


A gente queria começar perguntando o que você faz na Letrux, como você descreve seu trabalho? Letrux: Ah, eu me considero mais escritora do que cantora, na verdade, apesar de hoje em dia estar vivendo muito mais o canto do que a escrita, né. Mas, na minha cabeça, a minha funcionalidade mental, é de uma pessoa que escreve. Eu comecei a escrever antes de cantar, comecei a escrever antes de atuar, então eu acho que o primeiro barato das artes foi a literatura. E aí comecei a escrever diário, sempre tive uma agenda, caderninhos, poesia e aí a música veio depois da literatura. Acho que comecei escrevendo, aí fiz teatro no colégio, e sempre fui muito musical, porém nunca fui exatamente cantora, não cantava, não era aquela criança que canta, o adolescente que canta, não era muito assim. Mas eu era muito musical e amava muito música, passava horas no quarto ouvindo rádio, gravando fita, decorando as letras da Janis Joplin. E quando eu fiz 19 anos eu entrei na faculdade de Teatro. Primeiro eu entrei na faculdade de Letras, mas eu vi que não era nada daquilo que eu esperava: era um ambiente extremamente normativo, eu esperava muito mais poesia, e acabei desistindo do curso, fui fazer Teatro, e no Teatro eu tive muito mais espaço pra explorar minha criatividade, inclusive na parte musical. Aprendi a tocar violão em casa, sozinha, autodidata, e comecei a compor muitas músicas, que foram importantes naquele momento, naquele crescimento. Mas eu acho que eu me defino mais como uma escritora que canta, de alguma maneira. Que canta e atua.


Das coisas que você faz, como cantora, qual a sua parte favorita? Gravar vídeo, gravar em estúdio, fazer show? Letrux: Todas as partes são muito diferentes, né, porque por exemplo, o show é a apoteose, né, a catarse final, então tem um gozo ali muito específico e muito prazeroso. Mas o momento do estúdio é um momento sagrado também porque é como você quer que algo seja eternizado, né? O som que as pessoas vão ouvir daqui a 50 anos é feito naquele momento, então você precisa alinhar a técnica à emoção também, não dá pra ser só uma coisa técnica, “ai, vamo gravar na voz, na técnica”, você também tem que se concentrar pra se conectar com algo mais sensível e emotivo. Gravar clipe é sempre divertido, é sempre uma algazarra, uma balbúrdia divertida. Me divirto muito.


Como surgiu o conceito do “Letrux em Noite de Climão”? Como que foi o processo de criação? Letrux: Então, eu tive essa banda antes, que chama Letuce, durante quase dez anos, que foi uma banda de muita aprendizagem, muito amor na minha vida. Aprendi muito, gravei três discos, mas a gente tocava mais no eixo Rio-São Paulo, a gente não estourou tanto assim no Brasil. E eu fiquei elaborando coisas pra fazer um projeto solo, eu tava com muita saudade desse formato de show mais teatral, mais performático, desde que me separei do Lucas, que é meu ex parceiro de Letuce e de vida também, em 2013.


E aí eu elaborei esse conceito de “Letrux em Noite de Climão”. Como o nome da outra banda era Letuce, e o meu nome de whatsapp sempre foi Letrux, porque era uma variação de Letuce. Eu adoro meu nome, Letícia Novaes, mas eu acho ele muito formal assim, pra carreira solo, “um CD de Letícia Novaes” fica muito hilário, parece uma cantora antiga de MPB (risos) então eu prefiro ter apelidos, acho que apelidos são mais divertidos. O apelido te protege também, de alguma maneira. Eu prefiro.


Então acho que o conceito foi sendo elaborado ao longo de uns quatro anos, de 2013 a 2017, que foi quando eu terminei esse relacionamento, e fui pensando que eu queria fazer uma outra coisa. Ainda teve um disco de Letuce no meio, pra fechar, que a gente lançou em 2015, chamado “Estilhaço”, e aí só depois que eu lancei esse disco, é que eu realmente me debrucei sobre meu disco solo, sobre as composições, sobre o que eu queria falar. Eu sabia que eu queria falar sobre uma saga desastrosa, romântica, queria que fosse um disco tragicômico, porque eu sou uma pessoa tragicômica! Sou muito dramática, mas sou muito da comédia também, então eu fui elaborando e chegamos nesse conceito de “Letrux em Noite de Climão”, que é um lugar, o climão ele é um lugar de constrangimento, de gafe, ele tem a ver com a fossa, tem a ver com uma névoa, mas também tem essa coisa de ser superlativo, de ser exagerado, é um climão, é grande né. E acho que esse disco ele brinca com todas essas ideias.


Quais são algumas de suas inspirações na hora de produzir seu conteúdo?

Letrux: Então, eu sou um ser humano muito conectado com todas as artes assim, eu posso até citar algumas influências musicais, mas eu estaria mentindo se fosse só isso, sabe? Sou muito da literatura também, então tem aquelas mulheres que acompanham minha vida desde sempre: Rita Lee, Janis Joplin, PJ Harvey, Patti Smith, a própria Marina Lima que tá no disco, Maria Bethânia. Mas também tem muitas influências da literatura, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Adélia Prado, Drummond de Andrade, eu gosto muito de poesia, muito muito muito. Tem a Adília Lopes, que é uma poeta portuguesa que eu me debrucei um pouco mais esse ano indo lá para Portugal.


