• Isabella Marins

Mudança

Era um dia característico de verão quando te vi pela primeira vez. O céu estava azul. As folhas, que passei a sempre ver da janela do seu quarto, estavam mais verdes que o normal. O trânsito era calmo. Tudo parecia propício ao nosso encontro. Já estava desgastada, até desesperançosa, depois de ter procurado por tanto tempo. Mas, finalmente, te achei. Subi as escadas da pequena portaria e entrei no elevador de porta pantográfica, me sentindo como que em um filme antigo. Abri a porta branca com o número 403 e me deslumbrei.


Tudo o que eu desejava estava ali: um piso de madeira, janelas enormes, muita luz, armários cheios de espaço e um banheiro com azulejos azuis. O apartamento perfeito. O apartamento perfeito para iniciar minha nova vida.


Casa passou a ter outro significado. Não era mais o mesmo lugar onde meus pais moravam, onde dormiam meus cachorros ou onde ficavam as roupas da minha irmã. Não era mais onde passei parte da infância ou da adolescência, onde estudei incansavelmente para o vestibular. Basicamente, não era mais o lugar onde cresci.

Casa era agora um apartamento de dois quartos no Rio de Janeiro. Era uma cama de casal, uma sala sem móveis e um chão sujo de glitter.


Foi o lugar das primeiras vezes, de todas as outras que foram e das que ainda viriam: senti saudade dos meus pais, queimei comida, me fantasiei pro carnaval, me estressei com a faculdade, maratonei Friends mais de 5x, vomitei no colchão, lavei o colchão, me senti sozinha, me senti vazia, me senti completa, me senti lotada, chorei, fiz drama, chorei mais um pouco, voltei da Lapa com os pés doendo, dancei funk no banheiro bebendo cerveja, passei a gostar da minha companhia, me apaixonei por um carioca, deitei no sofá (que passou a ser o solitário móvel da sala), voltei vermelha da praia, me vesti de LED, voltei correndo do cinema de madrugada, errei muito, errei pouco, comi pêssegos depois de ver “Call Me By Your Name”, questionei a vida por causa de “Mãe!”, aprendi com a felicidade, mas também com a tristeza e me tornei alguém de quem eu gosto muito mais. Tanta coisa, tão pouco tempo.


Não cresci do jeito que cresci antes. Cresci de uma forma nova. Foi a mudança.


Foi triste ir embora. Deixar para trás todas aquelas memórias, no quarto andar de um prédio habitado por vários senhores e senhoras, que deviam detestar quando eu chamava meus amigos pra comer pizza e ouvir música alto durante a noite. Significou mais do que finalizar uma etapa importante. Significou abandonar tudo aquilo que o 403 representava e começar de novo.


Mas, mudar é um ciclo. É crescer cada dia um pouquinho. Seja sempre no mesmo lugar, seja em vários outros.


Felizmente, um pedacinho ainda restou: o apartamento novo fica na mesma rua.

Por Isabella Marins

Estudante no 4º período na FGV Direito Rio.


ISSN: 2447-2662
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