• Beatriz Vergette

Mulheres Radicais: um olhar sobre arte ativista

Caras leitoras e caros leitores,


Peço a licença de vocês pra fazer um post do Arquivo Ágora que é mais pessoal do que os outros. Quando escrevi sobre a Queermuseu, conversei com a equipe sobre ter a mesma prerrogativa, então talvez seja um problema meu não saber separar arte de personalismos. Mas peço que aturem essa dificuldade mais uma vez.


Faz quatro dias que visitei a exposição "Mulheres Radicais", na Pinacoteca de São Paulo, e continuo vendo as fotos, lendo o catálogo assiduamente e pensando nas obras sem parar. Espero fazer uma breve e completa recapitulação a vocês, sem deixar nenhum detalhe precioso de fora.


A exposição começa com uma contextualização que se faz necessária aqui também. As artistas são todas mulheres e latinoamericanas, e os trabalhos são datados de 1960-1985. Antes da entrada, na parede, uma linha do tempo. O Brasil foi um dos países que concedeu às mulheres o direito de votar mais cedo, em 1932. Os países latinoamericanos passaram, nesse lapso temporal, por ditaduras, militares ou não, repressoras da arte plástica, da música, da comunicação e dos direitos humanos.


O México era o único país que tinha um movimento declaradamente feminista para levantar pautas como aborto legal e seguro, participação política e liberdade artística. Nos Estados Unidos, as "chicanas" (mulheres de ascendência latina) eram submetidas à esterilização não-consensual para realizar controle populacional. No Brasil, mesmo as militantes encontravam resistência e segregação sexual – raramente comandavam as frentes revolucionárias.






















Daí o meu espanto com a riqueza da exposição. A mostra conta com mais de 200 trabalhos: colagens, vídeos, esculturas, pinturas e fotografias que recontam a história do ponto de vista das mulheres, construindo uma narrativa completamente nova. Cada espaço tinha uma temática diferente, mas que conversavam entre si. Nas salas, um texto que explicava o foco central daquela parte da exibição.


Na seção "Autorretrato", somos convidados a pensar criticamente sobre o que retratos tradicionalmente representam. Em oposição às imagens de mulheres como ícones religiosos ou mitológicos, inocentes e presas a ideias de beleza limitados, as artistas mergulham em sua própria subjetividade, se posicionando criticamente quanto às expectativas de imagem feminina. Podemos observar interseccionalidades diversas e sutis, com raça e classe, e a luta das mulheres para fazer um manifesto acerca das suas próprias possibilidades de autoexpressão e identidade.


Igualmente importante é a seção "Mapeando o corpo", que guarda íntima conversa com a anterior. Nela, as artistas desconstroem visões tradicionais e aprisionadas de corpos femininos e, muitas vezes, os usaram como tela de seus trabalhos. Quando não eram tela, eram o ponto de partida de uma narrativa que aproximava mulheres da natureza e as desamarravam de noções socialmente construídas.


Essa relação é melhor explorada em "Paisagem do corpo", em que as mulheres exploram as paisagens (naturais ou não) e as confrontam com suas essências físicas, biológicas e psicológicas. Foi, para mim, o momento em que as influências culturais das diferentes nacionalidades das artistas ficaram mais evidentes: a mexicana que se perdia com o urbano da Cidade do México ou a brasileira que fotografou a epiderme de mulheres e, com técnicas de superexposição, comparou a pele feminina com raízes de árvores.


Em "O Erótico", a inversão de papéis: mulheres não eram mais os objetos de fantasias sexuais estabelecidas por homens, mas sim as autoras das representações de seus próprios desejos. O erótico e o sexual se tornou político, exigindo um posicionamento crítico para repensar uma dinâmica tão estática quando a arte lasciva e desconstruir padrões definidos masculinamente, consagrando um movimento emancipatório da sexualidade feminina. Na parede, uma citação de Teresinha Soares, artista que também contribuiu para a exposição: "o exercício sexual livre exige liberdade política e social".


A oposição do privado-público é abordada diversas vezes ao longo da mostra, porém se torna o centro dos trabalhos expostos em "Lugares sociais". As obras de lá são engajadas politicamente, representando mulheres como parcela social marginalizada e submissa, condenada à servidão do homem. As artistas se rebelam contra a estagnação de mulheres no lugar do "outro" e veiculam seus trabalhos como meio de comunicação de alerta sobre essa opressão sistemática. É a seção mais interseccional: fotografias de mulheres trans, representações de mulheres indígenas e retratos de pessoas com deficiência são só alguns exemplos.


Foi em "Resistência e medo" e "Feminismos" que eu passei mais tempo. O lugar de mulher artista latinoamericana em regimes ditatoriais é um lugar de violência e insegurança constantes. É sufocar com repressão. É não ter apoio institucional e não se enxergar em nenhum cargo de poder. É perseguição e tortura. As mulheres autoras dessas obras e donas dessas narrativas documentaram seus terrores, medos e resistências contra aquele regime e contra a violência do Estado.


Mesmo que não se reconhecessem como feministas, as artistas se engajaram em um ativismo comprometido com combater violências e exclusão política, social e econômica de mulheres. Foi a primavera de narradoras se colocando no centro das histórias e da História, relativizando conceitos há tanto tempo tidos como verdade.

Beatriz Vergette é aluna do 4º período da FGV Direito Rio

#ArquivoÁgora

ISSN: 2447-2662
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