Gosto muito também de cinema, então tem vários filmes que são muito sensíveis pra mim. Ano passado eu vi um filme da Asia Argento, chamado “A Incompreendida” que foi um filme bastante forte, li um livro também do Jean Cocteau “A Dificuldade de Ser”, que é um livro que eu li na pré produção, e foi muito importante pra produção do disco.


Você tem alguma história engraçada com algum fã?

Letrux: Ai, são tantas que eu não consigo nem me concentrar em pensar em alguma. Os fãs são pessoas muito queridas, as pessoas têm ido até pro aeroporto, teve um menino que foi no aeroporto de Recife nos levar um bolo de rolo (risos), sendo que o aeroporto de lá é longe, então olha que amor! A gente chegando na cidade super cedo e o menino lá com o bolo de rolo, um fã muito querido. Ah, a gente trata nosso público muito bem, então recebemos muito carinho em volta também! As pessoas querem que eu mande áudio, “ah, é aniversário da minha namorada, manda um áudio”, então rola muita coisa divertida assim, muito carinho astral que a gente troca. Como é o espaço da música brasileira para novos artistas? Você sentiu alguma dificuldade nesse sentido?

Letrux: Eu faço música já há 13 anos né, claro que nos últimos anos eu fui me profissionalizando. Eu sinto que melhorou, de alguma maneira. As pessoas não têm mais tanto preconceito contra a música independente, a música alternativa, mas assim, né, a gente entra num uber, num táxi e o que ta tocando na rádio são músicas que já datam de 20, 30 anos atrás.


Então, é bastante difícil a gente adentrar a grande mídia, o que é uma pena, porque nomes como a Adriana Calcanhoto ou outros músicos que tocam na rádio, mas que não são assim exatamente super populares, se eles nascessem hoje em dia, seriam que nem a gente, teriam a mesma dificuldade, então é complicado. São pessoas maravilhosas, e tem muita gente fazendo música muito boa hoje em dia. O problema, às vezes, é que a gente não consegue tocar para um grande público. Claro que minha vida realmente mudou no último ano, meu público aumentou consideravelmente, faço shows muito cheios, muito lotados, para bastante gente, em lugares que eu nunca tinha nem ido. Então eu sinto uma mudança considerável, mas ainda falta mais incentivo pras bandas alternativas da música independente.


E você acha que esse espaço melhorou em relação às mulheres artistas, ou você acha que ainda há algum nível de dificuldade nesse sentido?

Letrux: Ainda tem dificuldade, mas melhorou, né. A resposta é a mesma que dei para a outra pergunta. As dificuldades ainda existem, mas eu sinto um número muito maior de mulheres compositoras, instrumentistas, até mesmo técnicas de som, fico muito feliz, mas ainda é pouco. A gente ainda precisa aumentar, mas eu tenho muita fé na próxima geração de meninas que tão nascendo agora, acho que vai ser um boom de mulheres legais, acho bem bacana ver essa geração crescer.


Você considera sua arte uma ferramenta social?

Letrux: Eu vejo minha arte como algo que primeiramente me transforma, me cura, me faz

questionar, e, consequentemente, como eu me exponho, enquanto ser humano sensível que é sujeito a falha, a erro, mas eu to aqui pra tentar, e as pessoas acabam se conectando com isso. Eu não pago de perfeita, não pago de resolvida, não pago de plena, diva, nada disso, então me coloco muito sujeita. É quase um egoísmo, a minha arte, no sentido de que eu não faço pros outros, sabe? Eu faço pra resolver as caraminholas da minha cabeça. Que bom, que alegria que as pessoas são tocadas por isso, e se identificam, e pensam “nossa, eu também to vivendo isso”, mas eu não faço música pra ninguém não, eu faço porque se eu não fizer eu morro ou, se eu não fizer, eu não me resolvo, é minha maneira de me resolver. Então acho que minha arte tem a ver com estar disponível à sensibilidade e à emoção.


Quais são as suas perspectivas para a arte brasileira diante do atual cenário político? Letrux: Eu oscilo muito. Tenho dias de muita fé, luz e pensamentos positivos, como no dia da manifestação “Ele Não”, que eu fui preenchida de muito otimismo. Porém, hoje, por exemplo, já é um dia que eu acordei mais baqueada, pensando “gente, que loucura”. Então eu to oscilando muito entre pavor e esperança, fé. Torcendo pra que metade do copo cheio vença né, vamos ver.


Quais são seus trabalhos futuros em mente?

Letrux: Eu quero lançar meu segundo disco, acho que não consigo esse ano, já ta no fim e tem muita coisa acontecendo... A gente tem muito show e também tem a questão política. Eu acho que é melhor guardar. Mas se, de repente, a inspiração real vier, porque eu não quero gravar um segundo disco só pra gravar um segundo disco, se vier realmente a gente vai fazer um segundo disco! Acho também que vou lançar um segundo livro ano que vem.

Letícia Novaes é a criadora do conceito "Letrux", nome insurgente na cena musical brasileira.


Fotos por Ana Clara Jansen, aluna do 6º período da FGV Direito Rio


ISSN: 2447-2662
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